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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

memórias literárias - 302 - RESPEITO





RESPEITO
302


Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas. (Mt 7:12)

Aprendi desde pequeno que devemos respeitar as outras pessoas, independentemente de sua idade, cor, patamar social ou religião. E acreditei piamente que quando respeitamos, nos tornamos também dignos de respeito. Não tenho me decepcionado quanto a isto, ao longo dos anos, exceto quando o relacionamento é com algum ímpio. Então entra em cena um outro princípio: "E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores;" (Mt 6:12)

Tenho procurado pautar minha vida nesse pilar. Afinal, quem não gosta de ser respeitado? Que não gosta de ser compreendido, percebido, acolhido, levado em consideração?

Na evangelização também devo respeitar o meu próximo. Aliás, devo respeitar a fé do meu próximo. Respeitar não é concordar ou celebrar junto. Os católicos romanos, por serem em maior número, antiguidade nacional e presença social, são nossos mais próximos a quem evangelizamos. Gostamos de receber da parte deles o respeito à nossa fé, às nossas comemorações, eventos, e apreciamos que participem de nossos cultos e conferências. Ficamos tristes quando algum deles zomba de nós, nos ridiculariza, nos expõe à humilhação pública. Contudo, deveríamos fazer também um”mea-culpa”, e avaliar o nosso grau de respeito à fé que eles têm.

Digo isso porque recebo toneladas de mensagens zombeteiras, não deles contra nós, mas nossas contra a fé que postulam. 

Evangelizar não é zombar das práticas e crendices alheias. Podemos não concordar com elas, mas não temos a autoridade ou liberdade para debochar da religião e religiosidade dos outros. Crer em Deus, em Cristo, na bíblia e no modo evangélico de ser, não é rir das rezas, desfazer das promessas, amaldiçoar as práticas ou humilhar a religião do outro. Não raras vezes, as reações são de igual ou maior monta, e acabamos por sairmos feridos do embate, com convicção de mártir, mas sendo, na realidade, mal educados. Não precisávamos agir como agimos!

Quem não ouve não faz jus a ser ouvido. Quem não respeita, não faz jus a ser respeitado. Quem não consegue separar a fé do outro e a pessoa do outro, é tão mau quanto um racista, um preconceituoso, um totalitário ou um ímpio. Não fomos chamados a ferir o coração de ninguém, mas a persuadir pelo amor. Aliás, é o amor que constrói pontes, e essas pontes servirão de comunicação entre ambos.

Quem tem convicção do que crê não corre riscos de perverter a sua fé por ser educado. Afinal, ou cremos ou não cremos. E, se nossa fé não estiver decentemente alicerçada no respeito mútuo, não é fé cristã. Jesus Cristo nunca humilhou quem com ele não concordava. Pelo contrário, perdoou-os. E, por força desse perdão, conquistou muitos soldados que nele não criam. Não foi à toa que o cristianismo, em um século de existência, ameaçou o Império Romano, e em três dominou-o, mesmo que nominalmente. Assim também, quando somos educados, respeitadores, compreensivos, somos também respeitados, compreendidos e aceitos, e nossa mensagem pode ser ouvida e relevada. Os canais de comunicação ficam abertos. E, se cremos realmente na relevância de nossa mensagem e da nossa interpretação evangélica, não tenhamos dúvida: ela fará eco nos corações que interagirem conosco.

Foi isso o que Jesus quis dizer quando falou: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.” (Mt 5:16)

Não precisamos rezar na mesma cartilha, mas podemos respeitosamente deixar que os outros rezem. Porque, quando formos cantar, pregar, anunciar a salvação e a soteriologia reformada, também teremos ouvidos respeitosos, atentos e que darão relevância às argumentações. E criaremos um clima de cavalheirismo e respeito. Afinal, em nome de Jesus Cristo não somos autorizados a cuspir, a perseguir, a mentir, a zombar, a matar, a erguer muralhas ou confinar em guetos. Quem zomba da fé alheia é tão mau quanto um inquisidor da Idade Média; apenas não possui as mesmas armas.

Vivamos o autêntico evangelho, demonstremos o porquê cremos, agimos e pensamos assim. Abracemos as verdades inquestionáveis das Escrituras. Tenhamos absoluta fidelidade às tradições apostólicas do Novo Testamento. Não abramos nossos portais à mistura e ao sincretismo religioso, ao ecumenismo desprovido de princípios. Mas não façamos que posições de convicção, religião e filosofia nos tornem malcriados, zombadores e cruéis. Não tornemos nossa “verdade que liberta” em “desculpa esfarrapada” na crueldade e no desrespeito ao próximo. Lembremo-nos que, para termos ouvidos atentos, precisaremos também saber ouvir. E respeitar.

Que assim seja.
2004

Wagner Antonio de Araújo

Wagner Antonio de Araújo
Igreja Batista Boas Novas de Osasco SP

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