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segunda-feira, 20 de maio de 2013

memórias literárias - 81 - ATÉ EU TE DEVO...


 81 - ATÉ EU TE DEVO...


Quem entra no salão de cultos daquela igreja evangélica não deixa de notar a beleza dos bancos. Madeira maciça, finamente envernizada, de lei, trabalhada com carinho, conservada com esmero. Bancos solenes, com estrados para ajoelhar-se, com local de colocar bíblias e hinários, um cheiro grave e respeitoso da mais fina madeira. Porém, há um detalhe que chama mais ainda a atenção: uma pequenina placa, do lado direito de cada banco, dourada, com os dizeres: "Ele não me deve... eu Lhe devo tudo!"


Perguntei ao zelador o motivo daquelas plaquinhas. Ele sorriu e contou-me a história.

"Há vários anos atrás, quando a igreja construía esta grande Casa de Oração, um irmão ganhou destaque. Ele se chamava Mariano. Homem simples, fiel, amava contribuir com a obra de Deus. Mas, por causa de sua baixa remuneração, pouco podia fazer. Mesmo assim ele participava de tudo com grande empenho e alegria. Sempre que o ofertório ocorria nos cultos, ele ia feliz e sorridente para o gazofilácio, dar a sua parcela de cooperação. Às vezes recebia ajuda da igreja, mas nem assim deixava de contribuir.

"Deus o abençoou muito. Tornou-se um profissional respeitável. Soube investir seus ganhos e comprou diversas casas de aluguel. Sua renda tornou-se muito boa. O seu dízimo acompanhou. E acabou por contratar diversas pessoas da igreja em sua oficina. Construiu um grande edifício para a empresa e uma mansão para morar.

"Tamanha prosperidade tornou-o ocupado demais para o Reino de Deus. Na verdade o seu coração esfriou. Sua grande riqueza transformou-o num homem reservado. Já não contribuia mais com nada além do seu dízimo e não tinha mais tempo para Escola Bíblica Dominical; seus compromissos sociais o cercavam: fazenda, chalé na montanha, casa na praia. Não deixou de ir à igreja, mas tornou-se infrutífero. Seu dízimo era alto e ele achava ser o bastante. Apenas não queria envolver-se ou ser incomodado.

"Num belo dia, quando a direção da congregação decidiu comprar os bancos e móveis para mobiliar o salão de cultos, verificaram tratar-se de um preço muito alto, acima do que podiam suportar. Não se tratava de uma bancada comum. Era material fino, digno de uma catedral. Todos os bancos da congregação, o púlpito, as cadeiras dos oficiantes, a bancada do coral, gazofilácios, etc. Se comprassem à prestação pagariam uma fortuna muito maior, porém à vista teriam 50% de desconto. Não podiam deixar passar essa oportunidade. Mas como obter financiamento?

"A tesouraria não tinha os recursos necessários; o povo não tinha mais como ofertar além dos compromissos assumidos. A igreja não se endividava na praça, nem buscava socorro dos bancos. "A ninguém devais coisa alguma", repetia o pastor.

"Foi então que alguém propôs: "Vamos pedir emprestado ao irmão Mariano! Ele certamente poderá nos ajudar! Ele é nosso irmão, é da casa. Faremos um livro de ouro, um sistema para arrecadar ofertas, e se Deus quiser conseguiremos quitar essa pequena fortuna".

"A comissão foi até a sua casa. Mariano tinha progredido de forma espetacular. Sua mansão era um sonho. E as casas ao lado lhe pertenciam também, comprara praticamente todo o quarteirão. Recebidos pelos empregados, os irmãos aguardaram na sala de estar, um ambiente utópico, cinematográfico mesmo. Mariano estava em outra dependência, mas desceu para conversar com os irmãos.

"Como estão, meus irmãos? Em que posso ajudar?"

"Irmão Mariano, viemos pedir o seu socorro. Os bancos e móveis para o salão de cultos foram escolhidos, mas são muito, muito caros, não temos recursos. Se pagarmos à vista teremos cinquenta por cento de desconto. O irmão não poderia emprestar? Sabemos que o irmão tem sido abençoado, quem sabe poderia nos auxiliar sem que buscássemos socorro nos bancos privados.

Mariano fechou o semblante. Mostrou-se aborrecido e incomodado. Pensava: "Não me deixam mesmo em paz! Basta termos um patrimônio para não largarem de nosso pé!" Pensou, pegou a calculadora, anotou alguns valores, e disse:

"Dar eu não dou, afinal, não sou o único membro da igreja. Tenho a minha vida, os meus compromissos. O que posso fazer é emprestar..."

"Irmão, não viemos lhe pedir nada além do empréstimo. Mas se o irmão não se dispõe, não há problemas. Parece que o irmão não apreciou a idéia. Não se aborreça. Buscaremos recursos em outro lugar. Deus o abençoe e até domingo, irmão..."

"Não, não se chateiem. Esperem. Eu empresto. Essa quantia eu tenho disponível. Posso emprestar, mas terão que me pagar em 12 vezes, pode ser apenas com os juros de poupança. No final contabilizamos e fechamos a conta. Passem no meu escritório e retirem o cheque, ok?"
"Não muito felizes, pois a cortesia faltou, mas muito agradecidos pelos recursos disponibilizados, os irmãos saíram. Correram ao representante da loja e adquiriram os bancos.
"Mariano, um tanto alheio a sentimentos (aprendera a viver sem considerá-los, pois assim a vida comercial exigia), subiu ao terceiro andar de sua mansão. Ali havia um mirante, ao lado da piscina, em frente ao jardim e ao chafariz. Dali ele vislumbrava as 20 casas boas, do quarteirão, que alugara e de onde recebia excelente renda. Também via a fachada do prédio onde estava sediada a sua próspera empresa."

"Lembrou-se do quão difícil fora a sua vida; da casinha pequenina alugada onde morava, das cestas básicas que recebera quando o dinheiro era insuficiente. Lembrou-se de sua constante dedicação ao trabalho do Senhor, das tardes evangelísticas, dos cultos, vigílias, das visitas aos novos crentes, do sorriso nos lábios e do quanto, quanto, quanto, Deus lhe abençoara em menos de dez anos.

"Olhou tudo isso, sorriu e derramou uma lágrima de gratidão. Sentia-se quebrantado.

"Disse em alto e bom som, com grande emoção:

"SENHOR, MUITO OBRIGADO, DE CORAÇÃO, POR TANTAS BÊNÇÃOS QUE ME DESTE. Ó, DEUS, COMO TU ME ABENÇOASTE!

"Naquele instante, de forma audível para ele, escutou, perplexo, uma resposta vinda do Céu:
"ABENÇOEI-TE TANTO QUE ATÉ EU TE DEVO..."

"Mariano caiu no chão, assustado, com tontura e muito medo. Ele realmente ouvira essa voz. Ele a escutara. Ele não estava louco. E por que ouvira isto?

"Enquanto se levantava lembrou-se da reunião da comissão dos bancos. Lembrou-se do empréstimo e dos juros. Pensou no que isso significaria para a sua conta: uma fatia pequenina. Lembrou-se de que a Igreja era de Deus e que ele também pertencia a Deus.

"Então orou de novo:

"meu Deus, como pude me atrever a querer EMPRESTAR para Ti? Se tudo o que eu tenho, tudo o que eu sou e tudo o que eu faço são frutos de Tua imensa graça? Sou indigno de todas as tuas bênçãos! Perdoa-me, Senhor!"

"Mariano correu até a casa do pastor. Afoito e quase desesperado, suplicou:

"Pastor, por favor, por compaixão, peça à comissão da aquisição dos móveis para reunir-se comigo hoje à noite. Tenho que falar uma coisa.

"Irmão, estou preocupado. Fechamos o negócio, nós vamos lhe pagar. Estaria o irmão arrependido? Não irá mais disponibilizar o valor? Tenha certeza, irmão: nós lhe pagaremos!"
"Não se preocupe, pastor. Esteja à noite em casa."

E à noite, na mansão do Mariano, ele disse:

"Irmãos, preciso dizer algo sobre o cheque dos bancos".

"Os irmãos se contorceram, olharam preocupados uns para os outros, e aguardaram a notícia.

"Eu estive orando ontem. Vi todo o patrimônio que conquistei nos últimos dez anos. Não mereço nem um por cento de tantas bênçãos do Senhor. E agora, com vergonha, tenho que confessar: eu fiz Deus me dever... Sim, irmãos, enquanto orava agradecendo as bênçãos, ouvi claramente a voz do Senhor, dizendo: "ABENÇOEI-TE TANTO QUE ATÉ TE DEVO".

"Mariano chorava. E continuou:

"Deus não me deve nada, irmãos! Eu sou devedor a Ele! Tudo o que eu tenho é dEle! Tudo o que eu sou devo a Ele! Quem sou eu para cobrar juros do Senhor? E mais: esse dinheiro não irá me fazer falta. Por favor, risquem de seus planos pagar o valor para mim. A igreja é de Deus, e Deus não me deve nada! Eu estou doando os bancos. E não precisam me agradecer; sou apenas mordomo do que Deus me concedeu."

"Não é preciso dizer que choraram muito. Não é preciso dizer que o pastor orou em prantos. Celebraram um culto no final do mês, agradecendo pela belíssima mobília. Estes são os bancos do Mariano, irmão. Ele quis celebrar essa experiência, e colocou as plaquinhas, para que nunca ninguém se esquecesse: Deus não nos deve nada..."

Saí emocionado daquele templo evangélico. Imaginei cada cena, cada detalhe. E pude escutar o eco da Palavra de Deus em meu coração:

Que darei eu ao Senhor, por todos os benefícios que me tem feito? (Sl 116:12)

Então a nossa boca se encheu de riso e a nossa língua de cântico; então se dizia entre os gentios: Grandes coisas fez o Senhor a estes. (Sl 126:2)

Menor sou eu que todas as beneficências, e que toda a fidelidade que fizeste ao teu servo; porque com meu cajado passei este Jordão, e agora me tornei em dois bandos. (Gn 32:10)
Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido? (1Co 4:7)

Que Deus nos ajude a compreender que ELE não nos deve nada; nós é que devemos tudo a Ele. E que sejamos fiéis, colocando tudo o que temos, somos ou fazemos em Suas mãos, sabendo que "Deus ama ao que entrega com alegria" (2 Coríntios 9.7)

Wagner Antonio de Araújo
22 de março de 2012
Igreja Batista Boas Novas do Rodoanel em Novo Horizonte
Carapicuíba - São Paulo - Brasil
www.uniaonet.com/bnovas.htm
bnovas@uol.com.br


Obs: ESTE CONTO É BASEADO EM UM ACONTECIMENTO VERDADEIRO.

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