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terça-feira, 9 de maio de 2017

memórias literárias - 447 - SAUDADES


... SAUDADES ...
 
447
Hoje, entre um toque do despertador e outro, fui conduzido a uma viagem pelas asas da saudade.
 
Senti saudades. Muita saudade!
 
Tive saudades da Good News, do Pr. Ralph Metcalf, da irmã Dorothy Whitehead. Tive saudades desta equipe inesquecível com a qual trabalhei por quinze anos. Eles eram de Carolina do Norte. Anualmente vinham duas ou três vezes com equipes de dez a trinta voluntários. Eu e a minha equipe dividíamos o grupo em duplas e os distribuíamos pelas igrejas solicitantes. Passavam uma semana em atividades evangelísticas. Visitavam escolas, hospitais, orfanatos, asilos, pregavam em conferências e faziam inúmeras visitas aos lares. Lembro-me de cada grupo. Quantos momentos de alegria, de indizível regozijo espiritual! Quantas vidas transformadas pelo poder de Deus! Quantas igrejas atendidas! Ralph aposentou-se. Dorothy está no céu. Ouço dizer que a Good News continua com alguns pioneiros e outros mais novos. Mas sinto muita saudade...
 
Saudades do Pr. Josué Nunes de Lima e da Igreja Batista em Jardim Brasil, zona norte da capital paulista. Ah, quantas vezes estive com ele, primando da bênção do aconselhamento pastoral e fraternal! Ele, um dos maiores pregadores que este Brasil já teve, era ao mesmo tempo um líder eficaz e um homem extremamente simples e gentil. Quantas vezes tomei café em sua casa, ao lado da irmã Albertina, sua esposa! Quantas lágrimas derramei no ombro daquele conselheiro e quantos sábios conselhos trouxe para a minha vida! Vi o Pr. Josué reformar o templo que ele tanto amava e estive na inauguração. Preguei naquele púlpito, que ele fazia questão de manter apenas para a hora do sermão, conduzindo o pregador de forma solene e grave. Josué hoje está no céu, sua primeira esposa também. Soube que o Jardim Brasil hoje vai bem e louvo a Deus por isso. Mas sinto muita saudade...
 
Saudades do Shalom! Sim, anos oitenta. Eu era um novo convertido adolescente, ávido para testemunhar de Cristo aos colegas. Encontrei o Albert, o Roger, a Sandra e começamos a nos reunir na hora do recreio, período noturno do Thomás Galhardo na Vila Romana, São Paulo. Aos poucos outras pessoas queriam juntar-se a nós, ou para ouvir uma mensagem ou para receber oração. Tornamo-nos fortes, mais de quarenta adolescentes na sala de aula no recreio. Chamamos a atenção dos professores. Um deles converteu-se. A diretora vinha assistir. Levávamos bíblia, violão, folhetos e aos finais de semana cantávamos em igrejas que nos convidavam. Foram quase três anos de trabalho. Os colegas cresceram. Uns tornaram-se pastores; outros perderam o contato. Mas foi um tempo inesquecível. Sinto muita saudade...
 
Saudades da Ordem dos Pastores Batistas do Estado de São Paulo, nos tempos do Pastor José Vieira Rocha. Como era bom! Ele, o líder máximo no respeito de todos nós. Sábias palavras, administração perfeita, bondade e piedade em tudo o que fazia. Lembro-me dos cultos às segundas-feiras mensais na Primeira Igreja Batista do Brás. Momentos ímpares, onde os colegas de toda parte da Grande São Paulo reuniam-se e trocavam experiências e desenvolviam amizade. O Pr. Vieira tratava-me com tamanho carinho paternal que acabava sendo um pai espiritual para mim. Mesmo sendo eu um pastor mais jovem levou-me a pregar na grande igreja que pastoreava, não uma e nem duas vezes. Ah, que honra, que graça inesquecível! O Pr. Vieira continua ativo no reino, agora um pastor emérito daquela igreja. Ele e sua esposa Diail fazem parte da minha história e da história de minha família, é meu conselheiro pessoal. Aquela ordem de pastores não existe mais, foi fundida com a nacional. Os cultos mudaram de horário e de estilo. Mas sinto muita saudade!
 
Saudade das visitas aos pastores idosos! Lembro-me quando o Pr. Josué Nunes de Lima, Pr. Edson Borges de Aquino e Pr. Tiago Lima precisavam de mim para levá-los a visitar colegas doentes ou idosos. Quantas viagens fizemos! Lembro-me das visitas que fizemos com o Pr. José Vieira Rocha e irmão Grigório. Fomos nas casas de obreiros que sofriam e trouxemos a eles o conforto tão especial naquelas horas de tanta necessidade. Saíamos confortados e com o coração repleto de gratidão! Sinto saudade...
 
E o que fazer com tanta saudade?
 
Transformá-la em gratidão, pois são memórias que o Senhor nos dá no exercício da fé cristã. Sou um bem-aventurado, pois pude lembrar-me do meu Criador nos dias em que não tinha meia idade. Assim, evocando as lembranças, posso trazer à mente coisas que me alegram e que puderam ser atos de louvor ao Senhor de minha vida. Lembra-te também do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais venhas a dizer: Não tenho neles contentamento; (Ec 12:1)
 
Motivar-me para a continuidade do serviço, porque não me aposentei. Pelo contrário, enquanto eu tiver vida, saúde, fôlego de vida, continuarei a servir ao Senhor em todo o tempo e lugar, seja de uma forma ou de outra. As lembranças de felicidades passadas no serviço do meu Rei me incentivam a continuar e a viver outras tão boas ou até melhores do que aquelas. Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. (Fp 3:14)
 
Quero servir ao Senhor até o fim e ter a felicidade que o Apóstolo Paulo teve, ao deparar-se com a morte próxima. Ele, que não economizara tempo algum no serviço do Senhor, que dedicara cada minuto, cada segundo, cada passo, cada palavra a semear a Palavra de Deus, a testemunhar de Cristo como o Messias prometido e a fundar igrejas onde a mensagem fosse pregada e vivida, pôde constatar, nos seus últimos momentos, e para a glória de Deus, que buscara fazer o possível e o impossível para manter-se fiel e produtivo. Quero que assim aconteça comigo, independente do tempo de vida que ainda tiver pela frente.  Quero poder dizer como Paulo: Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. (2Tm 4:7)
 
A saudade dói, principalmente quando aqueles a quem amamos já não estão mais entre nós. Dói quando as obras que fazíamos não são mais do jeito que eram. Dói quando somos privados daquelas mesmas experiências que tínhamos. Mas não não nos impedem de descobrir novas oportunidades, novas pessoas, novas alegrias e novas chances de servir mais e melhor. Para o crente a vida é sempre uma dádiva; as folhas que hoje caem adubam a terra para que a nova produção seja mais frutífera e bonita.
 
Bendito seja Deus pela dádiva da saudade!
 
Wagner Antonio de Araújo

09/05/2017

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