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segunda-feira, 22 de maio de 2017

memórias literárias - 454 - O CRENTE EM CAMADAS


O CRENTE

EM CAMADAS


454

O técnico de informática consertava o meu computador e, enquanto conversávamos a máquina atualizava as informações. Falávamos sobre a falta de integridade das pessoas. Ele confidenciava-me sobre a decepção tida com certas pessoas públicas a quem conhecera. Eu mencionei um artista de TV, que faz o boneco de um programa de auditório. Também faz um papel num programa de humor daquele canal, representando um professor promíscuo que gesticula chulamente enquanto disfarça suas conquistas. Esse artista é evangelista (identificado como pastor pelo apresentador) de uma grande denominação evangélica. Já pregou naquele congresso neopentecostal do sul do país, jactando-se da vida dupla. Então o técnico me perguntou: "Por que as pessoas são assim? Não combina! Como conseguem?"

Eu lhe disse: "Você, que conhece tudo de computação, sabe que pode fazer camadas de programação. Assim, sobre a plataforma do meu sistema consegue rodar diversas coisas diferentes, algumas completamente diversas. São camadas de funcionamento da máquina. A vida de certas pessoas também é assim. Esses homens que se dizem crentes e vivem no pecado são crentes em camadas, dedicando apenas um espaço da vida à fé, sem deixar-se influenciar no todo pelo poder de Cristo. Podem ser promíscuos, podem ser adúlteros, podem ser desonestos, podem usar vocabulário chulo, mas, quando vão à igreja ou quando fazem seus ritos evangélicos, rodam uma outra camada de si mesmos. Eles pensam que são crentes, mas, na verdade, são homens em camadas. E pessoas assim não se converteram por inteiro. Cristo sempre salva o homem por completo.  Logo, se só uma camada roda o evangelho, então essa salvação é periférica e falsa. Ele não está salvo; é um blefe". Portanto, pelos seus frutos os conhecereis. (Mt 7:20)

De fato Jesus insistiu com os apóstolos quanto a ser ÍNTEGRO, inteiro, em sua fé e prática, quando disse:

Mas o que ouve e não pratica é semelhante ao homem que edificou uma casa sobre terra, sem alicerces, na qual bateu com ímpeto a corrente, e logo caiu; e foi grande a ruína daquela casa (Lc 6:49)

Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim. (Mt 10:37)

Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom. (Mt 6:24)

Se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis. (Lc 13:3)

Geralmente esses "crentes em camadas" procuram igrejas periféricas na mensagem, cujo conteúdo não afeta a vida dos seguidores. Hoje tais igrejas são explícitas nos convites: "somos inclusivos, não temos preconceitos, aceitamos toda sorte de sexualidade, de comportamentos, de posições políticas, de práticas de vida. Todos podem compor esta igreja". Há muitas assim. Em minha denominação há igrejas tão liberais que não exigem nem conversão e nem a presença; apenas o cartão de crédito cadastrado. Há igrejas que só pedem tolerância. No meio neopentecostal tem igrejas para lésbicas, para gays, para práticas de religiões ocultistas, para livres pensadores, para judaizantes, para roqueiros, para fanqueiros etc. Isto é, as pessoas são crentes numa camada, a intelectual, a emocional, a comercial, mas não o são no íntimo, de uma forma que altere radicalmente a sua existência. E um evangelho que não corta pela raiz a vontade do pecado não é realmente o evangelho de Cristo.

Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus. (1Jo 3:9). Entenda-se por "não peca" (nesta versão antiga) o sentido de "não vive pecando". Afinal, no mesmo texto, escrito está: Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo. (1Jo 2:1)

Se uma suposta conversão a Cristo mantém o indivíduo do mesmo jeito que era, modificando apenas a sua prosperidade, popularidade, cura física ou felicidade emocional, então não houve verdadeira conversão; ouve adaptação externa, uma camada fina de verniz sobre um coração tão pecaminoso como antes.

E por que me chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo? (Lc 6:46)

A verdadeira conversão exige obediência. Se não houver obediência a fé é vã e a pessoa não passa de um "crente em camadas", isto é, um cristão de mentirinha.

Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. (2Co 5:17)

Ou Jesus é o Senhor de tudo e muda o homem na plataforma principal, ou não é senhor de nada, ainda que haja muitos crentes em camadas. Finda a vida acabam-se as camadas e não sobra nada. Essa fé não me interessa.

Wagner Antonio de Araújo

23/05/2017

memórias literárias - 453 - PESADO FOSTE NA BALANÇA

PESADO FOSTE

NA BALANÇA


453
Um grande banquete. O filho de Nabucodonosor regozijava-se com os seus convivas. Bebia, comia, ria, dançava, desfrutava de todo o poder e luxo que o seu pai Nabucodonosor lhe deixara como herança. Mas era um rei medíocre.

Então orgulhou-se de quem era e mandou buscar nos depósitos do palácio os utensílios de adoração do Deus de Israel, armazenados pelo pai há anos, quando invadira o templo em Jerusalém. Tomou-os e celebrou aos seus deuses, bem como sorveu vinho e bebidas misturadas, junto com suas mulheres e convidados.

Imediatamente uma mão surgiu na parede, vinda de outra dimensão. Escreveu na parede palavras inintelegíveis. O rei percebera que forças maiores do que as dele estavam presentes e que boa coisa não era. Buscou alguém que as interpretasse. Não encontrou, ainda que prometendo cargos e presentes. Sua esposa lembrou-o de um velho funcionário público da alta administração, que também era profeta, Daniel. Mandou chamá-lo.

Perguntou o que era aquilo e disse que se a resposta fosse satisfatória, fá-lo-ia o terceiro no império e dignatário de inúmeros presentes. Daniel, homem velho e muito experiente, manda ele fazer o que quiser com os presentes, que não tinha interesse em nada daquilo. Mas que daria a interpretação daquela escrita.

MENE - MENE - TEQUEL - UFARZIM. Esta é a interpretação daquilo: mene: Contou Deus o teu reino, e o acabou. Tequel: Pesado foste na balança, e foste achado em falta. Peres: Dividido foi o teu reino, e dado aos medos e aos persas. (Dn 5:26-28).

Naquela mesma noite o rei foi capturado e morto. Acabou-se a arrogância deste homem que não soube administrar as coisas que recebera.

Isto serve de exemplo para muitos de nós. Quando necessitados clamamos a graça de Deus. Pedimos uma esposa. Pedimos um carro. Pedimos uma oportunidade de emprego. Pedimos a solução de um problema. Suplicamos por uma cura. Deus, em Sua infinita misericórdia, acolhe o nosso clamor e nos abençoa. A bênção é maravilhosa! Recebemos os recursos, o emprego, a saúde, a solução dos problemas, enfim, recebemos as bênçãos do Senhor.

Então, de barrigas cheias e bem nutridos, esquecemo-nos de quem nos abençoou e dos compromissos que assumimos com o Senhor. Agora não precisamos mais dEle. Antes O buscávamos por interesse, por necessidade. Aceitávamos a oração de todos e íamos à Casa de Oração até em dias em que não havia culto. Considerávamos importante ler as Escrituras Sagradas, fazer as nossas ofertas e entregar os nossos dízimos e manter de forma correta a nossa vida particular.

Mas agora, quando não precisamos mais de nada, esquecemo-nos de quem nos salvou, de quem nos curou, de quem nos resgatou e acolheu as nossas inúmeras súplicas. Vamos às festas! Sim, aos festejos distantes de Deus. Festas por si só não são ruins, mas nós festejamos os motivos errados e de forma mundana, descompromissada com os valores de Deus. Se compramos o sítio tão sonhado, deixamo-lo arrancar o Dia do Senhor da nossa agenda, porque agora temos que cuidar da fazenda. Se foi um emprego, atulhamos o domingo de atividades profissionais, sem pejo em arrancar de Deus as preciosas horas de adoração. Se fomos curados, nem sequer nos lembramos de consagrar o próprio corpo ao serviço divino, buscando ao Senhor em Sua casa e servindo ao próximo.

Nós tomamos as coisas santas e as secularizamos, transformando a fé numa mera discussão de opiniões. Abandonamos a igreja e passamos a considerar um grupo de internet como suficiente para um compromisso pessoal com o evangelho. Deixamos a Casa de Deus, o exame da bíblia, o serviço comunitário, o investimento nos dons e talentos e usamos tudo o que recebemos no mundo, de onde fomos resgatados.

É tão típico do ser humano! O grande jogador de futebol da atualidade foi um garoto de igreja e hoje não tem tempo para o evangelho e nem dá testemunho do que aprendeu. Mas dá ofertas polpudas e cala a boca dos seus pastores. Compra com dinheiro e usa os utensílios do templo numa carreira mundana. Aquele cantor de rock, de quem dizem que não morreu, aprendeu a cantar na igreja. Não só ele, mas a outra que se suicidou aos 37 anos, o cantor cego que virou ícone da música negra, o outro que inventou o funk americano etc. Tomaram os utensílios do templo e foram beber com as devassas. E muitos pastores, que entraram nos seminários humildes, com o desejo de um preparo melhor para servir a Deus nos cultos e na evangelização, tornaram-se políticos e politiqueiros da fé, favorecendo a si próprios e à família, envolvendo-se com o pecado, com os desmandos, desvios e fraudes. Que vergonha! São uma metamorfose ambulante, no dizer do poeta mundano.

Ah, você que me lê! Cuidado com a mão de Deus na parede! Pois um dia destes, sem avisar, o Senhor poderá escrever em letras garrafais: PESADO FOSTE NA BALANÇA E ACHADO EM FALTA.  Quando Deus desistir de tocá-lo, conduzindo-o ao arrependimento, não haverá nada que possa ser feito. Não adiantará chorar por ter perdido o emprego, nem reclamar pela doença grave que regressou ou o acometeu, ou pelo patrimônio que esfarelou como areia (não que essas coisas apenas signifiquem penalidades, mas que, associadas com o abandono da fé, são!) Naquele dia você poderá chorar, lamentar, clamar, mas já será tarde demais.

Volte-se para Deus. Regresse ao primeiro amor do evangelho. Seja um simples cristão praticante e abandone toda essa jactante teologia que faz de você um polemista de desculpas. Volte-se para o Deus a quem um dia você serviu. E não perca o patrimônio espiritual que um dia recebeu das mãos do Pai. Senão, aguarde que a mão virá e você terá que ler sozinho o que estiver escrito, pois Daniel não lhe socorrerá com a interpretação.

Tenha Deus misericórdia e desperte os que ainda dormem no pecado.

Wagner Antonio de Araújo

22/05/2017

sexta-feira, 19 de maio de 2017

memórias literárias - 452 - INTEGRIDADE


INTEGRIDADE

 

 
452
 
Essa tal de integridade anda escassa no Brasil. Talvez no mundo.
 
Qualquer um tem direito de ser quem o que quiser e pensar como desejar. Porém, se ao longo da vida faz mudanças bruscas, sem a justificação de uma conversão ou de uma legítima motivação, a imagem que transmite é de que não é uma pessoa íntegra.
 
Pior que isso é quando na frente das câmeras porta-se de uma forma e, por trás, vive uma outra realidade. Hoje, estarrecidos, os brasileiros enxergam o quanto os políticos são corruptos. Nesse mar de lama contemplam pessoas que, sob uma câmera oficial, falam bonito, falam o que todos gostam de ouvir, seja para os de direita, seja para os de esquerda. Eles sintetizam um desejo nacional e polarizam a popularidade. Porém, quando filmados, gravados ou descobertos por detrás das câmeras, o resultado é terrível: são exatamente iguais, corruptos e devassos.
 
A Bíblia já falava sobre isso há muito tempo. O profeta Jeremias já dizia a Israel: Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor! (Jr 17:5)
 
Quando tornamos uma pessoa a quem admiramos nosso ídolo, cedo ou tarde descobriremos que ele não é realmente tudo aquilo que nós idealizamos. Mais grave ainda é quando ele é um enganador, que simula na nossa frente uma realidade que não lhe diz respeito. Jesus disse isso dos fariseus, quando exclamou: Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia. (Mt 23:27)
 
Há pastores que são um blefe perfeito. Nos púlpitos são verdadeiros anjos de gravata. Falam os oráculos divinos e simulam um poder e uma fé absolutamente verdadeira. Posteriormente, quando descobertos em suas vidas privadas, mostram que não passavam de hipócritas e mentirosos. Nesse rol está aquele pastor pentecostal, que, ao gravar com sua esposa um programa, aborreceu-se e xingou-a no áudio. Não sei como o material veio parar na internet. O outro, filho que leva o nome do missionário seu pai, dono de uma das maiores denominações neopentecostais do país, foi descoberto num caso de sedução a moças, com conversas prá lá de impróprias para uma pessoa de bem. Um outro foi filmado com uma amante, flagrado pelo marido dela. Coisas como essa geram um escândalo tão profundo, que afastam os incrédulos do evangelho e tornam insustentável a vida de muitos crentes escandalizados. Por isso a Bíblia afirma: Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é mister que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem! (Mt 18:7)
 
E antes que uma porção de pedras sejam atiradas nestes citados acima, seria bom que fizéssemos uma análise de nós mesmos. O que seria de nossa imagem pública se fôssemos gravados ou filmados em nossa vida privada, em nossos negócios particulares, em nossos relacionamentos afetivos, em nossa vida espiritual? Por exemplo, uma câmera em nosso quarto: flagraria a imagem de uma pessoa crente, que tenha ou não família, ou o comportamento idêntico aos não cristãos? Se uma câmera nos filmasse ao volante do automóvel no trânsito, será que a linguagem que usamos poderia ser reproduzida no púlpito de uma igreja ou numa reunião entre os nossos familiares? E a nossa vida financeira, seria de fato uma vida de honestidade ou há coisas ilícitas que praticamos para benefício próprio ou de terceiros? Como diria a personagem Luna dos desenhos infantis, "são tantas perguntas!"
 
A coisa mais linda é um crente ser flagrado em sua vida privada comportando-se como um crente. Um homem de Deus tem vida honrada na frente dos outros e na sua vida privada. Que coisa linda quando os políticos da época buscaram flagrar Daniel numa ilicitude nacional. Foram até a sua casa para testemunhar o fato. E testemunharam. Não, ele não estava com uma mala de dinheiro, não estava xingando os mais variados palavrões e nem amotinando-se contra o poder. Vejam o que acontecia: Então aqueles homens foram juntos, e acharam a Daniel orando e suplicando diante do seu Deus. (Dn 6:11) Passou pela provação de ser punido por ser um homem crente; mas Deus o libertou e fez dele um exemplo: Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele tudo fará. (Sl 37:5).
 
 
No início do livro ESTE MUNDO TENEBROSO volume 1, Frank Perretti conta a estória de dois anjos que corriam para a pequenina igreja da cidade. Havia uma bem grande, mas não a procuraram. Passaram pela parede da igreja e encontraram, entre um banco e outro, um pastor sofredor e lutador, que, de joelhos, rogava a graça de Deus pela sua igreja e pela conversão da sua cidade. Os anjos dizem: "É por causa dele que estamos aqui". Ah, quantos que me lêem, sejam pastores, sejam leigos, sejam homens, sejam mulheres, sejam jovens, sejam crianças, poderiam também ser flagrados pelo Céu a orarem? Então me disse: Não temas, Daniel, porque desde o primeiro dia em que aplicaste o teu coração a compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, são ouvidas as tuas palavras; e eu vim por causa das tuas palavras. (Dn 10:12)
 
"Oh, Deus, peço a Ti que eu tenha integridade! Que eu seja o mesmo na frente dos outros e na ausência de todos! Que a minha fé não seja hipócrita, mas séria e verdadeira! Peço-Te que me ajudes a vigiar, para que eu não entre em tentação. Que eu não escandalize a ninguém, seja por palavras, por atos ou por pensamentos. Que a minha vida seja íntegra, que eu seja verdadeiro e que o Teu Nome seja honrado no meu viver. Em nome de Jesus, amém."
 
Wagner Antonio de Araújo

19/05/2017

sábado, 13 de maio de 2017

memórias literárias - 451 - A ESTÓRIA DE SOLANO


A ESTÓRIA
DE
SOLANO

 
451
 
Solano entrou na igreja como quem não queria nada. Chegou, sentou-se e ouviu os hinos. Gostou. Depois ouviu a pregação. No momento do apelo, entregou-se a Cristo.
 
Sua conversão foi genuína e rápida. Ele foi transformado pelo poder de Deus e em três meses foi batizado. Tornou-se membro da igreja. Trouxe a sua família para assistir. Eles gostaram, ficaram, converteram-se e também foram batizados. Uma família de seis, papai, mamãe e quatro filhos.
 
Mas Solano estava desempregado. Não tivera grande chance para estudar; suas qualificações profissionais eram muito limitadas. Os amigos diziam que ele não iria conseguir nada. Mas ele confiou no Senhor.
 
Fez fichas em todos os lugares disponíveis. Às vezes um ou outro irmão,  ao cumprimentá-lo, deixava dez ou cinquenta reais em sua mão. Ele, constrangido, não queria aceitar. Mas a insistência era grande e ele pegava. Sua esposa fazia artesanato para vender entre as vizinhas. As irmãs da igreja souberam e pediram para que trouxesse ali também, para que, após o culto, pudessem comprar. E assim garantia o leite e o pão das crianças.
 
Enfim, Solano encontrou uma vaga para trabalhar numa empresa de ônibus urbanos. Não era grande coisa. Seria faxineiro da garagem, lavando os ônibus que estacionavam após o expediente. Os colegas eram sizudos e reclamavam das condições e do salário. Solano, no entanto, ao chegar, trouxe uma luz para aquela empresa. Seu período da madrugada tornou-se muito agradável. Os colegas gostavam de ouvi-lo cantarolar os hinos que cantava. Ele o fazia baixinho, mas eles pediam que cantasse mais alto. E assim ia esparramando a mensagem de Cristo. Os ônibus passaram a ser lavados com mais cuidado, pois a paz que ele trouxera fez bem até para a produção. Em quatro meses chamaram-no no escritório. Ofereceram-lhe o serviço de cobrador (trocador).
 
Ele alegrou-se. Aceitou. E tornou-se um cobrador muito querido. Como a sua linha era fixa, conhecia as pessoas que utilizavam-se daquele ônibus. Os idosos, os trabalhadores, as mocinhas chegavam sorrindo, pois ele as recebia com carinho. E sabia o nome de muitas delas! No dia de Natal muitos passageiros trouxeram cartões e presentes para ele e para o motorista. Também pudera: ele pedia ao condutor para esperar a Dona Maria subir, dava um jeitinho para que alguém não ficasse sem a condução por faltar todo o recurso e, assim, conquistou o carinho da comunidade. Foram onze meses. Chamaram-no de novo. Promoveram-no a motorista! Sim, ele fez curso, habilitou-se e tornou-se motorista do próprio ônibus onde cobrava!
 
Dias inesquecíveis. Quando o fechavam no trânsito, ele não xingava. Pelo contrário, acenava e dizia: "Deus lhe abençoe, vá com Deus". Acabava por trazer paz nas ruas e avenidas onde estava. À noite, quando passava na porta da escola, via que muitos adolescentes corriam para pegar o ônibus. Então ele ia bem devagarinho, até que o grupo todo chegasse. A moçada amava o Solano! Ele não era só um motorista, era um amigo.
 
E na empresa ele não gerava ciúmes; pelo contrário, os colegas gostavam dele, porque "quebrava o galho" de muitos, cobrindo folgas, ajudando com horas extras, sendo camarada de todos.
 
Foram três anos. Promoveram-no a fiscal. Agora ele era o encarregado de uma grande turma. Foi o melhor período daquelas linhas. Os motoristas e os cobradores trabalhavam felizes, porque o Solano era humano, era gentil, respeitava a todo mundo. E, enquanto trabalhava, semeava a mensagem que o transformara: Cristo, o Senhor, o Salvador, o Rei dos reis. Solano nem sempre podia estar no domingo na sua igreja, mas, se não estava no domingo, estava na quarta-feira. Ele sempre amara o Dia do Senhor. Como era obrigado a trabalhar em alguns domingos, fazia do dia de sua folga o dia dedicado a Deus. Evangelizava, distribuia folhetos, cantava na igreja e dava conselhos à mocidade.
 
Muitos dos colegas de Solano tornaram-se crentes no Senhor Jesus. Ele comprava bíblias e folhetos e presenteava aos colegas, fora do horário de trabalho. Visitava alguns nas enfermidades, ajudava-os nas necessidades. Mais de quinze colegas tornaram-se crentes.
 
Solano aposentou-se. Seus quatro filhos o homenagearam quando completou oitenta anos. Todos casaram-se e se tornaram pais de família, amorosos e honrados. A esposa ficou doente, mas contou com os cuidados amorosos do esposo Solano com ela.
 
Faz pouco tempo o Senhor o chamou. Ele partiu para o Céu. No seu sepultamento estava quase toda a companhia de ônibus. Também os passageiros que por anos utilizaram-se dos ônibus que ele conduzia. Igualmente muitos motoristas que aprenderam a ter educação no trânsito com ele. Além destes estava a igreja onde congregava, os amigos dos filhos, a família, enfim, centenas de pessoas. E no seu epitáfio cravou-se em concreto a seguinte frase: AQUI AGUARDA A RESSURREIÇÃO O IRMÃO SOLANO, HOMEM QUE VIVEU A FÉ COMO NINGUÉM.
 
Que outros Solanos possam surgir no coração deste Brasil! Que a fé cristã seja vivida e encarnada com tamanha beleza como o foi no peito deste homem!
Wagner Antonio de Araújo
 

(ficção cristã)

memórias literárias - 450 - LOUVOR DE CONSUMO

LOUVOR
DE CONSUMO

450
 
Enquanto voltava com minha esposa da médica que a acompanha após o parto, ouvia a obra DE VENTO EM POPA, de Vencedores Por Cristo. Esse LP que virou CD teve até uma comemoração de seus trinta anos, celebrada com alegria e graças ao Senhor.
 
Não se trata apenas deste CD na discografia de Vencedores por Cristo. LOUVOR 1, SE EU FOSSE CONTAR, MAIS AMOR, são outras obras que ultrapassam o tempo e as gerações, chegando intactas às mãos dos ouvintes de todas as épocas.
 
Podemos citar o inesquecível GRUPO ELO com CALMO, SERENO E TRANQUILO, um LP gravado na garagem de um dos componentes, que se tornou épico. OUVI DIZER, UM SÓ REBANHO, UM DIA, outras produções que são, por si só, um monumento ao bom gosto e aos valores cristãos.
 
No campo dos solos, Luiz de Carvalho é imbatível com seus LPs inesquecíveis. OBRA SANTA, O REI ESTÁ VOLTANDO, ALVO MAIS QUE A NEVE, VEM VER, têm vida própria, não podem ser vistos com músicas individuais, mas no todo, no grupo das doze canções de cada um.
 
E aqui está o segredo: os louvores gravados antigamente tinham um projeto, um objetivo, um propósito: fazer conhecida a mensagem de salvação de Cristo Jesus, o Senhor. Os grupos jovens usavam os ritmos que se consumiam no período dos anos setenta, tanto aqui quanto nos Estados Unidos, e apresentavam ao pecador o plano de salvação, a razão para a vida, um rumo certo para que se seguisse. As canções eram cristocêntricas, as músicas do LP trabalhadas num projeto inteiro, um todo, objetivando, ao final, uma produção completa, com princípio, meio e fim. O resultado todos nós sabemos: tornaram-se atemporais, presentes em todos os tempos depois de produzidas.
 
Hoje, entretanto, não temos mais nada. O que temos é louvor de consumo. Grava-se não para apresentar a mensagem do evangelho para o pecador, mas para supostamente cantar a Deus louvores, que, para Deus, pouco sobra, pois o objetivo é criar baladas de entretenimento de culto. Tivemos um  tempo em que os chamados worships (louvores de adoração) invadiram as produções, e fizeram época, com músicas inesquecíveis sob a direção de Daniel Souza, Asaph Borba, Adhemar Campos e outras comunidades que gravavam Hillsong, ASCAP, Maranatha etc. Mas nem isso durou, pois hoje o que há é um grande nada, uma mistura de tudo sem qualquer sentido. O resultado: música de consumo, música descartável, música absolutamente de nicho, localizada, que só serve para uma determinada faixa (com exceções).
 
O pecador inconverso, coitado, foi esquecido. A música não é mais produzida para apresentar-lhe a mensagem de salvação. Pressupoe-se de que não há mais necessidade de evangelizar. As músicas precisam ser mantras, cantados "ad infinitum", até cansar, até que todos fiquem suando e entrem em transe. É preciso sentir arrepios e fazer rodopios. Por outro ângulo, muitos cantores mundanos, encontrando o mercado gospel, trouxeram para este público o sertanejo universitário, o axé, a lambada, o funk carioca, o forró pé-de-serra. Há produções feitas pelas mesmas empresas milionárias dos artistas do mundo. E o preço dos shows (sim, são shows) é caro o bastante para consumir parte do salário de um trabalhador. Mas, como produz muita emoção e como está no top do sucesso, os incautos pagam. E pagam caro!
 
Experimente falar a uma igreja comum sobre hinário, Cantor Cristão, Harpa Cristã, Salmos e Hinos, Melodias de Vitória. Eles pensarão que estamos falando em línguas ou citando museus. As canções que cantam são contemporâneas; leia-se: foco no homem que supostamente adora, não no Deus eterno e na Sua mensagem de salvação. Há exceções, e graças a Deus por elas. Mas são tão poucas que chegam a desanimar.
 
Está em tempo de voltarmos a fazer LOUVOR PERPÉTUO, LOUVOR PERMANENTE, fundamentado na Bíblia e que objetive a glória de Deus e a transmissão da mensagem de Cristo. A música cristã entrou na vida da igreja primitiva depois da era apostólica e o seu propósito sempre foi complementar, tanto para quem adora, fornecendo a melodia e a poesia, quanto evangelística, fornecendo a mensagem bíblica. Precisamos voltar às origens e abandonar esse mar de corrupção da música evangélica, cheia de astros humanos, mas sem a Estrela Maior, sem o Sol da Justiça, sem Cristo!
 
Ouvimos DE VENTO EM POPA várias vezes. E vamos ouvir muitas outras. E quando os meus filhos crescerem, se Deus quiser, estarão em contato com a boa música cristã, música cristocêntrica e evangelística, de produções que tiveram projeto, propósito e foco, e não do louvor de consumo, louvor que vence na próxima semana, louvor feito pra vender e não para evangelizar.
 

As benignidades do Senhor cantarei perpetuamente; com a minha boca manifestarei a tua fidelidade de geração em geração. (Sl 89:1)

memórias literárias - 449 - O CRENTE E AS BOAS OBRAS

O CRENTE
E AS OBRAS

449
 
Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta (Tg 2:26)
 
Nós, crentes em Cristo Jesus, somos pródigos em falar da Palavra de Deus, falar do Seu amor, do Seu perdão. Mas, infelizmente, muitos que se apresentam como cristãos, são meras árvores infrutíferas que, em lugar dos frutos só apresentam desculpas.
 
E Jesus, falando, disse à figueira: Nunca mais coma alguém fruto de ti. E os seus discípulos ouviram isto. (Mc 11:14)
 
Nós falamos muito sobre o perdão. Dizemos que o perdão vem de Deus, que é preciso perdoar, que Cristo nos perdoou. Mas basta que alguém nos faça uma desfeita, falte com a verdade ou nos ofenda, para não provarmos do mesmo remédio no coração. Não perdoamos, criamos raízes de amargura e, não raras vezes, rompemos quaisquer laços de amizade e amor. O coração perdoador de Deus, que proclamamos, encontra um coração duro em nosso peito. E a incoerência se torna evidente.
 
Outras vezes nós é que somos os ofensores. Explodimos com alguém, ofendemos, fazemos algo que prejudica a alguém, o desmoralizamos publicamente ou em particular. Ganhamos a consciência de que fomos os errados na história. Mas pedir perdão? Jamais! "Pastor, o meu pai ofende a minha mãe e depois tenta consertar com atitudes; mas dizer: me perdoe; jamais o ouvi usar essa expressão. Ele nunca pede perdão!" Quantos crentes semelhantes a esse existem! Quantos crentes não pedem perdão ao pastor! Quantos pastores não pedem perdão aos irmãos! Mas continuamos a pregar sobre o amor e o perdão de Deus! Filhos, pais, sogros, cunhados, colegas, sócios, perdão é palavra fora do dicionário...
 
Falamos sobre a necessidade de uma vida de oração. Porém, na prática, não temos a tal vida. Temos o desejo, não a prática. E apresentamos inúmeras desculpas diárias: muitas atividades, trabalho, escola, namoro, cuidado para com os filhos, contas a pagar, muito cansaço. Então dormimos tranquilos, certos de que Deus compreenderá que não oramos porque Ele nos tem atulhado de coisas e de atividades. Ou seja, no final Ele é o culpado de nossa prédica diferente da prática! Síndrome de Adão, que culpou Eva, Eva que culpou a serpente, e serpente que não foi questionada, senão culparia a Deus por existir!
 
Proclamamos uma nova vida em Cristo, mals vivemos como os velhos mundanos de todo o dia. Onde nos encontram? Nos estádios, nos restaurantes, nos clubes, nas praias, nos encontros familiares, nos cinemas, em toda parte. E na igreja? Bem, se minha igreja for "prafrentex", então tem muitas coisas "da hora" pra fazer lá. Pode ser que eu esteja. Se Deus precisar de mim terá que me avisar com dez dias de antecedência, senão não terei condições de atendê-lo. Creio que será por isso que tais crentes não subirão no arrebatamento: Deus não poderá avisá-los com tal antecipação...
 
Chega de fé sem obras! Chega de palavras lançadas ao vento! Chega de crentes corruptos, presos na Lava Jato! Chega de pastores adúlteros! Chega de convenções guiadas por ordem judicial! Chega dessa vergonhosa falta de testemunho! Fé sem obras é morta! A fé que não vive o que prega pode até cantar bem, falar bem, ensinar bem, pregar bem, construir bem, prosperar bem, ser feliz bem. Mas não tem parte no Reino de Deus e não passará desta vida.
 
Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica. (Tg 3:15)
 
A fé simples de um homem crente é tudo o que Deus requer de nós. Fé que prega o amor de Deus e encanta o coração deste homem com tal amor. Amor que se expressa em bondade, em auxílio ao próximo, em humildade, em desejo de repartir. Amor que sabe perdoar a quem o tenha ofendido. Amor que sabe pedir perdão quando erra e quando machuca o próximo. Fé que não dispensa a igreja, porque igreja é Corpo de Cristo e manifestação dos dons para serviço coletivo, além da edificação dos salvos. Fé que conduz à oração. Não a mera oração-clichê, oração de rotina, mas a uma vida de verdadeira busca do Altíssimo, prazer em deter-se com o Senhor! Fé que abre a agenda para a vontade de Deus, mesmo que seja uma vontade súbita, algo de momento. Afinal, se não fosse o Senhor que nos deu vida, saúde, trabalho, sabedoria e convívio, não teríamos agenda alguma!
 
Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade. (1Jo 3:18)
 
Está na hora de vivermos o que pregamos. Pregar bem e viver bem. O mundo está olhando para nós.
 
Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus. (Mt 5:16)
 
Wagner Antonio de Araújo

13/05/2017

memórias literárias - 448 - CRENTOLATRIA

CRENTOLATRIA


 
448
 
Eu moro em São Paulo e tenho acesso à Rua Conde de Sarzedas. É o reduto dos evangélicos. Eu lá estive para adquirir lembrancinhas para as mamães e buscar algumas bíblias. E, mais uma vez, voltei estarrecido e perplexo.
 
Não se trata de dizer que são lojas pentecostais ou neopentecostais. Hoje não há mais essa nomenclatura divisória. Os evangélicos misturaram-se de tal forma que até membros das seitas adventistas e mórmons estão com fatias deste mercado, com participações em nichos de música e de estudos bíblicos. Isto seria inconcebível há alguns anos; não hoje, porém!
 
Fui buscar uma bíblia da que uso, Almeida Atualizada das letras extra-gigantes. Não encontrei loja que me fornecesse uma sem letras vermelhas. A editora lança algo e o mercado tira o resto da prateleira. A editora não parou de publicar; os lojistas é que querem empurrar uma mercadoria só. Fiquei sem comprar.
 
Mas vi nas lojas, nas vitrines, nos balcões e nas promoções bíblias novas, de versões de fundo de quintal, bíblias modernas com retoques de marketing para serem adquiridas. Agora lançaram a bíblia tupiniquim. Quem a edita já fez duas versões da bíblia e coloca na capa: "esta bíblia vai falar ao coração do brasileiro". Então agora temos bíblias ao gosto das nações, ao gosto dos fregueses? Adaptamos o texto para o público? O tal editor, muito festejado e graduado, quando terminou a sua primeira versão, apareceu nos congressos, empurrando outra. Eu, valendo-me de conhecê-lo, perguntei: "você gostou do trabalho feito naquela primeira?" "Sim", respondeu-me. "Então por que está fazendo outra? A primeira não estava boa?" Ele saiu sem dar-me resposta. A quem essa gente deseja enganar? Vi uma tal versão restaurada, outra reformada, outra histórica, outra da graça, e cada um muda um pouquinho, para dizer que a sua é melhor. Quanto a bíblias de estudo, são uma vergonha! Um pastor tradicional é contratado de uma grande editora e já comentou todos os livros da bíblia e agora lançou a sua bíblia. Pelo que ele diz, que é diretor, cantor, pregador, preletor, teólogo, doutor etc, precisaria de 3 vidas de 50 anos para ter toda essa qualificação. Mas o povo, incauto, compra a idéia de que é ele mesmo quem comenta. E compra as toneladas! Cada apóstolo, doutor, dono de programa agora tem sua bíblia de estudo. Pensei: o que fizeram com a Sagrada Escritura?
 
Entrei em outra loja. Encontrei tudo dourado. Arcas da aliança com querubins, com andadores e com réplicas das tábuas da lei e da vara de Arão. Só não vêm com a glória de Deus, porque esta não se mistura com o mercantilismo diabólico. Havia roupas judaicas com franjas para todo o tipo de evento. Shofares e berrantes de várias espécies. Como o deus dessa gente é adaptável, é melhor tocar berrante e chamar o espírito do que um shofar. E os óleos de unção? Meu Deus, que fedor! Cheiro de mirra, de aloé, de bálsamo, de óleo de cozinha, quantos vidros e cores! Unção para vários tipos de coisa. Pensei nos dias em que trafegava pelos corredores do shoping da catedral de Aparecida do Norte: qual a diferença? As bugigangas só mudam de tema, mas a idolatria é a mesma.
 
E a luterolatria e calvinolatria? Uma aberração. Bíblia da reforma, devocional da reforma, livro de Calvino, livro de Spurgeon, livro de Lutero. Fotos por toda parte, como se estes nomes fossem os nossos santos protetores e diretores, que conduzem a nossa fé e a nossa vida. Que moral temos para falar da idolatria de fora, quando criamos o nosso próprio panteão de ídolos? Creio que se esses líderes do passado soubessem o que esta geração fez com eles, teriam os ossos a tremer no cemitério...
 
E a ostentação? Moda evangélica. Moda saia santa. Moda terno da prosperidade. As mesmas ostentações dos pastores da tevê vendida por eles mesmos, para ganhar um dinheirinho, formando clones. E nas ruas pregadores em início de carreira, vendendo dvds e cds de mensagens. "Irmão, tenho aqui uma mensagem poderosa de cura dos enfermos. Leve-a por vinte reais". "Irmão, Deus me deu uma revelação e eu a venderei por cinquenta reais em três dvds. Vamos levar?" "Irmão, quero te abençoar em sua igreja. Cobro só a condução e a alimentação. Vamos fechar agenda?".
 
Imaginei Jesus naquela rua. Uma guasca, um chicote bem caprichado e chutes aos montes naquelas prateleiras malditas da ostentação evangélica. A música que ali tocava nada tinha de louvor, senão de baladas para vender. "Chove, chuva, chove em minha vida, chove, chove, chove..." Ah, Senhor, quanta coisa errada!
 
Comprei o que precisava. Entre as mil lojas ainda há um restinho que se salva. Ainda há alguma livraria que vende coisa que presta. Ainda há um ou outro crente verdadeiro. Mas confesso: aquilo é um termômetro do quão distantes estão os evangélicos da Palavra de Deus. Cabe a nós, pastores deste tempo e que enxergamos isto (a maioria não enxerga) cuidarmos bem de nossas congregações, pregando o autêntico evangelho e orando para que os fiéis não se misturem com essa geração perdida.
 
Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios; (1Tm 4:1)
 
Wagner Antonio de Araújo

13/05/2017

terça-feira, 9 de maio de 2017

memórias literárias - 447 - SAUDADES


... SAUDADES ...
 
447
Hoje, entre um toque do despertador e outro, fui conduzido a uma viagem pelas asas da saudade.
 
Senti saudades. Muita saudade!
 
Tive saudades da Good News, do Pr. Ralph Metcalf, da irmã Dorothy Whitehead. Tive saudades desta equipe inesquecível com a qual trabalhei por quinze anos. Eles eram de Carolina do Norte. Anualmente vinham duas ou três vezes com equipes de dez a trinta voluntários. Eu e a minha equipe dividíamos o grupo em duplas e os distribuíamos pelas igrejas solicitantes. Passavam uma semana em atividades evangelísticas. Visitavam escolas, hospitais, orfanatos, asilos, pregavam em conferências e faziam inúmeras visitas aos lares. Lembro-me de cada grupo. Quantos momentos de alegria, de indizível regozijo espiritual! Quantas vidas transformadas pelo poder de Deus! Quantas igrejas atendidas! Ralph aposentou-se. Dorothy está no céu. Ouço dizer que a Good News continua com alguns pioneiros e outros mais novos. Mas sinto muita saudade...
 
Saudades do Pr. Josué Nunes de Lima e da Igreja Batista em Jardim Brasil, zona norte da capital paulista. Ah, quantas vezes estive com ele, primando da bênção do aconselhamento pastoral e fraternal! Ele, um dos maiores pregadores que este Brasil já teve, era ao mesmo tempo um líder eficaz e um homem extremamente simples e gentil. Quantas vezes tomei café em sua casa, ao lado da irmã Albertina, sua esposa! Quantas lágrimas derramei no ombro daquele conselheiro e quantos sábios conselhos trouxe para a minha vida! Vi o Pr. Josué reformar o templo que ele tanto amava e estive na inauguração. Preguei naquele púlpito, que ele fazia questão de manter apenas para a hora do sermão, conduzindo o pregador de forma solene e grave. Josué hoje está no céu, sua primeira esposa também. Soube que o Jardim Brasil hoje vai bem e louvo a Deus por isso. Mas sinto muita saudade...
 
Saudades do Shalom! Sim, anos oitenta. Eu era um novo convertido adolescente, ávido para testemunhar de Cristo aos colegas. Encontrei o Albert, o Roger, a Sandra e começamos a nos reunir na hora do recreio, período noturno do Thomás Galhardo na Vila Romana, São Paulo. Aos poucos outras pessoas queriam juntar-se a nós, ou para ouvir uma mensagem ou para receber oração. Tornamo-nos fortes, mais de quarenta adolescentes na sala de aula no recreio. Chamamos a atenção dos professores. Um deles converteu-se. A diretora vinha assistir. Levávamos bíblia, violão, folhetos e aos finais de semana cantávamos em igrejas que nos convidavam. Foram quase três anos de trabalho. Os colegas cresceram. Uns tornaram-se pastores; outros perderam o contato. Mas foi um tempo inesquecível. Sinto muita saudade...
 
Saudades da Ordem dos Pastores Batistas do Estado de São Paulo, nos tempos do Pastor José Vieira Rocha. Como era bom! Ele, o líder máximo no respeito de todos nós. Sábias palavras, administração perfeita, bondade e piedade em tudo o que fazia. Lembro-me dos cultos às segundas-feiras mensais na Primeira Igreja Batista do Brás. Momentos ímpares, onde os colegas de toda parte da Grande São Paulo reuniam-se e trocavam experiências e desenvolviam amizade. O Pr. Vieira tratava-me com tamanho carinho paternal que acabava sendo um pai espiritual para mim. Mesmo sendo eu um pastor mais jovem levou-me a pregar na grande igreja que pastoreava, não uma e nem duas vezes. Ah, que honra, que graça inesquecível! O Pr. Vieira continua ativo no reino, agora um pastor emérito daquela igreja. Ele e sua esposa Diail fazem parte da minha história e da história de minha família, é meu conselheiro pessoal. Aquela ordem de pastores não existe mais, foi fundida com a nacional. Os cultos mudaram de horário e de estilo. Mas sinto muita saudade!
 
Saudade das visitas aos pastores idosos! Lembro-me quando o Pr. Josué Nunes de Lima, Pr. Edson Borges de Aquino e Pr. Tiago Lima precisavam de mim para levá-los a visitar colegas doentes ou idosos. Quantas viagens fizemos! Lembro-me das visitas que fizemos com o Pr. José Vieira Rocha e irmão Grigório. Fomos nas casas de obreiros que sofriam e trouxemos a eles o conforto tão especial naquelas horas de tanta necessidade. Saíamos confortados e com o coração repleto de gratidão! Sinto saudade...
 
E o que fazer com tanta saudade?
 
Transformá-la em gratidão, pois são memórias que o Senhor nos dá no exercício da fé cristã. Sou um bem-aventurado, pois pude lembrar-me do meu Criador nos dias em que não tinha meia idade. Assim, evocando as lembranças, posso trazer à mente coisas que me alegram e que puderam ser atos de louvor ao Senhor de minha vida. Lembra-te também do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais venhas a dizer: Não tenho neles contentamento; (Ec 12:1)
 
Motivar-me para a continuidade do serviço, porque não me aposentei. Pelo contrário, enquanto eu tiver vida, saúde, fôlego de vida, continuarei a servir ao Senhor em todo o tempo e lugar, seja de uma forma ou de outra. As lembranças de felicidades passadas no serviço do meu Rei me incentivam a continuar e a viver outras tão boas ou até melhores do que aquelas. Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. (Fp 3:14)
 
Quero servir ao Senhor até o fim e ter a felicidade que o Apóstolo Paulo teve, ao deparar-se com a morte próxima. Ele, que não economizara tempo algum no serviço do Senhor, que dedicara cada minuto, cada segundo, cada passo, cada palavra a semear a Palavra de Deus, a testemunhar de Cristo como o Messias prometido e a fundar igrejas onde a mensagem fosse pregada e vivida, pôde constatar, nos seus últimos momentos, e para a glória de Deus, que buscara fazer o possível e o impossível para manter-se fiel e produtivo. Quero que assim aconteça comigo, independente do tempo de vida que ainda tiver pela frente.  Quero poder dizer como Paulo: Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. (2Tm 4:7)
 
A saudade dói, principalmente quando aqueles a quem amamos já não estão mais entre nós. Dói quando as obras que fazíamos não são mais do jeito que eram. Dói quando somos privados daquelas mesmas experiências que tínhamos. Mas não não nos impedem de descobrir novas oportunidades, novas pessoas, novas alegrias e novas chances de servir mais e melhor. Para o crente a vida é sempre uma dádiva; as folhas que hoje caem adubam a terra para que a nova produção seja mais frutífera e bonita.
 
Bendito seja Deus pela dádiva da saudade!
 
Wagner Antonio de Araújo

09/05/2017

sexta-feira, 5 de maio de 2017

memórias literárias - 446 - QUAL É A SUA VERSÃO

QUAL É A
SUA VERSÃO?
446
 
Na mesa com os colegas de serviço:
 
- Eu não vou fazer esse trabalho. Não sou obrigado! Quem o chefe pensa que é? Eu não ganho para isso! E se quiser terá que me pagar hora extra!
 
Na mesa com o chefe:
 
- Senhor, eu ainda não pude fazer, mas tão logo encontre uma brecha nos afazeres prontamente lhe entregarei a tarefa.
 
Diante dos filhos, em casa:
 
- Não quero ninguém a consultar páginas impróprias da internet; temos que ter respeito e essas coisas denigrem a nossa imagem diante dos homens e de Deus. Estou alertando, hein?
 
No computador do escritório, escondido, ele abre páginas de pornografia e entra nos batepapos virtuais com o nome de LEÃO FEROZ, buscando namoros virtuais.
 
Diante da família: mulher honrada, recatada, traz elogios ao marido, que soube escolher tão bem; no centro da cidade, numa mesa de lanchonete, a mesma mulher bebe uma cerveja e mantém um caso extra-conjugal com um ex-colega de trabalho.
 
Na igreja: bom professor, conhece a bíblia decór e salteado; responde às perguntas e ora com emoção. Na praça: deve no cheque especial, no cartão de crédito, para o agiota e não dá satisfações, tendo sido por três vezes processado. Agora hipotecou a casa e a família nem sabe...
 
No ministério: o pastor prega contra as roupas decotadas das mulheres, contra os namoros impróprios e metralha a falta de santificação. Nas férias: ele anda quase pelado, cobiça as moças que tomam sol na areia e passa a noite no bar jogando truco e bebendo.
 
Duas versões, na melhor das hipóteses. A versão que todos vêem e a versão que você conhece bem, a verdadeira. Quem é você?
 
Há muita gente escondendo-se numa casca, numa roupa, numa fachada, numa farsa. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia. (Mt 23:27)
 
Aquele que vive com duas versões de si mesmo não é um ser real. É um blefe, não merece o respeito próprio e nem o dos outros. Ele é uma farsa.
 
Frases que já ouvi: "Pastor, o meu marido só é crente aqui; o senhor não imagina as coisas que ele fala e faz dentro de casa!"
 
"Pastor, o meu filho, o do louvor, anda muito estranho. Eu recebi um whatsapp com sua foto na porta da danceteria a vomitar as bebidas que ingeriu com os amigos; o que podemos fazer?"
 
"Pastor, a minha mulher só sabe pregar sobre perdão. Mas ela diz que jamais me perdoará por aquele fato que aconteceu. Por que os crentes são tão enfáticos sobre o perdão de Deus e não conseguem perdoar os outros?"
 
"Pastor, o meu pai não é nada disso que o senhor vê aqui. Ele bate na minha mãe!"
 
Ah, quanta tristeza! Seres humanos de duas versões! Graças a Deus que o Senhor tem uma só versão a nosso respeito: a da verdade! Porém o SENHOR disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque o tenho rejeitado; porque o SENHOR não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o SENHOR olha para o coração. (1Sm 16:7)
 
Um dia, diante de Deus, toda a verdade virá à tona, e em público! Mas nada há encoberto que não haja de ser descoberto; nem oculto, que não haja de ser sabido. (Lc 12:2)
 
Não há como esconder-se da face do Deus que a tudo vê! Disse-lhe Natanael: De onde me conheces tu? Jesus respondeu, e disse-lhe: Antes que Filipe te chamasse, te vi eu, estando tu debaixo da figueira. (Jo 1:48)
 
Quantas versões nós temos? Não podemos nos enganar, criar ilusões ou duplas personalidades dentro de nós. Somos pecadores. Por isso merecemos o castigo divino. Não há nada pior do que cantar ou pedir: RESTITUI-ME, SENHOR, O QUE É MEU! Os incautos cantam e choram com essa bobagem. Sabe o que estão a pedir? RESTITUI-ME O CASTIGO ETERNO, O INFERNO E A CONDENAÇÃO! Antes, deveriam orar: NÃO ME TRATE CONFORME OS MEUS MÉRITOS, MAS CONSOANTE A TUA MISERICÓRDIA!
 
O salmista foi muito sábio ao apontar-nos o modo de orar: Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos.  E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno (Sl 139:23-24)
 
A cada dia devemos dizer: SENHOR, DÁ-ME UMA ÚNICA VERSÃO DE MIM MESMO, A DE QUE NÃO MEREÇO A GRAÇA QUE ME CONCEDESTE.
 
Então, atingidos pela humilhação, seremos edificados na fé, entendendo que quem ama a Jesus deve também guardar os Seus mandamentos, e não dizer apenas que ama ao Senhor, sem obedecê-lo. Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada. (Jo 14:23); E por que me chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo? (Lc 6:46)
 
Prezado leitor, livre-se da segunda versão. Confesse o seu pecado, abandone-o e converta-se. Não adianta esconder-se. A verdade um dia virá à tona. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça. (1Jo 1:9); O que encobre as suas transgressões nunca prosperará, mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia. (Pv 28:13)
 
Que Deus nos ajude a sermos crentes de uma só versão.
 
Wagner Antonio de Araújo

05/05/2017

memórias literárias - 445 - QUERO TRABALHAR

QUERO
TRABALHAR
445

Aos treze anos, no Museu do Ipiranga, eu vendia maçãs do amor num tabuleiro emprestado de uma senhora. Ela me dava parte do lucro.

Uma professora muito querida, Dna. Margarida, conseguiu-me uma vaga na floricultura do bairro, onde entrei como ajudante geral. Lavava a loja, limpava os vasos, fazia arranjos, cortava espinhos, machucava a mão, fazia entregas. Trabalhava das 8 às seis da tarde. E estudava à noite, indo e vindo à pé.

Dalí consegui uma oportunidade como office-boy de farmácia. Ah, que maravilha! De domingo a domingo com uma folga quinzenal. Aplicava injeções, entregava remédios, limpava as prateleiras, arrumava os medicamentos, retirava os vencidos, fazia a faxina da loja, atendia os clientes no balcão. Foi numa das entregas que vi algumas bíblias na garagem da cliente. Ela prometeu-me um exemplar e, no mês seguinte, em abril de 1979, deu-me uma de presente. Foi nela que Deus falou ao meu coração. Um ano exato depois eu era batizado pelo Pr. Timofei Diacov na Igreja Batista em Sumarezinho, São Paulo.

Fui vendedor de frezas e brocas, atendendo ao telefone e entregando caixas à pé.

Eu queria ser bancário, igual ao meu saudoso pai. Fiz mais de vinte fichas. Fui sozinho em todos estes lugares. Consegui dez aprovações, escolhi o BCN. Ali comecei como contínuo, atendendo a 400 funcionários, tanto na área interna quanto externa. Éramos quarenta garotos, todos entre 14 e 17 anos. Fui promovido a auxiliar de entrada de dados, saída de dados, despacho de dados, na área de informática. Trabalhava com COBOL. Na crise de 1982 fui demitido. Então vendi seguros de vida, loteamento de veraneio, chocolates e, sem outra oportunidade, ao lado de meu irmão Daniel, fomos vender picolés na porta das fábricas. Buscávamos os produtos num bairro distante e enchíamos o freezer, vendendo na rua. Nunca tive vergonha de trabalhar, de usar macacão, de andar de sapatos rudes.

Trabalhar! No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás. (Gn 3:19)

Depois daquilo fui arquivista no Banco Geral do Comércio, jardineiro, e, enfim, entrei para a Universidade de São Paulo, onde fiz carreira na área contábil. Trabalhei no Instituto de Eletrotécnica e Energia, tendo criado o primeiro sistema informatizado em DBASE III PLUS do departamento de controladoria, protótipo dos meios complexos de hoje. Tinha carreira garantida, mas, ao receber o convite para atender à igreja onde era membro (e preparava-me para o ministério pastoral), declinei do serviço secular e fui trabalhar no serviço eclesiástico, por um salário 80% menor à época (hoje seria muito mais). Em toda a minha vida a palavra TRABALHO fez parte do vocabulário básico. E deve ser assim na vida de todo homem honrado.

O meu trabalho hoje não está na iniciativa privada, mas é tão suado e trabalhado como todos os outros: literatura, escrita, visitação, atendimento aos enfermos, aconselhamento, preparação e ministração de aulas, consultoria, impressão de boletins, relatórios, conferências, viagens, incursões evangelísticas, administração etc. O pastor é aquele que está acordado quando a maioria já dorme. E o faz com amor e com dedicação, igual ou maior do que qualquer profissional da área privada. E nem quero pensar em aposentadoria enquanto o Senhor me der vida e saúde.
A sociedade mudou, mas o homem não. No meu tempo adolescentes trabalhavam. Hoje é mais difícil, mas não impossível (os pequenos aprendizes estão aí para provar o que digo). A necessidade do trabalho é uma constante realidade. Porque, quando ainda estávamos convosco, vos mandamos isto, que, se alguém não quiser trabalhar, não coma também. (2Ts 3:10)

Entristece-me ver homens e mulheres de 20, 30 e 40 anos na casa de seus pais, assistindo a televisão, comendo pipocas, sujando a pia, trancados no quarto a navegar na internet, sem ajudar em nada ao pai ou à mãe que, incansáveis, trazem com sofreguidão o sustento para casa. E ainda ousam reclamar de algo! Suas desculpas? Estão estudando para a especialização. Estão aguardando uma chamada de currículo fornecido. Estão gripados. Estão depressivos. Têm medo de sairem sozinhos. Meu Deus, que geração é essa? Um bando de dependentes desocupados! Os pais têm parte da culpa, mas os filhos, ajuizados, não têm desculpas!
Entristece-me ver jovens que querem emprego, mas não querem trabalho. Se não tiver direitos, carteira assinada, se não tiver vale transporte, vale refeição, FGTS, décimo terceiro, seguro de vida, convênio médico, indenização e etc não aceitam oportunidade nenhuma. Aliás, tem que ser perto de casa, tem que ter direito a WIFI, tem que ter banco de horas, ajuda ao curso e tantas outras coisas. Na verdade querem que um empregador ajoelhe-se aos seus pés e lhes cubra de recursos. Onde vamos parar? Diz o preguiçoso: Um leão está no caminho; um leão está nas ruas. (Pv 26:13)
Que tristeza é ver homens que não trabalham e vivem na dependência da esposa! E há muitas justificativas para isso: o mundo tornou-se feminista, as melhores oportunidades estão com as mulheres, não tem vaga para alguém na idade do marido, tem afazeres domésticos que a esposa não poderia pagar para outro fazer etc. E então muitos homens, confortáveis em seus sofás, bebem cerveja, assistem NETFLIX, não perdem os jogos do BRASILEIRÃO, dando uma varridinha na casa, tirando o cocô do cachorro do quintal, trocando a fralda do bebê ou cozinhando uma panela de feijão no fogão. Valores invertidos! E não sou dos que não crêem que mulheres devam trabalhar fora ou ganhar salários. Tenho esposa que trabalha honradamente e ganha mais do que eu. Mas EU TRABALHO! Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus, que está comigo. (1Co 15:10)

O que quero dizer com esta meditação?

1) Que o homem ou a mulher que teme ao Senhor deve trabalhar. Aquele que furtava, não furte mais; antes trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o que tiver necessidade. (Ef 4:28)

2) Que o trabalho visa servir ao próximo antes de servir-se a si próprio, e que deve ser feito além do que é pedido. Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer. (Lc 17:10)Servindo de boa vontade como ao Senhor, e não como aos homens. (Ef 6:7)

3) Que um jovem não deve ser um peso para os seus pais, caso tenha corpo e mente perfeitos; que deve procurar trabalhar e desenvolver a sua própria vida, tanto para si mesmo, construindo os alicerces de sua existência, quanto para socorrer os pais quando estes envelhecerem. E não deve querer começar por cima, exigir direitos, mas aceitar os desafios e sofrer as carências (eu nunca tive vale refeição, vale transporte e sempre trabalhei!) Mas, se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a fé, e é pior do que o infiel. (1Tm 5:8); Com que purificará o jovem o seu caminho? Observando-o conforme a tua palavra. (Sl 119:9). Jesus é o nosso padrão: E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens (Lc 2:52)

4) Que um crente não deve perder tempo com divagações, mas com coisas que constróem, que edificam, que trazem progresso; não fomos chamados para treinamentos intermináveis, mas para combates pontuais e diários. Porque cada qual levará a sua própria carga. (Gl 6:5); O lavrador que trabalha deve ser o primeiro a gozar dos frutos. (2Tm 2:6)

5) Independente da área, e, mormente quando específica, cada um deve ser um obreiro incansável na lavoura de Deus, dando o seu testemunho de crente, edificando os salvos, evangelizando os perdidos e servindo ao próximo com amor e com cuidado. E dizia-lhes: Grande é, em verdade, a seara, mas os obreiros são poucos; rogai, pois, ao Senhor da seara que envie obreiros para a sua seara. (Lc 10:2)

Que Deus ajude aos que não trabalham por opção a terem uma mudança de atitude, e àqueles que já trabalham, que o façam com maior dedicação.

Wagner Antonio de Araújo

05/04/2017