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quinta-feira, 2 de março de 2017

memórias literárias - 418 - ENTRA, PAPAI!

ENTRA, PAPAI!

 
418
Chego da rua cansado, aborrecido com as questões quotidianas, exausto na luta pela sobrevivência e sou recebido por um sorrisinho ingênuo e feliz, com a voz meiga e carinhosa de minha pequenina bebê Rute Cristina. Ela me diz feliz e ansiosa: "Entra, papai!"
 
Por um momento esqueço-me dos problemas financeiros, das contas a pagar, do cheque especial que ameaça a estabilidade das finanças; da fatura do cartão de crédito que estourou o orçamento; do preço da gasolina que atingiu o climax, do IPTU que subiu quase dez por cento; do preço da consulta do dentista e do dinheiro da feira.
 
Por um instante esqueço-me das enfermidades; dos tratamentos longos e penosos aos quais me submeto e dos problemas de saúde da própria família; esqueço-me do jejum que farei para recolher materiais ou dos contrastes que tomarei para submeter-me aos aparelhos de exame; esqueço-me do valor exorbitante das faturas de convênios médicos e das filas intermináveis da medicina pública, dos agendamentos que nos pegam em estágio avançado por demorarem tanto e dos remédios, cujo preço não é compatível com o nosso ganho.
 
O sorriso de minha filha faz-me esquecer a crise política, moral e espiritual de meu país; faz-me deixar de sentir tanto nojo pelo pecado da nação; faz-me aquietar a alma neste turbilhão de más notícias que os periódicos e as redes sociais teimam em trazer-me manhã após manhã; seu sorriso me faz ter um minuto de paz e de alegria, mesmo sabendo que as crises continuam e que a corrupção continua avançando nas mais variadas esferas sociais. 
 
Sim, um sorriso lindo, meigo, puro, inocente (não por não ter pecado, mas por não ter esse juízo ainda), brilhante, que não me cobra nada mais do que entrar, tomá-la no colo e dar-lhe um beijinho no machucado do pé ou um afago nos lindos cabelos castanhos. Um coraçãozinho que não deseja nada mais do que a presença confortante do papai que a ama e que a leva à laje para ver os aviões que passam ou que lhe mostra no celular os vídeos dela quando era mais pequenina.
 
Um remédio. "Entra, papai!" ; e o cansaço se esvai; a ira se acalma; a ansiedade dá lugar à paz simples de um sorriso infantil. Por isso Jesus afirmou ser justo e verdadeiro o dito bíblico: "da boca dos pequeninos tiraste força (perfeito louvor)". Ah, quando uma criança manifesta amor ou carinho, desejo de ter-nos junto de si ou um sorriso meigo, podemos ter certeza de que é verdadeiro e que é real! Na cabeça de uma menina de um ano e sete meses não há espaço para as preocupações que nossa mente abriga. Ela sabe que é amada, que é cuidada; ela só desfruta. E quer que estejamos juntos.
 
"Entra, papai!". Eu entro. E comigo entra também o consolo divino, que nos dá no sorriso de uma criança o anjo que nos soergue e nos serve de pão e água para o continuar do longo caminho da vida.
 
"Entra, papai!".
 
Eu entrei. E assim encontrei a paz!
 
Wagner Antonio de Araújo
02/03/2017

 

2 comentários:

  1. Muito bom. Realmente os filhos sempre nos fazem esquecer as vicissitudes da vida, com um pequeno mas tão significativo ato como esse "entra papai".

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  2. Maravilha!!!! É assim mesmo! ��❤��������������

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