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quinta-feira, 5 de outubro de 2017

memórias literárias - 537 - O SEU DESTINO

O SEU
DESTINO
 
 
537
 
João Diabo. Esse era o nome de seu pai. Um bandido de alta periculosidade. Diziam que sua faca era do capeta. Com ela matara mais de setenta homens. Assaltos, roubos, estupros, tudo isso. Ele, o Joãozinho, era fruto de um estupro destes. Sua mãe, pobre mulher, humilhada pelo infeliz, tentava criar o menino da melhor maneira que podia. Lavava roupas para fora, fazia diárias de limpeza e não deixava faltar o pão e a roupa. Luxo isso não tinha.
 
No bairro a fama de João Diabo era terrível. Todos tinham uma história pra contar. E quando contemplavam o pequeno Pedrinho não tardavam a dizer: Pedrinho Capeta. "Vai seguir o destino do pai; por que a mãe não abortou essa peste?" O menino crescia triste, aborrecido, cônscio de que era fruto de uma desgraça. Sua mãe, contudo, inspirava-lhe outros sentimentos: tinha-a como salvadora, pois se não fosse a sua coragem e determinação, o seu fim teria sido uma coletagem imediata.
 
Na escola era temido. E os moleques malvados se aglomeravam junto a ele, dizendo: "Pedrinho, você tem que seguir o seu destino. Você será do mal, venha conosco!" Pedrinho sentia vontade de vingar-se de todos que lhe apontavam o dedo. Às vezes sentia desejo de tomar uma faca da cozinha de sua mãe e matar a todo aquele que o insultava. Mas algo dentro dele dizia: "Ninguém será dono do meu destino". E assim seguia, não sem lutas e conflitos. Batia e apanhava na porta da escola, levava suspensão na diretoria, sua mãe chorava muito por não ter bom resultado nos corretivos. Mas assim ele seguiu.
 
Um dia, à porta do colégio, os Gideões Internacionais, entidade internacional que distribuia novos testamentos, estacionou uma kombi na frente do colégio. Alguns homens davam de presente um exemplar do novo testamento, salmos e provérbios aos estudantes. Ele pegou um e saiu a ler. Encontrando o encarte que dizia: "Está triste? Leia tal coisa", imediatamente foi procurar. No início teve dificuldades, mas aos poucos conseguiu identificar o que significavam aqueles números e letras. E um novo mundo se abriu para ele. "Eu sou o dono do meu destino; não terei que ser como meu pai".
 
Pedrinho converteu-se ao evangelho. Fê-lo sozinho, no páteo do colégio, com o seu livrinho em mãos. Sua transformação foi evidente. Logo descobriu uma igreja onde se pregava o Novo Testamento e foi conhecê-la. Havia classe de adolescentes e ele identificou-se com eles. Sua mãe, surpresa, viu no menino um novo filho, um menino diferente do que o seu destino prometia. Pedrinho foi batizado e tornou-se um crente em Jesus Cristo. Logo conduziu mamãe ao Senhor e passou a partilhar com os colegas a mensagem de Cristo.
 
Quando tinha dezesseis anos, pediu à mãe para visitar o estuprador que lhe gerara. A mãe, perplexa, ficou muito entristecida. Mas tamanha foi a insistência, que lhe indicou a cadeia e o nome do bandido. Pedrinho foi até lá, acompanhado de uma tia. À porta da penitenciária recebeu a notícia: "Pedrinho, o bandido não quer recebê-lo; disse que você não é gente, mas um erro e avisou-o para nunca mais procurá-lo, senão ele mandará matá-lo". Imaginem a tristeza deste menino junto à tia. Até o carcereiro comoveu-se. Este, imaginativo, disse: "Escreva uma carta e eu lerei para o João Diabo". O garoto mais que depressa conseguiu lápis e papel e escreveu o seguinte:
 
"João Diabo, aqui é o Pedrinho, fruto de sua violência a uma mulher decente. Como filho de seus lombos eu deveria seguir a mesma sina, andar nos mesmos passos de papai. Contudo eu descobri que quem faz o destino somos nós mesmos e que não tenho o menor interesse em seguir pelo caminho que o senhor seguiu. Pai, sou de Cristo e quero que saiba que ainda há uma chance para o senhor: Deus mandou Jesus para ser punido em seu lugar. Receba-o em seu coração e seja um novo homem. Não seja mais João Diabo, mas João de Cristo. E se um dia precisar de mim e quiser me ver, estarei aqui para lhe acolher. Com respeito, seu filho Pedrinho".
 
Pedrinho soube que seu pai nem quis ouvir a carta. Mas o carcereiro guardou-a. Dois anos depois, quando João Diabo morreu numa rebelião, a carta foi colocada em seu caixão, seguindo com ele para a campa fria. Pena que não seguiu em seu coração.    
 
Com Pedrinho cumpriu-se o que a Bíblia diz:
 
A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniqüidade do pai, nem o pai levará a iniqüidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele. (Ez 18:20)
 
Pedrinho fez o seu próprio destino. Decidiu que não seria réplica do próprio pai. Ele não estava fadado a cumprir uma sina, a seguir o chamado do sangue. Pedrinho tornou-se um homem de bem. Passou a ser conhecido como Pedro de Cristo, em antagonia com o estuprador que lhe gerara, João Diabo. Pedro tornou-se um homem feliz e realizado, cheio das dádivas de Deus.
 
E lá no Céu, onde Jesus está, quando ouviu Pedrinho dizer: "Eu te escolhi, Senhor Jesus", foi como se ecoasse novamente uma frase que o Senhor já dissera quando por aqui peregrinara em Sua vida messiânica:
 
Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda. (Jo 15:16)
 
Que dádiva incomparável a do Senhor, que nos dá a bênção de não sermos escravos do fatalismo e do destino! Podemos fazer diferente, podemos seguir caminhos melhores do que os de nossos pais! Porém, ainda que livres neste sentido, foi a graça de Deus que operou eficazmente na vida do rapaz, que não foi morto através de um aborto, que não perdeu a vida nas brigas da escola e que não seguiu ao chamado do sangue, que lhe inclinava para a vingança.
 
E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. (Rm 8:28)
 
Se o leitor é daqueles que acham que não há mais jeito para si, lembre: você faz o seu destino. E se escolher seguir a Cristo, saiba: Ele já o escolheu primeiro. Glorifique-o com amor e viva com fervor essa vida maravilhosa! Não mais João Diabo, mas Pedro de Cristo!
 
Wagner Antonio de Araújo

05/10/2017

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