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segunda-feira, 17 de abril de 2017

memórias literárias - 437 - SAUDADE DOS E-MAILS

SAUDADE DOS
E-MAILS

 
437
"Querida, deixa ver se chegou algum e-mail urgente". E Elaine ria quando eu assim me expressava. Para ela não havia e-mail urgente, apenas telefonemas. Pois havia. Conversávamos por e-mail. Amigos estabeleciam listas ou grupos para trocar e-mails. Havia listas específicas para cada tema: política, religião, oração, viagens, tecnologia. Eu, ao lado do Pr. Norberto Marquardt e Pr. Airton Evangelista da Costa, constituí uma primeira lista de comunhão, a COMPARTILHANDO, só para ministros do evangelho. Depois PONTO DE ENCONTRO, para todos os crentes. Depois PASTORES E LÍDERES, para esta área específica. O Pr. Norberto criou a DEFESA DA FÉ. E as listas proliferaram. O sistema e-groups era uma beleza. O Yahoo comprou-o e destruiu-o. Sobraram apenas restos daquilo que foi a melhor rede de comunicação do início dos anos dois mil.
 
Hoje os e-mails tornaram-se obsoletos, infelizmente. O mundo virtual migrou para o twitter, para o facebook, para o instragram e, principalmente, para o whatsapp/messenger. Saímos do computador ou notebook para o smartphone, o celular com internet. As pessoas hoje vivem conectadas durante todas as horas. As conversas não começam ou terminam. Dificilmente alguém escreve: "bom dia, fulano, espero que tudo esteja bem.". As pessoas tornaram-se frias e vão direto ao ponto, sem delongas ou sem socialização nenhuma: "quero te perguntar"; "você ouviu falar de.."; "você virá?", como se todos tivéssemos dormido no mesmo quarto, como se estivéssemos presentes o tempo todo. Além disto não nos satisfazemos mais com escrita; queremos áudio, queremos ouvir a outra pessoa. E digo que até isso é pouco: hoje queremos uma prosa com áudio e vídeo, direto com a pessoa do outro lado.
 
Certamente que todos estes recursos deveriam nos aproximar, nos solidarizar, nos tornar mais próximos uns dos outros. Mas não é isso que ocorre. Quanto mais proximidade tecnológica nas comunicações, maior a distância humana entre as pessoas! Antes, quando uma carta escrita era a única alternativa, a recebíamos, cortávamos o envelope com cuidado, retirávamos o conteúdo, líamos e relíamos o texto, cheirávamos o perfume do papel, olhávamos para uma foto que acompanhava e tínhamos em mãos um pedaço do coração do outro. Hoje as comunicações são tão banais, informais e fúteis que, ao final do dia, deletamos tudo o que foi conversado nos chats, nos whatsapps e nas redes sociais. Claro, quase nada dalí tem valor que ultrapasse o momento da escrita. Somos imediatistas e fúteis na maioria dos relacionamentos.
 
A tecnologia ainda mantém os e-mails. Eu sou sócio de inúmeras listas antigas e mantenho-me com as minhas, com mais de cem mil contatos (a maioria deles deve ter desaparecido, trocado de endereço). Raramente recebo um e-mail pessoal, de alguém querendo falar comigo, dirigindo-se com humanidade e com amizade para mim. Geralmente o que recebo são reenvios de vídeos que já conheço, textos que já se desgastaram de tantas vezes compartilhados. Confesso que sinto falta das pessoas; hoje tenho contatos frios. Quando alguém me escreve um e-mail pessoal eu folgo em mim e emociono-me, dizendo: "ainda há vida num e-mail!". Em cada mil e-mails que recebo (por dia), 900 são meras propagandas enviadas por robôs, nada mais.
 
Saudade do tempo em que a comunicação tecnológica era uma ferramenta para unir e compartilhar! Tristeza por encontrar-me num mundo plástico e sem relações profundas. Que Deus me ajude a ser ainda alguém que represente para o outro uma esperança de relacionamento verdadeiro de amizade, amor e consideração!
 
Um abraço aos humanos que porventura lerem o meu texto.
 
Wagner Antonio de Araújo

meu e-mail: bnovas@uol.com.br

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