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quinta-feira, 2 de junho de 2016

memórias literárias - 340 - DONA GERUSA OU CONSELHOS PARA A FELICIDADE



DONA GERUSA, OU
CONSELHOS PARA
A FELICIDADE

340
Dna. Gerusa sempre fora uma boa mãe. Crente exemplar, esposa virtuosa, filha primorosa. Mas há alguns anos passou a sofrer de graves crises emocionais, ansiedade, dores no corpo e insônia recorrente. Tentara a todo custo ver-se livre de remédios, pois, segundo os seus conceitos, uma crente não deveria precisar disso. Sucumbiu ao princípio, quando não foi capaz de suportar mais. Dopada e tratada em especialistas, continuou com problemas, ora com crises de hipertensão, ora com profunda taquicardia. Foi então que decidiu chamar o pastor.
- Dna Gerusa, desde quando a senhora está assim?
- Ah, pastor, já faz quinze anos, só que estou piorando a cada dia! Acordo o meu esposo com crises de ansiedade, taquicardia, falta de ar. Corremos ao médico, fazemos os exames e então nada é detectado. Eu não sei mais o que fazer!
- Como estão os seus filhos? E os seus irmãos?
- Pastor, como eu queria resolver os problemas deles! Maria, a mais velha, divorciou-se, está procurando um novo relacionamento e as crianças sofrem. Eu, de minha parte, procuro fazê-la ver a importância do casamento original e da família, uma vez que o ex-marido foi vítima de toda essa instabilidade. Eu nem consigo dormir pensando nisso! Caio, o do meio, está muito bem. Serve ao Senhor e trabalha nas forças armadas. Com ele não me preocupo. Mas Juliana, ah, quanta falta ela me faz! Foi morar na Suécia e nunca mais voltou! Nós nos falamos pela internet, mas não é a mesma coisa!
- E a sua saúde, irmã, além desses problemas, como tem reagido?
- Pastor, as dores nas juntas são constantes! Eu não consigo mais ficar em pé por longo tempo! Veja o meu braço, tem manchas. Será que é câncer? Ah, pastor, tenho tanto medo! Outro dia eu senti uma pontada na barriga e imaginei um tumor enorme crescendo no meio do meu intestino. Eu já não o tenho regulado há dias! Além disso a circulação está mal e eu tenho medo de ter que amputar os pés. Pastor, será que é muito difícil viver sem um membro? Isso me perturba! Eu choro!
- E o seu esposo, irmã? Como estão sendo esses dias, já que estão aposentados?
- Eu nem desfruto, pastor! Eu só choro, vivo deitada. Ele, pobrezinho, às vezes se enerva com tantos socorros que tem que me prestar o tempo todo. Diz que não se aposentou; arrumou dois turnos integrais com as minhas complicações. Eu o acordo à noite para reclamar e para falar dos problemas dos meus irmãos e irmãs, dos nossos filhos, os meus, ah, é tão difícil! Ele está cansado. Será que o senhor poderia me ajudar, pastor?
O pastor, pensativo, e em oração, pediu a iluminação do Espírito Santo. O Senhor, que nunca lhe faltava em qualquer necessidade, deu-lhe a palavra adequada. E então perguntou:
- A irmã me permite dizer exatamente o que eu acho?
- Claro, pastor! Foi para isso que eu pedi ao irmão para vir aqui! O meu esposo e eu até oramos, rogando ao Senhor para lhe dar as palavras certas! Estou ansiosa por saber o que pensa!
- Então falarei, irmã. Quero dar-lhe três conselhos para que a sua crise seja diminuída, ou, até, resolvida. Os remédios ajudam, mas, no seu caso, creio ser mais sensato tratar as causas. Se continuar a tratar as consequências, é como tentar limpar um rio sujo apenas na área onde esta: depois de limpo, ele volta a contaminar-se, pois a fonte de onde vem está doente. Os colhselhos serão úteis, mas só se tiver a disposição de segui-los. A senhora aceita?
- Claro, pastor! Pode dizer!
- O meu primeiro conselho é: PARE DE VIVER A VIDA DOS OUTROS! A senhora concentra toda a sua atenção nos problemas que os seus filhos enfrentam, nas dificuldades de seus irmãos, nas vicissitudes da vida deles. Conquanto os oriente no que devem fazer, sofre porque eles não fazem o que deveriam. E então gasta todos os seus pensamentos inutilmente, ora clamando para fazê-los agir do jeito certo, como se tentasse apertar um botão no controle remoto e provocá-los ao bom comportamento. E, por não conseguir isso, sofre. Irmã, a senhora não pode mudá-los! O máximo que Deus nos autoriza é orar por eles, mas deixá-los escolherem o seu próprio destino! Já dizia o velho ditado: "o que não tem remédio, remediado está!" Assim, fazer ou deixar de fazer é com eles. Como a senhora não é onipotente, de nada adiantará amargurar o pensamento. A bíblia recomenda: "Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nEle, e Ele tudo fará" (Salmos 37.5). Josué disse ao povo de sua época que eles deveriam escolher os deuses a quem serviriam; contudo, ele e sua casa serviriam ao Senhor, único Deus verdadeiro. Josué deixou que eles escolhessem por si sós, ainda que os admoestasse. A senhora não consegue deixar que os outros escolham! A senhora quer escolher por eles! Como não consegue, sofre! Não convém ser assim, irmã! Lance a sua ansiedade ao Senhor e deponha aos pés dEle os seus pedidos. E depois descanse na paz de Deus! Diga: "Estão entregues em Tuas mãos e na Tua paz descansarei!"
- O meu segundo conselho é: NÃO TENHA MEDO DE MORRER! Não viva desesperada, imaginando que um índice do exame de sangue já é um atestado de óbito! Não regue diariamente a expectativa de morte, antecipando-a aos dias de vida que Deus lhe deu! Ele não nos revela a hora da morte, justamente porque nós gastaríamos toda a mente preocupados em detê-la. A morte virá quer queiramos ou não! A senhora vai morrer! Eu vou morrer, todos morreremos, exceto a geração do arrebatamento, mas isso não nos compete decifrar, apenas esperar! Não precisamos convidar a morte para dentro de casa, agonizando cada minuto na expectativa de sua chegada! Jesus disse que veio trazer-nos vida abundante e não morte dilacerante! Cada minuto gasto a pensar na chegada da morte é um pedaço de vida que se vai! Além disso, ao invés de tornar a vida alegre, torna-a insuportável, tanto para si quanto para o seu esposo e todos que estão ao seu redor! Viva! Não tente enganar-se, dizendo que conseguirá detê-la, mas não procure-a dia após dia! Este é o dia que o Senhor nos deu e devemos nos alegrar intensamente com ele! Um bom café, um bom almoço, um teto acolhedor, uma cama quente e uma família, bênçãos a desfrutar em vida. Não temamos a morte, porque em Cristo estamos salvos. Mas não a cultivemos, pois estragaremos a vida que já temos! Quando ela vier, virá e pronto. Ela não nos vencerá, apenas temporariamente nos tombará; estaremos com Cristo, no Paraíso e depois ressuscitaremos incorruptíveis!
- E o último conselho é: PLANEJE A SUA VIDA! A senhora perde todo o seu tempo em coisas que não pode mudar! A sua preocupação intensa muda algo na decisão de seus filhos? Não! A sua luta intensa para determinar se já está morrendo vai dar-lhe imortalidade? Não! Porém, não sobra tempo para viver! E o tempo que tem é perdido nesse cícrulo de amargura! Irmã, o seu esposo é vivo, está ao seu lado, vocês não trabalham numa empresa, têm agenda livre, sejam criativos! A senhora já viu a quantidade imensa de gente que é obrigada a aposentar e morre pouco tempo depois? São pessoas que se sentiram inúteis, que perderam a referência de propósitos e não encontram mais nada. E para quê viver assim? Planeje a felicidade! A felicidade não custa caro. Além da vida na igreja, prioridade para nós, gastem uma noite na semana numa padaria a comer sopas no inverno, tomarem sorvetes no verão, visitem um shoping, um parque, andem de mãos dadas na praça. Visitem amigos, realizem um culto doméstico diferente, passeiem de carro pela estrada. Mensalmente programem-se para um bom restaurante, assistam uma orquestra, uma sinfonia, façam um passeio mais longo, gastem uma noite num hotel. E planejem algo a longo prazo: a mudança da mobília, uma viagem ao exterior ou um roteiro nas montanhas, uma semana de atuação num asilo ou orfanato, tudo com tranquilidade. Sem planejamento nós somos como os dutos de água que arrebentam na cidade: tanta água desperdiçada; nós temos tanto tempo, mas tudo se escoa pelo ralo, sem proveito algum, porque desperdiçamos em futilidades.
O pastor viu lágrimas nos olhos da irmã Gerusa. Orou com ela e com o esposo. E jantou com eles, um peixe delicioso. No rosto do Irmão Teotónio uma esperança, a de que a esposa melhorasse. No rosto da irmã Gerusa um rubor de quem estava sentindo a esperança brotar. E, após tão abençoada refeição, o pastor partiu para casa.
Quantas Gerusas me lêem neste momento! Quantas são jovens, são mães, ou até homens, são pais, ou são pessoas que não têm ninguém! São pessoas que vivem do passado que foi sempre melhor, que almejam um futuro inatingível, leitores que sofrem com as más decisões das pessoas que lhes são caras e que nunca experimentam uma paz duradoura ou uma alegria imorredoura! Está na hora de mudar essa realidade!
Não viva a vida alheia; viva a sua vida e deixe que os outros tomem as suas decisões! Ore intensamente por elas, mas seja responsável pelas suas decisões! Não misture-se nos problemas dos outros; se um médico sofresse as dores com o paciente ou com ele se desesperasse, jamais poderia tratar a doença. É preciso encontrar forças no Senhor! Se o aluno preocupar-se em fazer a lição do outro deixará a sua em branco e tornar-se-á réprobo. Deus deu uma vida para que respondamos por ela. Façamo-lo com atenção e deixemos as pessoas queridas bem orientadas e sempre apresentadas a Deus em oração. Mas vivamos a nossa vida com responsabilidade, como mordomos do fôlego que é de Deus e a quem devolveremos no final.
Não antecipe a morte! Não cultive a sepultura antecipada! Há gente sofrendo muito mais e com muito maior vontade de viver! Vá ao hospital do câncer infantil e veja como aquelas crianças vivem cada dia como uma dádiva! Veja uma mãe de filho prematuro o quanto celebra uma tarde a mais, até que consiga tê-lo em seus braços! Pare de reclamar ou de medir de forma doentia seus múltiplos exames, para verificar se a morte já chegou. Quem se ocupa diuturnamente de doenças morre por antecipação. Viva a vida! Não reclame das limitações, bendiga pelo que ainda tem e recebeu! Este escritor vive desenganado pelos médicos desde 1982, quando foi diagnosticado com falha cardíaca letal e continua vivo! Além disso, neste tempo-bonus já ganhou uma maravilhosa esposa aos 45 anos e uma filha lindíssima aos 50! Ele poderia viver deitado, aguardando a morte. Mas está vivo e agradece ao Senhor pelo dom da vida! Ele irá morrer. Quando? Quando o Senhor permitir. Mas vai aproveitar o bilhete até o último segundo, enquanto o grande parque da vida funcionar!
Planeje os seus dias! Quanto tempo perdemos na frente de uma televisão, contemplando a vida dos outros! Isto é o que o Diabo deseja, tornar-nos expectadores da vida alheia. Enquanto isso, detidos na inatividade e na contemplação, não vivemos a nossa vida. Vivemos a colecionar restos de passado, quando ainda tínhamos fagulhas de felicidade. Tudo que é bom está no passado: "quando eu era jovem", "quando eu tinha saúde", "quando eu estava na minha casa", "quando eu trabalhava lá". Se planejarmos a nossa vida poderemos alterar o tempo verbal para o presente e para o futuro! Planejemo-nos para uma semana, para um mês, para um trimestre! Assim como quem cozinha mistura os ingredientes para fazer uma comida apetitosa, distribuamos em nossas semanas, meses e trimestres de tudo um pouco, desde que lícito e do agrado do Senhor: culto, devoção pessoal, visitas familiares, passeios, exercícios físicos, sessões culturais, leituras boas, telefonemas para os amigos, ajuda ao próximo, missões, diversão, passeios. Um planejamento mostra-se mais barato que uma vida sem rumo ou prumo; viver sem planejamento sai mais caro pelas surpresas decorrentes da ansiedade e do medo da morte. Vale a pena planejar-se!
Para fins de informação, o pastor de nossa estória espera encontrar a irmã Gerusa no mês que vem. E quer vê-la bem melhor, menos tensa, menos ansiosa, e mais disposta e feliz. Afinal, quem já tem Jesus como Salvador pode ter vida, e vida com abundância!
Wagner Antonio de Araújo
02/06/2016
obs: baseado num fato real.

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