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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

memórias literárias - 125 - QUITÉRIA & SOLEDADE

 
125 - QUITÉRIA
& SOLEDADE
 
 
QUITÉRIA era uma crente fiel. Convertera-se em idade adulta, já casada, viúva, e batizara-se numa igreja batista tradicional. Seu marido chegou a converter-se, mas faleceu logo após o fato. Quitéria, então, dedicou-se ao Senhor com amor, empenho e completa consagração. Enquanto podia locomover-se, não faltava a nenhum culto. Estava sempre nos primeiros bancos. Frequentava a Escola Bíblica Dominical, participava da Sociedade de Senhoras, era dizimista consagrada, ofertante voluntária e hospedava com amor e dedicação a quem procurava o seu lar. Seus filhos também eram crentes. Mas Quitéria envelheceu e suas pernas não deram mais a resposta necessária. No começo ainda andava pela casa. Depois, só de cadeira de rodas. E, por último, ficou restrita ao seu leito de dor. Quitéria não ficou descrente. Pelo contrário, empenhou-se muito mais: pedia cultos em casa, enviava seus dízimos para a igreja, convidava o pastor para almoçar, recebia as senhoras para estudos em casa. Até pedia para que gravassem as mensagens do pastor para que pudesse ouvir em seu aparelho de som. O seu telefone tornou-se um ministério: orava com todos, ajudava, instruía, encorajava. E estava sempre feliz, feliz com Cristo, feliz com Jesus.
 
SOLEDADE também conheceu o evangelho. Estava ao lado de seu esposo. Juntos consagraram-se ao serviço do Reino. Já em idade avançada, tudo faziam para participar das atividades. Eram muito festeiros, muito alegres, mas também solidários e tremendamente amorosos. Seu esposo morreu e, com ele, o empenho no Reino do Senhor. Aos poucos Soledade foi perdendo o interesse pela igreja. Dizia-se muito crente, falava de forma agradável com quem a procurasse para conversar. Mas não sentia mais a alegria e o desejo de servir a Deus. Deixou de cooperar com a sua igreja. Não dizimava, não ia aos cultos e sempre tinha uma boa desculpa: falta de condução, falta de saúde, falta de mobilidade. Mas na verdade era falta de temor do Senhor mesmo: sua hidroginástica, almoços no shoping e churrascos familiares não faltavam.
 
Quitéria morreu. Soledade também. Ambas foram sepultadas no mesmo cemitério. Uma lápide parecida, flores semelhantes.
 
Mas o destino de ambas pode ter sido absolutamente distinto.
 
Quitéria amou ao Senhor de todo o seu coração e a Ele deu-se por completo. Mesmo com o marido falecido ela não abortou Cristo de sua vida. Pelo contrário, dedicou-se muito mais. Quitéria descansou no Senhor e ainda hoje, depois de muitos anos passados, em sua igreja o seu nome continua sendo citado, lembrado e celebrado. Ela deixou frutos e saudades. Saudades intensas de sua igreja. Saudades no coração de seu pastor. Dela dão testemunho os irmãos, citando as palavras bíblicas: "E ouvi uma voz do céu, que me dizia: Escreve: Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem dos seus trabalhos, e as suas obras os seguem." (Ap 14:13)
 
Soledade coxeou entre dois senhores: o Salvador e o mundo. Já há muito ela não fazia falta na igreja, uma vez que a congregação aprendera a viver sem ela. Soledade deixou uma grande dúvida no coração de seus irmãos de igreja: será que ela realmente era convertida? Será que ela amava ao Senhor? Por que só servia a Deus quando o seu marido era vivo? Por que tantas desculpas? Por que tinha tempo para a vida social e para si própria e não tinha tempo ou condição de servir ao Senhor? Ao invés de saudades e admiração Soledade deixou uma tristeza no coração da igreja: não tinham certeza se sua fé era real. Aliás, os sintomas evidenciavam uma fé vã e temporária, não a fé salvífica eterna e transformadora. Restou para a igreja as lembranças de muitos anos atrás, quando ela e o marido serviam a Deus. Só isso, mais nada.
 
Essas mulheres realmente existiram, mas com nomes diferentes. Algumas coisas são reais, outras apenas fictícias. Mas o comportamento de ambas é o retrato do comportamento de tantas, esparramadas por nossas igrejas. A idade e as condições físicas não são sinônimo de incapacidade espiritual e falta de comunhão. Um crente verdadeiro não se afasta do Senhor, não perde a comunhão da igreja e nem deixa de ser fiel. Já os crentes falsos são assim, possuem uma fé decadente. "Não tenho carro". Use um ônibus! "Não tem ônibus". Peça carona! "Não tenho mobilidade física". Solicite um culto em casa! "Meu dinheiro é pouco". Seja fiel no pouco, não só no muito! "Estou entrevado" Escreva, telefone, chame o pastor ou os irmãos e atue! Desculpas, desculpas, desculpas! Para estes cumpre-se  a Palavra: "Assim sobrevirá a tua pobreza como o meliante, e a tua necessidade como um homem armado." (Pv 6:11)
 
As Quitérias morrem e deixam saudades. As Soledades morrem e são esquecidas. E isso está na Bíblia: "E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre." (1Jo 2:17).
 
Para a igreja, Quitéria está no primeiro andar, no aguardo da grande ressurreição do Senhor; ela é uma vencedora na fé. Ela deixou um rastro de luz pelo caminho e seu nome está escrito nos Céus.
 
Quanto a Soledade, nem a igreja e nem ninguém pode dizer com tranquilidade onde ela está. Talvez o restaurante e o shopping possam afirmar com certeza: a cliente não voltou mais e já a substituimos. Os festeiros poderão dizer: as festinhas que ela nos oferecia acabaram e já encontramos outros realizadores. Mas onde estará hoje Soledade? Só Deus sabe. Talvez até saibamos, mas gostaríamos de não saber...Triste destino de uma crente nominal!
 
Foi o Senhor mesmo quem disse: "Portanto, pelos seus frutos os conhecereis." (Mt 7:20)
 
Que Deus converta as Soledades de hoje, transformando-as em Quitérias. de Jesus!
 

Wagner Antonio de Araújo

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