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segunda-feira, 7 de março de 2016

memórias literárias - 323 - EM TEMPOS DE CRISE


EM TEMPOS DE CRISE
323
Experimentamos uma crise político-econômica sem precedentes na história recente do Brasil. A sensação que temos é de estar à porta da U.T.I., acompanhando a luta de um paciente terminal. Alguns torcem pela sua plena recuperação; outros pelo seu falecimento. Cada um tem os seus motivos. Este escritor também tem a sua própria opinião bem formada, que não fará parte desta reflexão.
 
Isto me faz lembrar as histórias que ouvia de minha mãe, de minha avó, do Pr. Timofei Diacov e de outros remanescentes de outras crises. Contavam-me que na época da segunda guerra mundial as pessoas entravam em filas que viravam quarteirões, para comprar um pão duro feito com farelos de farinha e de gosto horrível. Não era possível comprar dois. Não havia gasolina para os carros; inventaram um sistema alternativo, um tanque à parte para os poucos veículos. Tudo era racionado. Sobre a revolução de 1964 contaram-me os que viveram naquela época da dificuldade de transitar fora do horário normal, do medo de aglomerações e dos desaparecimentos. 
 
Eu também vivi crises em meus cinquenta anos de vida. Em minha época as crianças trabalhavam desde cedo, prática que, conquanto criticada pela mentalidade de hoje, fez-me muito bem. Aos doze anos vendia maçãs-do-amor no Museu do Ipiranga. Fui jardineiro, lavador de vasos em floricultura, entregador de remédios e balconista de farmácia, vendedor de fresas, office-boy de banco, de empresa de computadores, datilógrafo, teletipista (operador de telex), vendedor de chocolates, corretor de seguros, de imóveis, vendedor de sorvetes na porta de fábricas, fui operador de computadores, programador, contabilista prático etc. Vivi o desemprego de 1982, de 1986, vivi cada crise e cada plano mirabolante de recuperação e nova deterioração da economia. Na década de 90 com o confisco das contas bancárias eu conheci gente que se suicidou, que perdeu tudo da noite para o dia. Eu vi famílias despedaçadas e nunca recuperadas! Vivi o apogeu de um bom salário, quando por méritos fui promovido na USP, onde servia como técnico na área de contabilidade, e os vexames de sequer receber prebenda pastoral em alguns meses, por amor à Causa do Senhor, já como pastor de tempo integral.
 
A Bíblia é um livro escrito em meio às crises. As experiências nela expressas não são as de épocas áureas ou de grande prosperidade, exceto as do tempo do império davídico ou salomônico. Escreveu-se em meio aos cercos dos inimigos, em meio à fome das cidades e dos campos, em meio às invasões dos filisteus, sírios e outros povos; escreveu-se na escravidão do Egito ou na deportação de Babilônia. No Novo Testamento encontramos os evangelhos escritos no meio das perseguições contra os cristãos, nas perseguições judaicas contra Paulo, Silas e Barnabé, nas prisões dos crentes e nos exílios, como o de João na Ilha de Patmos. Neste ambiente repleto de crises ouvimos o Apóstolo Paulo dizer com absoluta convicção e sem utilizar-se de falsa modéstia: "Não vos declaro isso por estar necessitado, porquanto aprendi a viver satisfeito sob toda e qualquer circunstância. Sei bem o que é passar necessidade e sei o que é andar com fartura. Aprendi o mistério de viver feliz em todo lugar e em qualquer situação, esteja bem alimentado, ou mesmo com fome, possuindo fartura, ou passando privações. Tudo posso naquele que me fortalece. …(Filipenses 4.11-13).
 
Se hoje o Brasil, o Oriente Médio, a Índia, os países africanos e grande parte da Europa atravessam crises, sejam para toda a população local ou para parte dela (como no caso dos refugiados sírios), a receita para atravessá-la continua sendo a mesma de todos os séculos no coração daqueles que confiam no Senhor de todo o seu coração.  Para os crentes cristãos legítimos as crises fazem parte da vida: "No mundo tereis aflições; mas tende bom ânimo: eu venci o mundo" (João 16.33). Nós, os que cremos no Senhor, sabemos que o nosso lar não é aqui e que o príncipe deste mundo e deus deste século está julgado. Não nos enganamos com mensagens de que "o Brasil é do Senhor Jesus", pois o mesmo Senhor afirmou: "o meu reino não é deste mundo". Também não nos iludimos com falsas promessas de prosperidade e de paz, pois "quando vos disserem: paz e segurança, sobrevirá repentina destruição". Os nossos olhos estão fitos em Deus, nos céus, onde o Pai mora e onde teremos novos céus e nova Terra.
 
Isto não significa furtar-nos ao dever cívico de defender o país das ditaduras impiedosas, das forças políticas corruptas e dos ludibriadores das massas populares. Este escritor tem sua posição política bem pontuada e, como um cidadão brasileiro que paga impostos e que cumpre a lei, sabe manifestar-se nos lugares e nas oportunidades legais, fazendo valer a sua liberdade de opinião. Aliás, o próprio apóstolo Paulo dizia isso aos escravos da época: "Foste chamado sendo servo? não te dê cuidado; e, se ainda podes ser livre, aproveita a ocasião." (1Co 7:21). Furtar-se do dever democrático de apoiar a justiça e condenar o crime é algo que não consta do ideário de crentes conscientes. Mas tal liberdade não pode dar lugar nem à carne, nem ao pecado, nem à violência, nem à quebra dos valores que norteiam a vida cristã, pontificados no Sermão da Montanha, na Oração do Pai Nosso e nos Dez Mandamentos. Participação política não é salvo-conduto para quebrar valores de vida e de fé.
 
Crises se enfrentam com coragem, com opinião, com o voto, com a presença física nas manifestações ordeiras e com a palavra ponderada e posicionada sobre a verdade, a justiça e os valores sobre os quais uma nação, uma economia e uma história devem centrar-se. Esta coragem forja heróis. Estes heróis, se cristãos, honram as palavras com uma conduta que dignifica o que é dito. Pregam e praticam a justiça e a moralidade, não apenas alardem bravatas eleitoreiras ou amotinadoras. "Falai de tal maneira e de tal maneira procedei, como havendo de ser julgados pela lei da liberdade." (Tiago 2.12). Um bom crente idealista não tem um discurso público elegante e uma linguagem chula em diálogos particulares.
 
Crises se enfrentam com oração. Foi assim que diversas vezes os hebreus ganharam as batalhas, algumas vezes sem mover uma única espada. Deus atua com seus anjos, atua com a confusão no campo do inimigo, atua com as ações das forças da natureza, atua com o fim da vida no coração de quem tem sido inimigo do Reino de Deus. A oração sincera, particular secreta, de quarto fechado; a oração em família, de joelhos, no culto doméstico; a oração em igreja, em vigílias, nos cultos ao Senhor; a oração dos crentes de todo o país, unidas pelo propósito de suplicar a intervenção divina nas irracionalidades dos líderes políticos e econômicos. Sim, muito pode a oração dos justificados, quando feitas em nome do Senhor Jesus Cristo, em contrição, em submissão e com absoluta fé.
 
Crises se enfrentam com trabalho e com estudo. Deus nos quer a ganhar o pão com o suor do próprio rosto e não com os benefícios de ajudas sociais. Porém, quando não há trabalho e quando a economia está travada, temos que nos ajudar e nos apoiar mutuamente, desejando-nos em honra uns dos outros, repartindo o pouco que temos com os domésticos da fé que têm menos do que nós. Temos que olhar para o próximo e procurar suprir a sua necessidade (e não os seus caprichos). Temos que expressar nosso amor e carinho em atitudes práticas de quem ajuda a carregar o fardo e não como os que proclamam suas críticas em cima dos que estão caídos. Ao mesmo tempo investir no conhecimento, no estudo, nas soluções, no conhecimento, no crescimento pessoal. Enriquecer o vocabulário, enriquecer o conhecimento naquilo em que militamos profissionalmente, tornarmo-nos os melhores em nossas atividades. Isto trará progresso e bons resultados, além de prover, num futuro próximo, quando as crises diminuirem, oportunidades e recolocações melhores.
 
Crises se enfrentam com perseverança. São épocas propícias para ensinar o valor da persistência, da não desistência, da continuidade, da fé. Fé que não se baseia em homens, fé que se baseia na certeza da presença de Deus em nossas dificuldades. Este escritor tem glorificado ao seu Criador por dar-lhe persistência no ministério pastoral que exerce, mesmo que enfrente por vinte anos crises e mais crises. A persistência tem levado a existência de uma igreja, de uma capela, de um terreno e de um povo que, se não tivesse havido perseverança, não existiriam como tais. Uma lição aprendida e ensinada por mais de vinte anos. Quantos pais de família, mães honradas, estudantes dedicados, trabalhadores consagrados, não me lêem agora, pareados e enfileirados com este escritor, na persistência de sua dedicação incondicional? Uma canção sertaneja diz que o carreiro de bois, ignorante, iletrado, ganhando pouco e vivendo por décadas pelas empoeiradas estradas do campo, foi o responsável em colocar um diploma de doutor nas mãos do filho. Perseverou com tão pouco, venceu de forma tão bela! Jamais me esqueço de uma visita feita à Igreja Batista em Pinheiros, SP, quando Juca, um querido irmão dali, mostrou-me uma senhora que vendia cocadas após o culto: viúva e com filhos pequenos, aprendera a fazer os quitutes; com os tais, construíra 4 casas, uma para cada filho e agora terminava a construção da sua própria moradia. Perseverança, mesmo que com sofrimento, gera a vitória!
 
Crises se enfrentam com esperança. As dificuldades não duram para sempre. Pessoas más e políticos corruptos, conquanto possam nunca atravessar um julgamento humano devido aos seus relacionamentos com os poderosos, terão que enfrentar o juízo de Deus um dia. E, fatalmente, falecerão por enfermidades ou por idade. Políticos não duram para sempre. Partidos não continuam para sempre. UDR, UDN, ARENA, quem se lembra dessas siglas? Talvez os mais velhos, talvez os estudantes de história; mas essas siglas eram poderes monstruosos na história deste país. O mesmo se sucederá com os corruptos partidos e agremiações que destruíram a nossa política, a nossa economia e a propriedade particular dos brasileiros: eles também passarão! Minha esposa contou-me uma fábula muito interessante: um rei possuia um sábio conselheiro; num ápice de felicidade e prosperidade o rei indagou qual a opinião do sábio. "Isto passará", resposta que indignou o rei. Dentro de pouco tempo uma crise sem precedentes abateu o seu império e o sábio foi novamente consultado. A resposta não tardou: "Isto também passará". Faz-me lembrar o que Deus diz em Sua Palavra: "E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre." (1Jo 2:17)
 
Enfim, crises se enfrentam com malas prontas. Sim, malas prontas não para fugir e pedir asilo num país remoto ou próximo. Não para fugir da responsabilidade ou da presença naquilo que a Pátria solicitar. Não para deixar de cumprir com a obrigação perante Deus, abandonando a igreja, as contribuições ou o testemunho. Não para fugir do trabalho, dos estudos, da perseverança ou perder a esperança. As nossas malas devem estar sempre prontas para ir ao Céu, lugar dos que crêem, lugar onde toda lágrima será enxugada, onde todo idoso recobrará a juventude, onde todo enfermo receberá saúde perfeita, onde todo injustiçado receberá a compensação, onde todo pobre será enriquecido, onde todo pecador encontrará a salvação completa e perfeita de sua alma!  Diz um velho e relevante hino:  SOU FORASTEIRO AQUI, EM TERRA ESTRANHA ESTOU, DO REINO LÁ DO CÉU, EMBAIXADOR EU SOU, MEU REI E SALVADOR VOS MANDA EM SEU AMOR AS BOAS-NOVAS DE PERDÃO! (Flora Cassel, hino 207 do Cantor Cristão). Outro afirma: DA LINDA PÁTRIA ESTOU MUI LONGE, TRISTE EU ESTOU. EU TENHO DE JESUS SAUDADE, QUANDO SERÁ QUE VOU? PASSARINHOS, BELAS FLORES, QUEREM ME ENCANTAR; OH! VÃOS TERRESTRES ESPLENDORES, NÃO QUERO AQUI FICAR! (Stephen C. Foster, hino 484 do Cantor Cristão).
 
Que o Brasil tenha nos crentes em Cristo Jesus um grupo que ganha as suas batalhas com participação democrática ordeira e de alto nível moral, que ganhe as lutas de joelhos em oração, que seja perseverante no trabalho, nos estudos, nos projetos, que seja movido por esperança e que tenha os olhos fitos no Céu, nossa Pátria eterna e definitiva!
 
Pr. Wagner Antonio de Araújo

07/03/2016

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