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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

memórias literárias - 22 - E A VIDA CONTINUA ... ONDE?



22 - E A VIDA CONTINUA ...
ONDE?
Ontem estive no Hospital São Camilo, de Vila Pompéia, São Paulo, para tomar injeções e tratar-me de severa infecção. Fiquei sabendo do falecimento do ator Luiz Bacelli, primoroso ator televisivo-teatral, um dia antes. Esse ator transmitia, em suas atuações, grande cultura, brilhante interpretação, um ar paternal e fez muitos papéis ao longo da carreira, especializando-se, ao final, em papéis de cunho espírita cardecista. O último deles foi um requiém de si próprio, E A VIDA CONTINUA, filme hoje fartamente divulgado pelos cinemas e pelo TELE-CINE.  Ele tratava de um câncer e teve parada cardíaca. A mídia pouco divulgou, pois talvez, por não ser um ator de projeção midiática maciça não renderia muitos cliques ou a venda de muitas manchetes. Apenas noticiou pifiamente o falecimento.
Esse filme, que assisti ontem para fins apologéticos, com qualidade questionável em seus diálogos um tanto artificiais, com mixagem pobre e de roteiro às vezes quebrado, conta uma estória revelada pelo espírito André Luiz, psicografado por Chico Xavier. Trata-se de um homem e uma mulher que vão a uma clínica em Itapira para prepararem-se psicologicamente para a cirurgia de câncer. Ambos esbarram-se na estrada e sentem conhecer-se há muito tempo. Ela, católica, ele, espírita. No hospital os vínculos aumentam e ele tenta explicar a ela a teoria cardecista do espiritismo: o espírito é o carroceiro, o perispírito é o cavalo e o corpo é a carroça. Quando a carroça quebra o carroceiro monta no cavalo e busca nova carroça e assim o processo de reencarnação acontece. Ela protesta, mas a conversa agrada.
Após a cirurgia ambos acordam no hospital em condições boas, mas aos poucos descobrem-se não na Terra, mas no Novo Lar, uma plataforma idêntica à Terra, materializada para eles, com pessoas, construções, hospital, cidade e vida social. Recebem a permissão de visitar seus familiares na Terra. Para isso vão de "vôo espiritual", um perfeito avião do além. E no "aeroporto espiritual" terão horário para voltar. Então a história desvenda-se: o homem descobre-se pai da mulher que traía essa amiga com o antigo marido; também descobre que ele, o amigo, é o assassino do pai dessa nova amiga. E ambos descobrem vínculos familiares profundos, onde cada um fez algum mal profundo para o outro ou para os seus. E vêem que todos precisam se reconciliar.
Lá na plataforma o orientador diz algumas coisas importantes:
1) Deus deu ao homem um livre-arbítrio total e exige que ele cumpra essa sua capacidade;
2) Os homens escolhem o seu destino e ao morrerem, se perdidos moralmente, vão para essa plataforma mas ficam do lado de fora, numa materialização horrenda de escuridão, trevas, solidão e dificuldades. Os que vão para o lugar melhor fazem incursões para tentar ajudar os sofredores e às vezes conseguem resgatar alguma alma penada.
3) Os homens reencarnam para poder evoluir em sua vida moral e em seu crescimento interior. No caso do filme, o homem que foi morto reencarna como filho do jovem que o matou; a mulher que gostava do homem velho assassinado pelo amigo reencarna e será esposa dele na próxima encarnação. E assim os espíritos ficam concentrados numa mesma família.
4) As plataformas espirituais concentram pessoas de uma mesma região. No filme todos eram paulistas. Subentende-se que há plataformas para nordestinos, para ingleses, africanos, e assim o planeta está repleto por milhares de mundos intermediários.
5) No final todos poderão gozar de uma evolução moral e espiritual, mediante sucessivas reencarnações, concentradas em castas de espíritos, que ora são mães, ora são filhas, ora esposas, ora amantes, e vice-versa com os homens. Reencarnarão quantas vezes forem necessárias e ao final subirão aos mundos superiores.
6) A religião ali guarda também as suas castas, mas estão separadas em plataformas fanáticas até que possam evoluir para um convívio universal.
Portanto, segundo o filme,
1) Não há Jesus no mundo do além, exceto em uma ou outra frase afirmativa, convidando as almas penadas para vir até Jesus. A soteriologia é inteiramente baseada no livre-arbítrio e no mérito humano, nas sucessivas reencarnações voluntárias ou impostas e o homem terá que evoluir sozinho, ainda que com a ajuda de espíritos já evoluídos que o ajudam lá e cá.
2) Todo mal moral e toda debilidade de caráter terá que ser reparada por si só e quantas vezes forem necessárias. E todos são filhos de Deus, independente do que fazem, estando apenas desajustados com os propósitos criativos, mas que no final alcançarão essa evolução.
3) Pessoas mortas voltam para sugerir na mente de familiares e amigos coisas que os ajudem a evoluir, e está subentendido que outros mortos não sobem e ficam amarrados aos locais de sofrimento ou de violência, e incitam o mal e o crime também. Cabe às pessoas discernirem esses pensamentos; muitas nem percebem tais sugestões, apenas lembram-se de seus mortos queridos ou de seus inimigos e associam alguns pensamentos.
4) O mundo do além é um mundo igual a este, porém ecologicamente correto, iniciado num baita hospital, com departamentos, faculdades, publicação de livros, tecnologia de filmagem, enfim, uma cópia tecnológica do hoje.
5) Os ciclos continuam ininterruptamente até que cumpram seus propósitos. Depois viram espíritos superiores e sobre esses nada se disse.
Custo a acreditar que a TV GLOBO, o TELE-CINE e tantas outras empresas, não apenas invistam culturalmente nessas produções (como fazem com os atuais artistas gospel) e mantenham uma fé velada nesses conceitos trasmitidos por supostos espíritos desencarnados aos grandes médiuns espíritas.
A minha conclusão sobre o filme e sobre toda essa teologia cardecista tupiniquim (de origem claramente brasileira):
1) Os homens criam tais teorias e as transmitem com a finalidade de confortar o tremendo medo do além e jorrar esperança num futuro incerto após a morte. São teorias fantasiosas ao extremo, que buscam iludir ou auto-iludir os seus seguidores, transformando a morte em um remédio necessário e bem-vindo.
2) Os homens desconhecem qualquer ação redentora de Jesus Cristo. Não há espaço para o PERDÃO COMPLETO, PLENO, IRREVERSÍVEL, conseguido na cruz pelo sacrifício de Jesus. O papel de Cristo foi o de transmissor de ensinamentos, não o de pagador dos pecados da humanidade. Não há como substituir o que cada um terá que pagar, não há como impedir uma evolução natural e pessoal de alguém.
3) Não há inferno definitivo. O que há é um estado temporário de acidez de caráter, de alma turbada e violenta, mas que ao longo do tempo evoluirá para uma alma boa. Nessa teologia o túmulo não é o fim e aos homens está ordenado morrerem várias e várias vezes, vindo depois disso a avaliação do que fez e a graduação do espírito. O inferno é uma projeção do mal pessoal, mas que será transformado.
4) Esta é uma construção tão fantasiosa, tão imaginativa, uma fábula tão bem engendrada que necessita de gente muito crente e muito crédula para segui-la. Mas conta com a força do inimigo do homem, Satanás, para a divulgação maciça e tecnológica, e faz adeptos nas mais variadas classes sociais, principalmente entre os mais cultos e mais ricos. Já os pobres mantém-se com fé similar, mas nas baixas doutrinas espíritas, as chamadas afro-brasileiras. Todas, contudo, excluem Cristo como Redentor, excluem um Céu como dádiva aos perdoados e salvos e mantém o homem escravo de um ciclo imenso de morte/readaptação/renascimento/morte/readaptação/renascimento. Um sistema que escraviza a alma a um "ecossistema espiritual" do tipo evaporação da água/formação de nuvens/chuva/penetração na terra/nascimento nas fontes/evaporação etc.
5) Essa fé e essa teologia não são nem reais e nem cristãs. Não são reais pois partem do material para o espiritual, sendo uma mera projeção social da mente dos intelectuais, criando um "admirável mundo novo" igual ao nosso, tão humano como foram humanas as mentes que o imaginaram. Uma fantasia linda e monstruosa, mas apenas uma fantasia. Não é real. Cada médium e cada espírito ensina um pouco diferente, explica o mundo além com uma vertente e então é necessária uma ginástica teológica para que os adeptos tenham uma parca idéia geral do que realmente os aguarda. Não é cristã porque Cristo não ocupa lugar algum nela. Ele é substituível. Ele é dispensável. Ele já passou. Ele é só um ícone, sem função alguma senão a de um grande espírito evoluído.
6) A Bíblia não tem papel algum nessa teologia. Não há valorização alguma dos fundamentos religiosos judaicos e cristãos. São equiparados a preconceitos de almas não evoluídas. O que conta são as revelações dos espíritos evoluídos, os "anjos", supostos homens que já não estão mais na plataforma, mas nas regiões superiores.  Isso nos dirige às seguintes conclusões:
a) A negação das Escrituras Bíblicas é o sintoma de sua falsidade. "À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles." (Is 8:20)
b) Suas revelações mediúnicas por "anjos" estão previstas e condenadas na Bíblia: "Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema." (Gl 1:8); "Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema." (Gl 1:9)
c) Não há relação de compartilhamento ou de incursões nos mundos separados dos iluminados e dos escurecidos: "E, além disso, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá passar para cá." (Lc 16:26)
d) Não há transferências de estado e há punição eterna, para sempre, sem trégua ou perdão, não porque Deus não ame os punidos, mas porque não houve posse de arrependimento ou fé: "Ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas, e os idólatras, e qualquer que ama e comete a mentira." (Ap 22:15); "E a fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre; e não têm repouso nem de dia nem de noite os que adoram a besta e a sua imagem, e aquele que receber o sinal do seu nome." (Ap 14:11)
e) Não há segundo nascimento para uma segunda morte: "E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo," (Hb 9:27). Quando Cristo fala sobre "novo nascimento" recebe de Nicodemos a pergunta: "como pode um homem nascer sendo velho? Voltará ao ventre de sua mãe?" Seria um bom momento para Jesus dizer: "sim, quantas vezes forem necessárias". No entanto Cristo desvincula esse novo nascimento da maternidade natural, ao dizer: "O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito." (Jo 3:6).
f) O papel de Cristo não foi meramente pedagógico, não nasceu Ele para ser apenas um profeta. Ele nasceu para ser CRISTO, ou UNGIDO, ou MESSIAS, ou ENVIADO E PROMETIDO, rei e Salvador: "E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo." (Mt 16:16); "Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou." (Jo 13:13); Ele é o próprio Deus encarnado: "Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz." (Is 9:6)
g) Há perdão integral, imediato e completo para quem crê no Senhor Jesus Cristo, sem ter a necessidade de passar por reparações ou vidas que consertem os estragos anteriores. O ladrão na cruz, arrependido, exclama: "Lembra-te de mim quando vieres no Teu Reino"; ao que Cristo responde enfaticamente: "E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso." (Lc 23:43). Paulo afirma inspirado pelo Espírito Santo: "A este dão testemunho todos os profetas, de que todos os que nele crêem receberão o perdão dos pecados pelo seu nome." (At 10:43)
h) Não há outro caminho para a evolução final, pois a única evolução que existe para a alma humana encontra-se em sua regeneração em Cristo, quando somos feitos participantes da natureza divina. Fora de Cristo não há salvação: "E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos." (At 4:12)
Minhas ponderações não exaustivas e completas, pois poderia citar centenas de outras argumentações que me fazem rejeitar o ensino de E A VIDA CONTINUA, ensino credenciado pela Federação Espírita Brasileira e apoiado pelas organizações GLOBO e por meio mundo de brasileiros. A minha fé em Cristo condiciona a minha fé em qualquer outra coisa. O meu parâmetro de julgamento não é o que eu acho, o que eu sinto, o que eu penso, o que eu imagino, o que o médium disse, mas o que Deus diz em Sua única e exclusiva revelação escrita, a Bíblia Sagrada, que é lâmpada para os meus pés, luz para os meus caminhos, que não pode ser cortada ou dissecada como uma rã em laboratório, aproveitando os pedaços que são favoráveis às minhas fantasias, mas ser crida, vivida e aceita integralmente, interpretada à luz de Cristo e de Sua obra.
Sim. A vida continua.
Mas não do jeito que Luiz Bacelli a interpretou e talvez, infelizmente, do jeito que imaginou em sua hora da morte na última segunda-feira.
A vida continua, ou no Céu para os remidos em Cristo, ou no Inferno, para os que o rejeitam.
Analisei com todo o respeito aos que crêem diferentemente. Ter opinião não é ofender pessoas mas debater e demonstrar idéias e construir reflexões. E as minhas continuarão fundamentadas nas Escrituras Sagradas e não nas vozes mediúnicas dos cardecistas.
São Paulo, Brasil, 27 de fevereiro de 2013
Wagner Antonio de Araújo
pastor da
Igreja Batista Boas Novas do Rodoanel em Carapicuíba, São Paulo, Brasil
presidente atual da
Ordem dos Pastores Batistas Clássicos do Brasil
reprodução autorizada

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