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terça-feira, 25 de junho de 2013

memórias literárias - 92 - É MAIS FÁCIL ASSIM...

92 - É MAIS FÁCIL ASSIM ...


Tarde quente de inverno, destas que fazem arder a saudade do verão. Para não ficar em casa, resolvi passear na Lapa, aproveitando o ensejo de comprar alimento para o canarinho.

Como o comércio já fechara as portas, a única alternativa era o mercado municipal, que aos sábados atende até o crepúsculo.

Naturalmente tudo é espetáculo num passeio destes, principalmente quando se vai decidido a não gastar nada além do que se pretende comprar. Por ali tudo é interessante: lojas de biscoitos, chocolates, sacolas, produtos agrícolas, carne seca, pastelarias, etc. Se o desejo superasse a situação econômica e a razão, compraríamos tudo!

Como eram poucas as lojas que vendiam pássaros, procurei a mais próxima de onde meu carro estava estacionado. Que gostoso é admirar os pássaros! Periquitos australianos, canários, bigodinhos, patos, gansos, frangos, codornas... Codornas? Sim, olhem aquelas codornas, quantas amontoadas! Todas de fisionomias idênticas, do mesmo tamanho, com as mesmas cores nos olhos... Mas, esperem... e aquela alí? Coitadinha! Uma das codorninhas estava com os olhos doentes, profundamente inchados e fechados. Que tristeza... Mesmo doentinha, tentava à todo custo alimentar-se no cochinho coletivo. Dava pena de ver.

Pensei: "Certamente o criador dos pássaros não percebeu o estado da pobrezinha; senão teria dado algum remédio ou encaminhado para algum veterinário. Bem, se o problema é este, vou chamar o responsável". E foi o que eu fiz.

- “Moço, por gentileza!"

- “Pois não?”

- “Você viu o estado da pobre criatura alí no viveiro?" Apontei-lhe o viveiro de codornas. "A pobrezinha não está nem podendo enxergar. Dê só uma olhada”.

O rapaz, muito prestativo, abriu o viveiro. Naquele instante até senti uma profunda realização pessoal. Imaginei até a codorninha piando como forma de agradecimento. Já imaginei o papai "codorno" e a mamãe "codorna", olhando para mim, a pensar em quanto eram agradecidos pela ajuda prestada ao filhotinho... Quanta fantasia... Porém, ao pegá-la, o rapaz, com um rosto malicioso, foi dizendo:

- “É, amigo, essa está doente mesmo. Não tem jeito.”

E imediatamente, sem que eu pudesse intervir, colocou a codorna em cima da boca do latão de lixo, puxou-lhe o pescoço e atirou-a nos detritos.

Que crueldade, Senhor! Quanta maldade existe no coração humano! O bichinho revolvia-se por entre seu próprio sangue... Aquele fora o tratamento mais fácil encontrado pelo vendedor. Com este remédio a pobre infeliz nunca mais daria trabalho.

Aquilo chocou-me profundamente. Cheguei a sentir-me culpado pela tragédia. Verifiquei, porém, pelo número de cadáveres no lixo, que tal tratamento era comum naquele estabelecimento...

Pensei no Reino de Deus.

Não estaríamos nós, na qualidade de Igreja de Cristo, fazendo o mesmo com as “ovelhas doentes”, os irmãos que pecam e se afastam do aprisco divino?

Qual tem sido a nossa atitude ao vermos o fraco, o doente,  o desanimado, o desiludido, o caído nos vícios, o comprometido com o mundo? Oramos? Ajudamos? Orientamos? Sofremos? Exortamos? Admoestamos? Disciplinamos em amor? Não, nada disso nos passa à mente ou à mão para fazermos. Nós apenas os excluímos. Sim, nós os expulsamos. Seus olhos espirituais estão enfermos porque não têm se valido  do “colírio” da graça de Cristo (Apocalipse 3.18), estão inchados pelas graves infecções de sua alma pecadora (I Co 11.36); estão fechados sem contemplarem a glória de Deus. Ao invés de tratarmos destes doentes na fé, curando as suas enfermidades (ou ao menos fazendo de tudo para isto), achamos mais fácil amputá-los do Corpo de Cristo pura e simplesmente. Puxamos-lhes os pescoços, jogando-os fora, deixando-os à mercê de Satanás, no lixo do desamparo deste mundo.

Não falo dos falsos crentes, daqueles que entram sorrateiramente nas igrejas, sem conversão genuína, e passam a ser tal qual joio no meio do trigo. Não, não falo desses infelizes. Não falo de pessoas rebeldes, malignas, que não se submetem às autoridades. Não falo de gente das trevas, que não conhece a graça do Senhor. Uma igreja sabe quando estamos diante de um irmão em crise ou de um falso crente. Há frutos, há sintomas, e um pastor tem que ter o discernimento divino para avaliar cada caso. 

Eu falo de irmãos doentes, que caíram em ciladas, que foram pelo caminho tortuoso do pecado, do vício, da desonestidade, da imoralidade, e agora estão numa cela, num beco sem saída, com vergonha de congregar, mas completamente infelizes no que fazem, com nojo do mundo e de seus prazeres. Eles não são do mundo! Sim, falo daqueles que estão precisando de cuidados, que querem ser cuidados. Muitos tentam o suicídio, tornam-se mundanos inverterados, infelizes, arruinados, fracassados, e jamais encontram nem a felicidade nem o caminho de volta.

Tiago diz que aquele que tirar um pecador do pecado, aquele que "convertê-lo" terá coberto uma multidão de pecados. E que privilégio é ajudar quem precisa de ajuda! 

Espero que todos nós, servos de Deus e membros das igrejas, sejamos mais dóceis com os crentes que precisam de ajuda, estendendo-lhes a mão, sem fraquejar na correção. Uma disciplina bíblica não amputa o pescoço, matando a pessoa, mas tira-o de lado, para que sinta falta da Casa do Senhor, da comunhão dos santos, da graça de Jesus, do poder do Espírito Santo. Os que são de Deus sentirão a falta e, à semelhança do Filho Pródigo, não resistirão por muito tempo comendo as bolotas de porcos. Voltarão para os braços do Pai!

Sejamos os agentes da restauração dos que precisam. 

Pr. Wagner Antonio de Araújo, 2001
Igreja Batista Boas Novas, Osasco, SP

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