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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

memórias literárias - 303 - ELZIRA BONFANTE - FELIZ DIA DAS MÃES ...


ELZIRA BONFANTE: FELIZ DIA DAS MÃES ...
303




Ah, mãe querida. Teu olhar de fragilidade e ternura me cativa, me encanta, me humilha, me faz menino novamente!




Lembro-me que tu estavas cansada, que, ao agarrares teu andador, ficavas arcada e frágil, e eu te abraçava, como somente os filhos abraçam, e tu dizias: "não, filho, para com isso, você me derruba assim".




Hoje não te abraço mais, mamãe, senão junto ao meu travesseiro regado pelas quentes lágrimas, ou nestes textos que te escrevo, homenageando tua memória.



Sabe, mãe, nossos jovens faziam serenatas às mães da igreja, e atravessavam a madrugada do Dia das Mães indo em cada casa, em cada janela, cantar às suas progenitoras. Lembro-me da última vez que vieram aqui. Tu não podias mais te locomover com facilidade, estavas confinada à cama, quando a juventude invadiu teu quarto, com violões e muitos jovens. Cantaram para ti. Tu acendeste teu abajour e olhaste com teus embaçados olhos, ouviste com teus ouvidos cansados, e choraste com teus emocionados olhos. E disseste: "gente, desculpem, eu estou emocionada! muito obrigado!"



Os violões silenciaram, mãe. Os jovens cresceram. E tu, amada Laura das canções, voaste para o Céu de Deus, deixando órfãos teus filhos queridos, teus amados Daniel e Wagner....

Quisera ter morrido em teu lugar, mãe amada! Quantas vezes quis trocar de lugar contigo, para dar-te que fosse um minuto mais de vida! Viver assim, com tua ausência, não é viver; é sofrer! E como sofre um coração saudoso, que não encontra mais aquela a quem tanto ama, não esse amor interesseiro, que busca algo em troca, mas aquele amor angelical, cujos vínculos e laços são puros e ausentes de interesses, trocas e benefícios. Assim como nos amaste, mãe amada, amamos-te também. Até o fim!

Depois que partiste, saudosa Elzira Bonfante, tua irmã Elza revelou-nos que, ao dares a luz ao Daniel, em 1971, à pedido meu (pedi um irmãozinho), não me deste apenas o irmão, mas deste também o resto de tua vida, porque, na mesa de cirurgia, tu estavas a partir, para que teu rebento visse a luz! Eu, seis anos de idade, nada entendia. Mas os médicos, usados por Deus, conseguiram ressuscitar-te, e tu ficaste, com a bênção do Pai das Luzes, para criar-nos, para acalentar-nos, para fazer de nós os homens honrados que somos hoje!



Ah, mãe amada, teu olhar meigo e dócil, na sala de estar, no quadro pintado à mão, quadro encomendado para tua fazenda, é testemunha diária do quanto sinto tua falta, do quanto te choro, e do quanto pergunto: "E agora, Senhor? Como prosseguir?"



O que me conforta, mãe querida, é saber que tu estás viva, ainda que teu corpo esteja em pó.  E, naquele andar, no Paraíso, tu vives num relógio diferente, numa realidade tão melhor, tão perfeita, que o sofrimento é só nosso aqui, enquanto não nos reencontramos. Ah, mãe do coração, rocha de nossa existência terrena, flor do jardim de nossa família, perfume de ternura, diamante de nosso anel, como sentimos tua falta!




Tu não precisas de nossa prece, pois teu destino selou-se em Jesus, que pagou por teus pecados e salvou-te por completo. Aleluia! Também não oras por mim, uma vez que Cristo, nosso intercessor, o faz de forma tão completa! Nem acompanhas nossos caminhos, pois que, ao ver nossa dor, teu Céu seria um inferno, pois gostarias de interagir, estar presente, e não poderias.

Mas sei que Deus não troca o bom pelo pior, o claro pelo embaçado. Assim, se Deus julgou ser o Paraíso melhor que o teu lar, a tua casa, o teu leito, os teus filhos, a tua igreja batista da Vila Pompéia, as tuas irmãs, a tua TV, tuas frutas que com amor Milu cortava, então é porque onde estás, por força e graça de Cristo, é melhor do que qualquer coisa que possamos imaginar.

Assim, mãe querida, melhor do que os presentes bonitos que o Daniel te dava no Dia das Mães, melhor que a serenata dos jovens da Boas Novas, melhor do que os cds que eu te trazia, ou do que os livros que eu te comprava, melhor que os banquetes que a Milu te preparava, é o que Deus tem dado a você, no Paraíso, enquanto aguardas o glorioso e majestoso dia em que ressuscitaremos todos, em glória, perfeitos, sem dor, sem velhice, sem medo, sem morte.

Enquanto nós, teus filhos, vamos caminhando neste súplice e lamentoso vale, que de lágrimas se banha e de dor se acrisola, pedindo ao Pai Celeste o consolo, o remédio, a compaixão, a misericórdia, para que torne nossos dias que se seguem menos custosos, menos doloridos, e que transforme a dor intensa que sentimos em flores perfumadas e paisagem portentosa.

A sua bênção, mãe amada, querida e inesquecível. Ainda que não nos leia, não nos ouça, não estejas mais aqui.

Teus filhos
Wagner e Daniel, e tua ajudadora Milu.



Wagner & Daniel

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