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terça-feira, 15 de dezembro de 2015

memórias literárias - 294 - AH, MENINO SÍRIO...


 

 
Ah, menino sírio ...
 
294
Sua foto me comove, me incomoda, me assusta, me causa indignação. Mas também me faz pensar.
 
Penso na sua dor, menino sírio. Por causa dos adultos você foi levado pelo pai para um barco. Não teve escolha. Seu pai, desesperado, queria lhe dar um futuro melhor, porém lhe deu uma sepultura. Quando olho para a sua foto vejo o quanto uma escolha dos adultos pode afetar a vida de nossos próprios filhos!
 
Penso no uso que fizeram de você. Antes, um garoto desconhecido e anônimo; hoje, o retrato de uma campanha. Alguns usam seu retrato para acusar o Ocidente de invasões e provocação do caos; outros o utilizam para ameaçar outros pais sobre futuro similar se não se renderem aos terroristas. Algumas bandeiras se erguem com ódio; outras, com desprezo. E você, menino sírio, que já está sepultado há algum tempo, foi esquecido, trocado por um ícone, uma causa apenas.
 
Penso na vida que você não teve. Não pôde estudar numa escola digna; não teve uma cama quente uma refeição farta; não viveu uma vida normal ao lado de seus pais; não brincou com os amiguinhos; não teve presentes; não teve futuro. Você não se formou na faculdade; não teve seu primeiro emprego; não ficou enamorado por uma linda menina; não se casou e não deixou prole. Foi um ser de existência rápida, uma libélula humana.
 
Penso no que você desejava, com alma e coração de criança. Talvez se assustasse com todo o movimento de fuga; talvez aprendesse já em tenra idade as falácias religiosas que seus familiares lhe ensinavam; talvez já tivesse em sua mente infantil os princípios que transformam o mundo em escravos de Alá e inimigos de Alá. Ah, menino sírio, esquecido como pessoa e lembrado como causa, como a vida é difícil! Naquela margem de praia o seu corpinho mostrava o que o ódio faz: ele traz morte! Os adultos guerreiam e os jovens pagam a fatura com a vida!
 
Penso na minha impotência diante da cena. Ao vê-lo estendido na praia, com seu tênis e suas roupinhas infantis sinto um desespero emocional para correr para você, tentar erguê-lo, fazer massagem em seu peito e ressuscitá-lo! Não consigo aceitar a realidade de que não pude fazer nada para lhe ajudar! Essa impotência me desespera, me estrangula, me despe de quaisquer orgulhos e me exige concluir de que eu não sou onipotente!
 
Penso também nos outros meninos e meninas que morrem todos os dias na África, vítimas das mesmas barbaridades dos adultos. Mas por serem negros e por estarem na África aos milhares, nunca chamaram a atenção do mundo para a sua dor, exceto quando alguns poucos artistas mostram a fome, a doença e a tirania em especiais (que, diga-se de passagem, servem também como meios de promoção e venda de produtos...). As crianças africanas que morrem como você ou de forma pior são tão relevantes e tão dilacerantes quanto você; mas você se tornou notório e desnudou esse mundo corrompido e essa humanidade pecaminosa irreparável! Os amilenistas e pós-milenistas ficam sem chão ao ver que "a glória do Senhor" não está cobrindo paulatinamente toda a Terra; pelo contrário, o mal avança e caminha para um clímax!
 
Por fim, penso em minha filha, menino sírio. Essa menina linda que Deus me deu, coberta de carinhos, cuidados, atenção, brandura, limpeza e assistência. Essa menina que não sabe o que é uma violência ou uma necessidade não suprida. Penso na dor que eu teria se, ao invés de ser você morto na beira da praia, fosse ela, à deriva, molhada, gelada, suja, abandonada, inerte! O mero pensamento já sufoca o meu coração e me traz desespero, pois por um filho somos capazes de tudo, menos de pecar (pelo menos para cristãos sinceros). Preferiria mil vezes morrer a ver minha filha sofrer. E penso que seu pai carregará para sempre no peito a lembrança de seu corpinho morto e a realidade de uma fuga frustrada. Que Deus tenha piedade da alma dele.
 
Concluindo: eu hei de vê-lo, menino sírio. Sim, não sei se o reconhecerei, mas hei de vê-lo. O Reino dos Céus é das crianças, cujos anjos assistem diariamente junto ao Pai celestial. Cristo estendeu a salvação àqueles cuja maturidade pessoal não pôde alcançar o juízo, pelo que sua alma está com Cristo, junto com a de todos os outros pequeninos que morrem na África, nos países islâmicos, nas guerras, nos ataques, à beira dos rios, nas maternidades, nas clínicas de aborto e nas atrocidades deste mundo tenebroso. "Dos tais é o Reino dos Céus". Conquanto você tenha morrido, menino sírio, a sua vida não acabou: Cristo é Senhor do seu futuro. Você não sofre mais. Está no Reino do Pai Celestial, é um dos remidos do Senhor, alcançado pela obra da Cruz!
 
Minha homenagem a você, menino sírio. E que outros não sofram o que você sofreu!
 
Mas Jesus, chamando-os para si, disse: Deixai vir a mim os meninos, e não os impeçais, porque dos tais é o reino de Deus. (Lc 18:16)
 
E qualquer que receber em meu nome um menino, tal como este, a mim me recebe. (Mt 18:5)
 
Vede, não desprezeis algum destes pequeninos, porque eu vos digo que os seus anjos nos céus sempre vêem a face de meu Pai que está nos céus. (Mt 18:10)
 
Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação. (2Co 5:19)
 
Pr. Wagner Antonio de Araújo
15/12/2015

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