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sábado, 11 de abril de 2015

memórias literárias - 166 - UM PASTOR PARA VILA ALTA



 
 
Um Pastor Para
Vila Alta
166
 
Durante 49 anos a Igreja Evangélica da Vila Alta foi pastoreada pelo veterano Pr. José da Silva. Homem simples, cordato, auto-didata, excelente pregador, correto moral e financeiramente, trouxe estabilidade e credibilidade àquele ministério. O tempo passou, ele envelheceu e Deus o levou. A igreja não estava preparada para essa situação. Sofreram muito, choraram, pediram o consolo divino. Com o tempo a ferida foi sumindo.
 
Decidiram em assembléia nomear uma comissão para convidar um novo pastor. Chamaram os membros mais influentes e representativos das diversas organizações. Eles precisavam de um pastor e então decidiram confiar à comissão o estudo da questão.
 
Logo na primeira reunião decidiram seguir as técnicas de mercado. Criaram um perfil para o profissional desejado. Desenharam o novo pastor da seguinte forma:
 
1) Tinha que ter entre 30 e 50 anos;
2) Tinha que ser bacharel em teologia com alguma especialização;
3) Tinha que ter experiência anterior comprovada e carta de recomendação;
4) Tnha que ter exercido alguma função denominacional relevante;
5) Tinha que ter esposa e filhos integrados no trabalho;
6) Tinha que ter um projeto de crescimento.
 
Aprovaram o projeto e indicaram nomes. Logo apareceram os candidatos. A cada domingo um deles desfilava pela "passarela da igreja", mostrando os seus dotes, talentos, históricos, biografias e planos. No período da tarde a comissão os entrevistava e obtinham questionários completos.
 
Um problema surgiu nessas entrevistas: salário. O antigo pastor recebia um modesto salário. Com muita dificuldade conseguiu pagar o seu INSS e adquirir uma casinha para morar. Mas agora os candidatos apresentavam um orçamento muito diferente: exigiam salários bem altos, 4 vezes mais do que o antigo pastor. O mais modesto exigia 18 salários mínimos, casa, água, luz, telefone, carro da igreja, combustível, convênio médico, seguro de vida, 14o. salário e uma suposta "verba de gratificação". Segundo ele, a cada 10% de aumento na receita da igreja, deveriam pagar-lhe 20% de representação, pois seria o responsável pelo avanço orçamentário.
 
Feitas as devidas consultas, a igreja o aprovou. Marcaram uma festa monumental. Chamaram a imprensa gospel, os vereadores do bairro, os comerciantes, as igrejas evangélicas, a fina nata daquela região. No púlpito uma surpresa: um carro zero quilômetro para que ele visitasse o povo. Que alegria!
 
Foram 6 meses de lua-de-mel. Os crentes brigavam para levar o pastor para almoçar ou jantar em casa. Sua esposa mostrava seus dotes musicais e seus filhos integraram-se na banda jovem. Aos poucos, porém, a festa perdeu o brilho e um grande mal estar apareceu. No início, quando tudo era festa, o povo não percebeu, mas depois da alegria começou-se a perceber uma mudança radical em tudo:
 
1) Não havia mais necessidade de cumprimentar os membros à porta; o pastor simplesmente dizia boa noite e saía para o seu gabinete, trancando-se com 3 ou 4 irmãos, geralmente os mais abastados ou com a liderança. O gabinete pastoral, anteriormente ao lado do templo, agora estava no 3o. andar, bem afastado, longe do povo.
 
2) Substituiu o hinário da igreja por cânticos contemporâneos; agora as músicas eram não apenas alegres, mas de agitação física: trenzinho no auditório, pular até suar, danças com coreografias e letras inadequadas biblicamente.
 
3) Fez reformas no templo, jogando fora tudo o que poderia lembrar o pastor falecido: forro de madeira de lei, bancada clássica, púlpito, piano, mesa de Ceia do Senhor e quadros comemorativos; além disso proibiu o povo de compará-lo ao seu antecessor, dizendo que viviam um novo tempo, uma nova aliança.
 
Em um ano e meio a igreja esvaziou-se. Os cultos eram mortos e fracassados, a mocidade dispersou-se e muitos tornaram-se fornicários; a direção da igreja foi esfacelada e o pastor tornou-se isolado em seu gabinete. Não tardou muito tempo e recebeu o convite de uma igreja bem maior que lhe oferecia salário melhor e abandonou sua grei. Não quis sequer um culto de despedida.
 
Lá estava novamente a Igreja Evangélica em Vila Alta no vale da vacância pastoral.
 
Nova assembléia e nova comissão. Precisavam escolher um novo pastor. Decidiram votar em outras pessoas. Logo no início dos trabalhos da comissão optaram por convidar pastores amigos, conhecidos, familiares e que fossem "mais baratos", não exigiriam que tivesse tantos títulos, pois os mesmos, na realidade, só atrapalharam.
 
Novo desfile, novas disputas, novas divisões na igreja. O amigo da família mais influente estava ganhando, mas havia o amigo dos fundadores, o amigo dos jovens, o amigo dos adolescentes e o amigo dos músicos. Para escolher qual amigo iria pastoreá-los, houve 6 votações e pelo menos 15 saídas de gente descontente com o processo. Por fim, o amigo dos ricos ganhou.
 
Nova festa, novo carro presenteado (o anterior levou o carro consigo), mas agora o carro era mais simples. Novo período de lua-de-mel. Alguns retornaram à igreja, outros não.
 
Não tardou surgirem novos problemas. O pastor, trazido pelo grupo abastado, recebia ordens de seus eleitores, tornou-se manipulado. Tinha que pregar determinados assuntos e deixar outros. Para as funções e cargos ele teria que apoiar os familiares do grupo. As atividades da igreja teriam que seguir a vontade do grupo. Os outros membros, cientes da manipulação, entraram em confronto. Em duas assembléias da igreja houve caso de agressão física. Por fim, em um ano de ministério, o pastor se foi, sem o apoio do grupo e sem resolver os problemas.
 
A igreja estava esfacelada. O grupo abastado dispersou-se em outras grandes igrejas. Os demais estavam desiludidos. Um remanescente permaneceu. E tinham que seguir com o trabalho. O problema pastoral teria que ter solução. Logo resolveram enfrentá-lo. Nomearam uma nova comissão. Mas essa era diferente. Deus iluminou o vice-presidente numa fala inesquecível. No meio da assembléia ele falou com a unção do Senhor:
 
"Irmãos, nomeamos primeiramente um grupo técnico e o que tivemos foi um pastor técnico; nomeamos uma comissão de amigos e o que tivemos foi um pastor sujeito aos grupos; esquecemo-nos de que a igreja é de Deus e quem tem que escolher o pastor é Deus. Não temos que colocar a nossa vontade, mas pedir a vontade de Deus. Eu não sei bem como fazer isso, mas acho que os mais indicados para participar dessa comissão devem ser os crentes fiéis, consagrados, de sólido testemunho e que notoriamente andam com Deus, independentemente de serem ricos, cultos ou influentes politicamente; e nós sabemos perfeitamente quem são os que andam com Deus aqui na igreja! O Senhor lhes dará sabedoria para nos conduzirem na escolha de um novo pastor". A palavra foi bem recebida e transformada em proposta com apoio, de votação favorável unânime.
 
Escolheram o irmão José, crente fiel e pobre, que servia a Deus desde que a igreja era uma congregação. Escolheram o Irmão Amaro, dono do comércio de materiais de construção, e, conquanto fosse considerado abastado, era o mais liberal em ofertar e chorava quando a igreja falava em missões. Escolheram a Irmã Maria, mulher que não faltava aos cultos de oração. Também o Pedrinho, novo convertido e que não deixava de distribuir folhetos pelo bairro e testemunhar de sua fé. Além destes escolheram mais 4 irmãos, de vários níveis culturais e sociais, mas que notadamente levavam Deus a sério.
 
Essa comissão reuniu-se e emitiu um documento, onde se lia:
 
"A Comissão de Sucessão Pastoral, reunida na última sexta-feira, decidiu seguir o seguinte roteiro:
 
1) Não fazer um desfile de pastores, pois os servos de Deus não estarão disputando vagas de emprego ou concorrendo com os próprios colegas de ministério;
 
2) Que o candidato ao ministério seja, entre outras coisas:
a) Um homem de Deus, genuinamente convertido, batizado e integrado em sua igreja;
b) Que seja conhecedor das Escrituras Sagradas, independente dos graus acadêmicos que possua ou que deixe de possuir;
c) Que seja um homem de oração, priorizando mais uma audiência com o Senhor do que uma audiência com uma autoridade qualquer;
d) Que seja alguém de moral ilibada, casado ou solteiro;
e) Que seja cordato, hospitaleiro, tardio para irar-se, pronto para ouvir;
f) Que seja fiel às Escrituras Sagradas e não duvide do Senhor, nem queira inventar novas doutrinas ou conduzir a igreja por planos de crescimento fora dos parâmetros da Bíblia;
g) Que ocupe-se mais com Deus e Sua vontade do que com seu lazer ou carreira pessoal;.
h) Que esteja pronto para sofrer as agruras do ministério sem maldizer da vida e que saiba se portar com dignidade em todo o tempo;
 
Decidimos também que só convidaremos um candidato, e, esgotadas as possibilidades deste, passaremos para outro, e assim sucessivamente."
 
E assim fez a igreja. Não foram procurar mais nas primeiras igrejas ou nas congregações mais ricas das cidades vizinhas. Não foram procurar obreiros nos jornais evangélicos, nas colunas sociais, nos eventos políticos ou com executivos da denominação.  Não foram procurá-los nos parentes dos crentes ou amigos dos líderes. Eles oraram a Deus semana após semana, em vigílias e cultos previamente agendados para esse fim e pediam para que Deus lhes mostrasse de alguma forma o homem certo.
 
Alguns membros da comissão visitaram outras igrejas e conheceram outros pastores. Conheceram vários, mas não se iludiram com as aparências. "Deus não vê como vê o homem", dizia sempre o irmão José, o relator. "Vamos esperar o sinal de Deus". Encontraram um pastor simples, humilde, de meia idade, numa pequena igreja da zona sul. Não era rico, nem um galã que conquistasse auditórios; era apenas um homem comum servindo ao Senhor com dedicação. Souberam que era um homem conservador, que limitava o seu ministério ao ensino simples das Escrituras Sagradas, à comunhão da igreja e ao serviço do próximo. Ouviram-no, sentiram-no com o coração e, após pedirem a orientação de Deus, convidaram-no para pregar. Foi um fim de semana inteiro.
 
Após a visita a igreja foi consultada e o candidato foi aprovado. Não lhe perguntaram quantos diplomas tinha, nem quantos cargos exercera e nem quais eram as suas realizações. Apenas perguntaram a ele, após as questões  de praxe, o que ele faria se a igreja o convidasse. Ele disse: "Perguntaria ao meu Senhor se esta era a vontade dEle. Se fosse, não hesitaria em aceitar; se não fosse não hesitaria em rejeitar; não estou ao meu serviço, mas ao dEle.".
 
Consultada a igreja, resolveram convidá-lo. Ele pediu um prazo para consultar a Deus. No tempo acertado ele respondeu positivamente. A igreja aceitou sua resposta como resposta do Senhor.
 
Na posse, não houve pompa. O pastor quis que fosse um culto para Deus e não para festejar o pastor. Seria a gratidão pelo novo ministério e o clamor pelas bênçãos necessárias. E assim foi. Houve muita alegria, mas uma alegria espiritual, uma festa no coração. Não houve nenhuma superlotação imediata, nem esvaziamento. Houve um lento e contínuo desenvolvimento. O início foi difícil, muitos pecados para tratar, disciplinas a realizar, reconciliações a fazer. A igreja passou a orar muito, a buscar muito a presença do Senhor. E o púlpito tornou-se celeiro do maná do Céu e não mais plataforma de exaltação humana. Os cultos tornaram-se celebrações espirituais e não entretenimento religioso. E ninguém ia ouvir o pastor, mas ouvir Deus através das pregações bíblicas do pastor.
 
Hoje aquela igreja festeja os dez anos deste belíssimo ministério, que, à despeito da humildade, modéstia e limitação do pastor, tem sido tão bom quanto o ministério do primeiro pastor que Deus levou. Hoje se menciona o nome do pastor falecido como uma jóia e um herói da fé e não como um concorrente ou uma sombra para o atual ministro. Hoje aquela igreja está feliz, estável e cheia de vida.
 
Onde Cristo é honrado os homens se tornam servos e o povo celebra a Deus. Sem estrelas, sem celebridades, sem interesses familiares ou motivos fúteis e mundanos. A igreja passa a ser POR CRISTO, COM CRISTO E EM CRISTO, a verdadeira Noiva do Cordeiro de Deus.
 
Wagner Antonio de Araújo
(isto é uma ficção... ou quase ...)
15/08/2014

Um comentário:

  1. Que pena que muitas das nossas igrejas não aprenderam ainda essa lição...É Deus quem coloca o pastor segundo o Seu coração na Igreja e somente Ele tem a prerrogativa de tirá-lo quando necessário.

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