sábado, 12 de setembro de 2020

memórias literárias - 922 - ROMPIMENTO

 ROMPIMENTO

 
922
 
O jantar terminara. Estávamos a conversar junto a mesa do restaurante. Dizia-me ela:
 
- Você não está falando sério! Como assim? Vai me abandonar?
 
- Sim. Eu pensei bastante, refleti sobre a nossa relação. Sinto que preciso me afastar definitivamente de você.
 
- Você não pode fazer isso! Você não tem mais ninguém! É um ser tristonho e abandonado! Quem ficaria do seu lado?
 
- Eu sei que sou triste. Mas a nossa relação está sendo tóxica e me matando aos poucos. Você não tem me ajudado. Pelo contrário, suga as minhas forças e me deixa prostrado. Eu não quero mais viver assim!
 
- Quanta ingratidão! Quanta falta de reconhecimento! Eu quero ver quem estará com você quando o telefone não tocar e ninguém estiver a sua procura! Eu quero ver como você irá se sentir quando não for convidado para a festa da família ou para o encontro com os amigos. E quando a promoção vier para o aprendiz a quem você preparou e esquecerem de promover você. Não, meu amor, você precisa de mim; não pode me abandonar!
 
- Você não entendeu. Eu não estou pedindo nada pra você. Eu estou lhe notificando que deixarei você hoje, nesta mesa, e para sempre!
 
- Ingrato! Traidor! Você não será capaz de me deixar! Somente o meu abraço lhe aquece na hora em que se sente sozinho. Somente eu lhe dou atenção quando fala sozinho dentro do carro. Só eu lhe compreendo quando não quer mais viver. E agora diz que vai me deixar? Por que? Encontrou outra amiga?
 
- Na verdade sim.
 
- O que? Como pôde fazer isso comigo? Quem, além de mim, será tão fiel e leal?
 
- Ela!
 
A outra se senta do meu lado. A primeira, perplexa, revoltada, em pranto, diz:
 
- Você é mau caráter! Você não sabe o que está fazendo! Essa aí não irá estar com você em todo o tempo. Aliás, ela não permanece por muito tempo com ninguém. Eu sim! Eu sempre estou presente e posso lhe dar um abraço permanente! Por favor, diga que não é verdade! Volte para mim!
 
- Querida, assunto encerrado. Este é o nosso último encontro. Eu ficarei com esta outra. Ela ousa me dizer o contrário do que sinto. Ela não me puxa para a cova, como você. Ela me ergue, me enxuga as lágrimas. Ela procura me fazer feliz. Eu já me decidi. Ficarei com ela. Adeus.
 
Em prantos ela se retira da mesa. Mas não tarda muito e vejo-a aguarrar-se ao pobre homem que perdeu o emprego naquela noite. Logo lhe faz juras de amor e sai abraçada com ele. Viro-me para a minha nova companheira e digo:
 
- Sinto-me mal por ter feito isso. Era necessário?
 
Ela, sorridente, responde-me:
 
- Foi a melhor decisão que tomou. A luz voltará ao seu rosto e a alegria tomará conta do seu coração. Bem-vindo ao meu mundo!
 
E assim foi. Mandei a minha velha amiga, A DEPRESSÃO, embora. E, afetuosamente recebi minha nova companheira, a GRATIDÃO AO SENHOR, para acompanhar-me pelo resto da vida.
 
Isso foi há anos e jamais me arrependi de ter trocado de companhia.
 
Obrigado, GRATIDÃO AO SENHOR, pelo bem que você me faz!
 
Converteste o meu pranto em folguedo; desataste o meu pano de saco, e me cingiste de alegria, (Sl 30:11)
 
Wagner Antonio de Araújo

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