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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

memórias literárias - 266 - SOBRE A DESISTÊNCIA E A RETOMADA

SOBRE A DESISTÊNCIA
E A RETOMADA
 
Um dos custos de um serviço público é a publicidade da função. Em se tratando de um ministério cristão, a exposição é um caminho necessário e difícil. A privacidade fica comprometida; porém, se caminharmos à luz do Evangelho, o testemunho torna-se eficaz, glorificando ao Senhor que nos chamou e capacitou.
 
Desde muito tempo Ele convenceu o meu coração, através de um chamado cercado de evidências internas e externas, de que separava-me para servi-Lo com exclusividade. Dentre as várias áreas de atuação nas igrejas do Senhor, direcionou-me a ser ministro do evangelho, pastor batista. Lá se foram 35 anos de vida cristã, iniciada em 24 de fevereiro de 1980, quando entreguei-me a Cristo e por Ele fui convertido a uma nova vida, num culto realizado na Igreja Batista em Sumarezinho, SP, tendo por pregador o Pastor Timofei Diacov. Naquele mesmo ano e pelo mesmo ministro, fui batizado biblicamente (por imersão em água e após profissão de fé) em 27 de abril. Tendo exercido funções de serviço na igreja local (professor de adolescentes, presidente da mocidade, evangelista, corista, cantor em conjuntos locais) fui estudar teologia para atender ao chamado do Senhor. Em 03 de agosto de 1991 fui examinado pelo concílio requisitado pela Igreja Batista em Vila Souza, onde servia ao Senhor na época. Ali estiveram presentes Manoel Gonçalves de Oliveira (que presidiu), Edélcio Augusto Costa, Paulo Lopes Barbosa, João Rodrigues dos Santos, Ernane Aquino Costa, José Olah Filho, Carlos Gomes Cardoso, Jairo Cavalcante Ávila, Albino Faustino, Jessé Geraldo Cerqueira, Jeremias Ribeiro dos Santos, José Salustiano da Costa, Timofei Diacov, Dorival Cardoso Lima, Rodrigo de Souza Pereira, Augusto Victorino, Neilson Xavier de Brito, Osvalnir Ferreira da Costa e Sérgio Medeiros. Aprovado pelo mesmo, fui consagrado pela imposição de mãos pelo mesmo presbitério, acrescido de outros pastores, em 13 de outubro de 1991, em cerimônia realizada nas dependências da Igreja Batista em Vila Brasilândia, São Paulo.
 
Exerci o pastorado da Igreja Batista em Vila Souza (onde já servia ministerialmente na prática desde 1987 com as limitações peculiares, isto é, sem celebrar as ordenanças), de 1991 a 1993. Pastoreei a Igreja Batista Boas Novas do Jardim Brasil nos anos de 1993 e 1994. Transferi-me para a Igreja Batista em Bela Vista, na cidade de Osasco, tendo exercido o seu ministério entre 1995 e 1996. E em 07 de novembro de 1996, com outros 32 irmãos, iniciamos a Missão Batista Boas Novas, sob a direção da Igreja Batista Betel de Itapevi, onde era ministro o amado e querido Pastor Walter Roosch. Permanecemos como congregação pelos quatro anos que se seguiram, até que em 04 de novembro de 1996 a Igreja Batista Betel nos organizou como igreja (até então éramos uma congregação). Durante todos esses 19 anos vivemos de forma nômade, pois não tínhamos imóvel onde erguer o nosso templo. Entre 1996 e 1997 estivemos embaixo de uma granja na Av. Novo Osasco, no Bairro Novo Osasco. De lá seguimos para o imóvel do irmão Manoel Melo, na Rua Boaventura Valério de Miranda, onde permanecemos até o ano de 2003. E naquele ano transferimo-nos para a Av. Internacional, no bairro Santo Antonio, no mesmo município de Osasco, tendo permanecido até 2010, quando, pela falta de recursos financeiros e pelo aumento do preço do aluguel, decidimos não alugar mais nada, permanecendo nas casas dos membros até que Deus nos mostrasse um imóvel. Congregamos na garagem da casa da família Curcino, também na casa dos Nieves, até que Deus nos concedeu a graça de adquirir o imóvel no município vizinho, Carapicuíba, no bairro limítrofe de Novo Horizonte, junto ao Rodoanel Mário Covas.  Encontramos 2 casinhas pequenas, sendo que a de número 1 nos servia de salão de cultos e a número 2 de sala social. Em 2013, desafiados pelo Pr. José Vieira Rocha, decidimos buscar ajuda com o Pr. Arídio Pinto Barreto, que representava americanos que possuíam capelas para a doação. Conseguida a capela, contratamos uma empreiteira para tirar as toneladas de pedra que haviam e construir uma laje sobre a qual fixaríamos a capela. Em junho de 2014 a laje foi concretada e a capela erguida. De lá para cá o grande desafio tem sido completar o que faltou, isto é, dar eficiência às dependências, acabamentos nas áreas e erguer o que faltava. Neste rol encontram-se: gabinete pastoral, berçário, sala infantil, quarto-dormitório para pernoite, banheiros, salão social, rampa de acesso, grades e fachada estilizada. Enquanto a crise financeira não se evidenciava conseguíamos manter a construção com cewrta regularidade. Em vindo a falência do país, cessaram também os volumes de ofertas e ficamos sem condições de conclusão.
 
Estar na Igreja Batista Boas Novas do Rodoanel durante todo esse tempo não foi consequência de não ter outras oportunidades de trabalho. Pelo contrário, durante as duas décadas acredito ter recebido duas dezenas de convites para pastorear excelentes igrejas, algumas de membresia volumosa, tanto na cidade quanto no estado de São Paulo e em outros, e uma em Portugal. Aceitar tais convites muito me honraria, além de trazer-me finalmente uma estabilidade que até hoje não conheci (templo pronto, gabinete montado, salário condigno, vida normal sem desafios de sobrevivência). Um fator impeditivo fez com que eu dissesse não a todos os convites: a certeza de que deveria "completar a carreira", pelo menos naquilo em que havia me comprometido diante de Deus e diante da pequenina igreja. Muitos convites vieram antes de comprarmos um terreno. Eu não poderia deixar a obra inconclusa. Não porque seria insubstituível. Jamais! Há gente muito melhor do que eu, não tenho dúvida. Mas foi o meu nome que eu escutei ser convocado para esta tarefa. O ministro que me sucedesse deveria ter desafios dele, contando com o trabalho do antigo pastor concluído. Depois, quando já adquiríramos o terreno, também não aceitei convites, pois fora desafiado a construir uma casa de oração adequada para o bairro, para a congregação, para servir ao povo. Não bastava apenas prover uma capela. Era necessário ter salas de apoio. Banheiros limpos e adequados, salão social para os encontros, boas salas de Escola Dominical, estacionamento para os carros etc. Então nos pusemos a fazer este trabalho.
 
Um pastor escreveu-me, dizendo que sua igreja nunca pedira um tostão que não fosse para a igreja local. Respondi-lhe que sua igreja lhe fora confiada depois que alguém, antes dele, tomara todas as providências para adquirir terreno e construir o seu templo e que lhe entregara tudo pronto, diferentemente da obra que o Senhor a mim confiara. Lembrei-me de Manoel Avelino de Souza, autor de vários hinos do Cantor Cristão, que solicitava ofertas para todas as igrejas que visitava em seu tempo, para construir o grande templo da Primeira Igreja Batista de Niterói (fato que ficou no esquecimento quando do ministério do último pastor famoso que por ali esteve). Lembrei-me do Pastor João Filson Soren, que batalhou por 28 anos para conseguir recursos aqui no Brasil e nos Estados Unidos da América, para comprar o belíssimo terreno e construir o grande templo da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro. Um dia ouvi alguém dizer que um pastor destes grandes templos pregara que não era prioridade da igreja construir templos, mas investir em vida. Respondi à pessoa que era muito fácil dizer isso debaixo de um teto e uma construção gigantesca, conseguida com suor, sangue e lágrimas pelos predecessores; que dissesse isso a uma igreja sem terreno e sem templo no meio de uma praça pública e então eu daria algum crédito para sua prédica. Geralmente quem não se esforça com uma obra, mas a toma pronta não costuma dar valor às conquistas, e, não raras vezes, desvaloriza o esforço. Jamais em toda a minha vida pedi um centavo que fosse destinado a mim ou à minha família. Nunca precisei e jamais precisarei fazer isso. Porém, para a obra de Deus, tive que perder a vergonha e saí com o pires na mão. Não é algo fácil, nem característico, nem que me traz felicidade. Os que me lêem e estão abrigados em templos prontos e acabados, que dêem graças a Deus pelos que trabalharam antes. O custo de pedir pela obra, num mundo tão perverso como o nosso, repleto de vizinhança evangélica falsa e neopentecostal, que pede dinheiro para manter a vida nababesca de seus líderes, nos deixa com as saias curtas, de rosto enrubecido, porque somos confundidos com esses grupos. Mas quem conhece o nosso ministério e conhece a minha vida em particular, sabe que o dinheiro em minha mão, o meu dinheiro, costuma ter destino certo: a obra do Senhor. E que prefiro não receber o que é justo do que ter um único centavo que não me pertença. Quem congrega comigo há vinte anos sabe do que falo. Aliás, poucos são os pastores com vinte anos num só lugar. Alguns não aguentam as pressões, as dificuldades, as críticas, os desafios, e deixam os ministérios com obras inconclusas. Estou há vinte anos lutando e nunca desisti.
 
Nesta semana eu iria desistir. Sem dar fama nem ao acontecido e nem a quem provocou o desgosto, novamente me vi sob os ataques do inimigo. Cansado, fragilizado, com um restante de obra a fazer e sem as condições indispensáveis, adoeci emocional e fisicamente. Quando vemos nossa vida, família, ministério e conduta debaixo de ataques, o coração se entristece muito. Então apresentei a causa ao Senhor nosso Deus. No dia de ontem, 22 de outubro de 2015, busquei sozinho a presença do Pastor da Igreja, enquanto visitava a Igreja Batista Sinai. Derramei-me diante de Jesus e disse de minha dor, das agressões e do intenso desejo de desistir. Enquanto orava, um irmão, cujo nome não declinarei, sem que se tivesse qualquer expectativa deste contato, chamou-me pelo messenger facebook e afirmou-me que Deus falara ao seu coração para que eu não desistisse. Disse-me para não importar-me com a língua ferina e com as dificuldades. Além disso, reprisou a oferta que fizera no dia anterior, duplicando sua contribuição. Em lágrimas, agradeci ao Pai. Ao chegar em casa, dois irmãos de nossa igreja, Dival e Serginho, procuraram-me para, da mesma forma, expressarem solidariedade e grande confiança no Senhor, instando para que eu não considerasse as agressões recebidas. E hoje um outro irmão da igreja, Shiro, instou-me com II Crônicas 15.7. Mas esforçai-vos, e não desfaleçam as vossas mãos; porque a vossa obra tem uma recompensa. 
 
Eu contabilizei o valor necessário para terminar o que está começado e iria ajuntar o necessário, pagar os compromissos e encerrar a construção. Eu faria isso até que alguém desejasse assumi-la por sua conta e risco, talvez outro ministro. Contudo, após diversas expressões de amigos queridos e destes em especial, o Senhor deu-me fôlego para mais uma vez não desistir. Não sei como, não sei de que forma e não sei com que recursos darei sequência. Mas vou continuar com a obra. Ela não é minha. Ela não é ostentativa. Ela não é feita para lazer ou para entretenimento. Ali é uma igreja de Deus. Ali os novos convertidos serão reunidos para servirem a Deus e ganharem outros para Jesus. A igreja existe, é viva e agora com poucas adaptações teremos o nosso quartel-general para a obra de evangelização que está prestes a ser deflagrada no bairro. Mais uma vez o Senhor ergue e manda caminhar. Ainda terei que sair com o pires na mão. Ainda terei que me expor dessa forma tão incômoda, pois se não houver comunicação como se saberá de tudo o que se precisa? Mas tão-logo essa construção termine o pires será guardado diante do Senhor e não mais ocupará o meu noticiário particular, pois o resto será responsabilidade da igreja local. Antes, porém, enquanto se conclui a construção, eu desejo continuar a contar com o amor, o apoio e o apreço dos verdadeiros amigos.
 
Desejei gastar este e-mail para contar tudo isto. Fiz do ministério pastoral a minha vida. E concluir a construção da Boas Novas o meu desafio. A glória não será minha, nem da igreja local e nem dos que com ela cooperam. Será de Cristo, que faz convergir para Ele todas as coisas. Quem ama a igreja do Senhor e reconhece honestidade no que fazemos desejará ver o nome do Senhor louvado e glorificado. E não solicitará gloria para si, mas glória para Deus em Cristo Jesus.
 
Obrigado por lerem este texto. É fruto de oração, de lágrimas, de súplicas, de revoltas íntimas contra o dedo de Satanás e também fruto da confiança de que "aquele que começou a boa obra" há de terminá-la para a glória do nome dEle.
 
Obrigado.
 
São Paulo, Brasil, 23 de outubro de 2015
 
Pastor Wagner Antonio de Araújo

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