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segunda-feira, 3 de outubro de 2016

memórias literárias - 367 - NEM SÓ DE PÃO

NEM SÓ DE PÃO





NEM SÓ DE PÃO

367
Fernando e Carlos ao telefone:
- Carlos, não tem erro! Só que eu tenho urgência. Tem que decidir-se hoje sem falta!
- Não sei, Fernando, a coisa não fecha aqui na minha mente. Parece fácil, mas não estou sentindo paz!
- Carlos, paz não enche barriga! DINHEIRO enche! E uma oportunidade destas você nunca mais verá!
- Eu sei, Fernando, mas...
- Chega de mas,  mas, mas. Não quero ouvir mais nada. Vou te ligar daqui a uma hora. E quero a sua decisão. Só falta você para fechar o grupo. Tchau.
Carlos era um gráfico. Gráfica pequenina, de bairro. Fazia blocos de nota fiscal, encadernava livros, fazia cartazes, panfletos, até imprimir livros ele já imprimira. E em época de propaganda eleitoral, fazia muitos santinhos.
Fernando era um velho amigo. Um líder no bairro onde crescera. Estudou na PUC com Carlos, mas seguiu por uma linha política; falava de reformas sociais. Porém, com os rumos que o país tomara, entrara em negócios escusos. E agora propunha a Carlos uma oportunidade ímpar. Segundo Fernando, nada poderia dar errado. E a proposta era muito simples.
Na próxima eleição o Partido Justo, do qual Fernando era agremiado, mandaria imprimir cem mil santinhos. Contudo, para efeitos de financiamento eleitoral, para conseguir mais verbas, Fernando solicitaria aos empresários o valor de dois milhões de santinhos. Carlos só imprimiria cem mil. O valor do restante, de um milhão e novecentos mil santinhos, seria apenas registrado na nota fiscal. Carlos receberia o valor integral e teria que distribui-lo. Entregaria o valor de seiscentos mil para o partido, outros seiscentos mil para o Fernando e o restante do valor poderia embolsar. Era uma boa quantia. Fernando estava terminando de compor o time de dez gráficas com a mesma proposta.
Para Carlos essa quantia viria em boa hora. Ele tinha impostos atrasados. Tinha obrigações trabalhistas não recolhidas. Tinha contas de casa para pagar. O valor seria tão bom que, após pagar todas estas contas, ainda trocaria de carro. E daria para tirar férias no exterior ou pagar dois anos de faculdade dos meninos. Como não aceitar? Afinal, todo o sistema gira assim! Todos sairiam ganhando!
Por outro lado, Carlos era um homem que temia a Deus. A situação de ser devedor não lhe era normal; a crise ceifou os clientes e não houve caixa para quitar as dívidas. Com muita luta mantinha a porta aberta, esperando que o futuro trouxesse dias melhores, dias em que o mercado novamente viesse a funcionar.  Por ser um crente fiel era muito visado e diversos jovens olhavam para o seu comportamento, buscando um referencial para seguir.
Em sua mente ocorria uma guerra de pensamentos:
" Carlos, não seja bobo! Abrace a causa! Todos ficarão felizes! O dinheiro não é roubado, é doado; e todos se beneficiarão!"
" Carlos, tomar esse dinheiro é mentir, é lavar dinheiro! Imprimir cinco por cento do que a nota declara é crime, é mentira! E, mesmo que ninguém venha a saber, há um Deus nos céus e um Cristo em meu coração; Ele saberá!"
"Meu Deus, o que farei?"
O tempo passou depressa demais. Conforme Fernando avisara, ligou novamente, e incisivo na voz: 
- Carlos, quero uma posição sua. Fechei com nove gráficas, agora quero fechar com você. E faço uma proposta melhor. Você fica com o valor de oitocentos mil santinhos; eu retiro a diferença da distribuição. Posso fechar?
- Fernando, eu declino. Não vou aceitar. Declarar uma quantia maior numa nota fiscal e receber um dinheiro pelo qual eu não trabalhei é mentira. Eu tenho um compromisso com os meus filhos e com a minha esposa; acima de tudo, porém, com o meu Deus. Eu não poderia ter paz no coração recebendo recursos da mentira. Eu não aceito.
- Carlos, você é um louco, é um idiota, um otário. Você está quebrando as minha pernas. Você não pode fazer isso comigo! 
- Não, Fernando, eu não aceito. Eu tenho valores cristãos.E não estou fazendo isso com você. Estou fazendo isso comigo. Eu tenho temor de Deus.
- TEMOR DE DEUS NÃO ENCHE BARRIGA, Carlos!
- Pode ser, Fernando, mas NEM SÓ DE BARRIGA CHEIA VIVE O HOMEM, MAS DE TODA A PALAVRA DE DEUS! 
- Vá para o Inferno, Carlos! Adeus!
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E desligou o telefone.
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Passam-se três anos...
"PLANTÃO DO JORNAL BRASILEIRO - Foi preso hoje, em Campinas, Fernando de Tal, do Partido Justo. Ele e mais dez donos de gráfica foram levados para Curitiba, denunciados, acusados e com prisão temporária decretada. Foi descoberto um grande esquema de lavagem de dinheiro através da impressão de materiais de propaganda política..."
- Pai - pergunta Flávio, filho de Carlos -, o senhor conhece esse homem?
- Sim, filho. Conheço-o.
- Então eu quero te agradecer, paizão.
- Por que, Flávio?
- Porque o senhor não entrou nessa. Sendo do mesmo ramo, certamente que esse cara lhe propôs algo. Mas o senhor provou ser praticante do que me ensina. Eu te amo, paizão!
Carlos sorriu e saiu da sala, indo ao quarto agradecer a bênção de ter esperado no Senhor o suprimento das necessidades, e por ter recusado o banquete de Satanás. Além disto, ouvir um elogio sincero de um filho que não encontra hipocrisia na vida do pai é algo que não tem preço!
FIM.
Ofereço este texto a todos que não se deixam corromper por nada.
Wagner Antonio de Araújo

02/10/2016

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