quinta-feira, 21 de maio de 2020

memórias literárias - 884 - A ERA DOS LIVROS

A ERA
DOS
LIVROS

884
Leio hoje nos noticiários que estudantes estão se dividindo entre os que têm e os que não têm muito acesso à internet; por isso se julgam afetados os que não possuem planos de conexão amplos.

Sou do tempo em que pesquisas eram feitas em livros, a maioria na biblioteca do bairro. Ali entrávamos, dávamos o tema do trabalho para a bibliotecária, aguardávamos e, em minutos recebíamos uma meia dúzia de compêndios e a permissão para sentarmos numa das mesas ali existentes. Passávamos duas a três horas pesquisando o assunto, escrevendo com lápis e caneta o que era importante e depois saíamos, prontos para preparar o trabalho.

Sou do tempo em que livros eram presenteados no aniversário. Eu recebi ao nascer três volumes de Fábulas de La Fontaine, nome absolutamente desconhecido da maioria dos humanos desta geração. Aos poucos fui ganhando os livros de escola e, quando comecei a trabalhar (aos doze anos), nunca deixava de passar numa livraria, num sebo (onde livros usados eram vendidos) sem comprar um ou dois. Foi lá que adquiri a coleção Vagalume e Para Gostar de Ler, da Editora Ática. Foi durante a adolescência que comprei coleções que eram vendidas em fascículos nas bancas de jornais.

Quando me tornei colegial e depois universitário comprei os livros referentes às minhas áreas do saber: livros teológicos, livros de história, livros sobre contabilidade, vendas, psicologia. E com isso formei uma biblioteca considerável. Ao longo do tempo, adquiri as famosas enciclopédias Barsa, Michaellis, Trópico, Quillet, Êxitus, LaRousse e Britânnica usadas. Mas eram conquistas.

Enfim chegou o século XXI e com ele a tecnologia dos livros em pdf. Os livros em papel perderam espaço e começaram a enfiar tudo nos computadores. Com esse advento veio também a internet e as fraudes. Pesquisas inteiras feitas com base em informações falsas tornaram-se sem valor. Mas o excesso de mentiras deu origem a divulgação de mentiras com cara de verdade e hoje são necessários estudiosos para fazer análise de NEWS e FAKE NEWS. Hoje, dificilmente um estudante abre um livro para ler.

A onda entrou nas igrejas também. Antes íamos munidos de bíblias e hinários para a Casa do Senhor. As bíblias dos adolescentes eram encapadas com jeans e as das meninas cheias de adesivos, flores e enfeites. Os rapazes tinham bandeiras de times e de esportes. As passagens importantes eram destacadas com canetas e cores, na medida em que os textos falavam ao coração. As margens eram recheadas de anotações que fazíamos ao longo do tempo. Os cânticos avulsos vinham em pastas especiais e sabíamos os números de cada um. Depois surgiu o retroprojetor que tirou a pasta de nossas mãos. Então criaram o datashow e acabaram por tirar bíblias e hinários do povo de Deus. E chegou o celular, colocando tudo num aparelho artificialmente perfeito, onde escolhemos as letras, as cores, o tamanho e até o som, mas transformou o aprendizado pessoal em mero aparelho automático que faz tudo em nosso lugar. Alguns até oram em lugar do crente!

Precisamos voltar aos livros. Precisamos saborear a sensação de folhear as páginas amareladas de uma publicação preciosa. Precisamos anotar o conhecimento. As pesquisas precisam ser feitas pessoalmente, sem a intervenção de uma máquina. Precisamos aprender de novo a ordem alfabética e como redigir um trabalho sem o uso de modelos pré-formatados. Os nossos jovens não aprendem a pensar, não aprendem a descobrir, não aprendem a viver sem o elemento eletrônico. E agora, com a pandemia, a guerra pobres e ricos se evidencia. Mas talvez os concorrentes não sejam bem identificados. Seria mais apropriado dizer: os que conseguirão superar os obstáculos e os que não viverão sem as comodidades.

Conheci um homem que era professor. Ele conseguiu estudar às custas de livros que achava no lixo. Ele não tinha dinheiro para comprá-los. Ele usou toda a informação encontrada. Conseguiu galgar os degraus do conhecimento e alcançou os seus objetivos. Conheci uma moça que falava inglês fluentemente. Ela aprendera sozinha, com meia dúzia de discos de vinil e fascículos de banca de jornal. Conheci um rapaz que dava aulas de matemática e que ajudava a todos os colegas sem ter nenhuma máquina calculadora. Ele tinha algo mais poderoso: a força de vontade no bom uso de sua inteligência.

Ouvi de um pastor triste um lamento que talvez seja o de muitos que me lêem. Ávido por repartir o seu conhecimento, passou a gastar os cultos no meio  da semana com o estudo bíblico versículo por versículo, explicando minuciosamente o significado de cada palavra, dos temas abordados, do contexto em que se encontravam, da idéia do autor, da relação com o resto da bíblia. Ele preparava-se como se fosse lecionar para um time de alunos gigantesco, ainda que fosse falar para meia dúzia de crentes. Mas ele contou-me que desistira disso, pois aqueles poucos crentes, conquanto inteligentes e letrados, achava muito chato estudar a bíblia assim. Eles queriam algo mais NISSIN MIOJO, de um versículo só, com uma lição só, de preferência algo que turbinasse a fé e erguesse o ego. Que tristeza! Basta ver as atuais lives de pandemia, as milhares de transmissões, e veremos a mesma pobreza temática das mensagens. Nada mais profundo que um misto de "tenha fé" ou "você vai vencer"(com raras exceções).

E agora vou encerrar este longo texto. Afinal eu já sei que não terei praticamente nenhum retorno (envio para mais de 50 mil contatos), pois ninguém lê algo maior que dez linhas hoje em dia. Se você chegou até aqui é uma exceção - e lhe agradeço a deferência.


Wagner Antonio de Araújo.

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