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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

memórias literárias - 402 - POR QUE REPARAS?

POR QUE
REPARAS?

402
E por que atentas tu no argueiro que está no olho de teu irmão, e não reparas na trave que está no teu próprio olho? (Lc 6:41)
 
Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? (Rm 9:20)
 
"Olha como ele é gordo! Que falta de disciplina!" Mal sabia o ofensor que um distúrbio provocava essa disfunção. Mas para uma língua ferina a gordura alheia lhe fora um prato cheio! "Credo, que magreza! Será que não tem comida em casa?" O cidadão estava com um uma úlcera aberta e sofria os efeitos da quimioterapia. Agora padecia as agruras da língua ferina...
 
O festival de dedos em riste é geral:
 
"Que nariz pontudo!"; "Olha só as orelhas de abano, que ridículas!"; "Nossa, tão magra que mais parece um palito!"; "Será que ela não tem um creminho para aquelas olheiras gigantescas? Que coisa horrível!"; "Como ela aguenta um sujeito assim, tão suado e ofegante?"; "Veja que pernas longas! Será que não tropeça nelas?".
 
A língua humana é um poço de iniquidades. E não falo da língua em geral; falo da língua dos que se dizem cristãos! Tiago, o meio-irmão de Jesus, inspirado pelo Espírito Santo, já mencionava o fato: Mas nenhum homem pode domar a língua. É um mal que não se pode refrear; está cheia de peçonha mortal. (Tg 3:8); Com ela bendizemos a Deus e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. (Tg 3:9)
 
No domingo abrimos a boca em louvores ao Criador. Ostentamos grande espiritualidade, confessando a fé e declarando amor pelos irmãos e pela humanidade em geral. Nos outros dias e no privado usamos a língua para criticar o formato das pessoas, sua cor, suas imperfeições físicas, suas roupas, sua aparência. Geralmente fazemo-nos de referencial de perfeição, ou usamos alguém que consideramos belo, e, em seguida, rebaixamos a todos que estão próximos de nós: "alto demais"; "baixo demais"; "que cabelos feios"; "que pele maltratada"; "como é gordo!"; "como é magro!"; "como é preto"; "como é pálido". Como é fácil insultar!
 
Lembro-me de uns moleques de rua, atrevidos e sem respeito pelo próximo ou pelos mais velhos. Ao verem Eliseu, o profeta careca, gritaram: "Sobe, careca, sobe careca!". O profeta, cheio do Espírito Santo, cônscio do respeito que um jovem deveria ter pelos mais velhos e, além disto, do respeito que deveriam ter por um homem de Deus, tomou as medidas cabíveis: E, virando-se ele para trás, os viu, e os amaldiçoou no nome do SENHOR; então duas ursas saíram do bosque, e despedaçaram quarenta e dois daqueles meninos. (2Rs 2:24)
 
Não temos essa liberdade, até porque o Senhor Jesus decretou que deveríamos sofrer as injúrias e os escárnios, como Ele mesmo sofreu. Dois apóstolos queriam fazer chover fogo do céu, como Elias, nos samaritanos que fecharam as portas da aldeia para eles. E os seus discípulos, Tiago e João, vendo isto, disseram: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez? Voltando-se, porém, repreendeu-os, e disse: Vós não sabeis de que espírito sois. (Lc 9:54-55). Em Cristo somos os que suportam as afrontas e oram pelos inimigos. Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra; e ao que te houver tirado a capa, nem a túnica recuses; (Lc 6:29). Porém, se o que fere ou o que tira a capa é outro discípulo, então, como diziam os antigos, "a vaca foi pro brejo!" É inconcebível um cristão agir assim!
 
Mas agem! Na igreja, em roda de fofoqueiras ou de molecagens. No campo de futebol, na roda dos amigos. No whatsapp, em grupos afins. Nos telefonemas e nos carros enquanto viajam. No almoço de domingo. Ao invés de usar a língua para bendizer, para edificar, para construir, usam a boca para denegrir, para criticar, para sapatear sobre a cabeça do próximo. Lembro-me de um cidadão cristão que gostava de chamar-me de gordo. Encontrei-o cinco anos depois, com o dobro do peso que eu tinha. Até pensei em revidar, mas lembrei-me de que este não era o meu papel e pedi perdão ao Senhor por antecipação. Mas ficou claro que "Enganosa é a beleza e vã a formosura"(Pv 31:30). Os "saradões" de hoje contarão com o efeito da idade e do desgaste amanhã. E aquilo que criticam hoje terão por companheiros amanhã.
 
Não devemos usar a língua para criticar a aparência dos outros. E aqui deve ficar claro que não colocamos "aparência" como "libertinagem para aparentarmos o que quisermos". Roupas escandalosas são pecaminosas, bem como tatuagens e piercings. O cristão que é focado na vaidade e na sensualidade deve converter-se e não causar escândalo à igreja de Deus, pois está insultando os costumes de sobriedade e de limpeza que Deus espera de seu povo. "Não fareis marca alguma sobre vós" (Lv 19.28). "O enfeite não seja o exterior" (I Pe 3.3). O crente não precisa de enfeites, de maquiagens pesadas, de adereços complementares e de aparência carregada para demonstrar beleza; a sua beleza vem de uma alma bonita, bondosa e generosa, cheia do Espírito Santo. Quem provoca o Senhor dizendo-se livre para riscar a pele e inserir ferros em toda a parte para adereço e vaidade, agride o Templo do Espírito Santo, que é o corpo e causa escândalo aos cristãos que obedecem a Bíblia: Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? (1Co 3:16); Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus. (1Co 10:32).
 
Porém, se a questão não se refere a pecado, mas a aparência natural, física, étnica, racial, de formato, anatômica ou meramente de agrado ou desagrado aos olhos alheios, será bom converter a língua e lavá-la com a graça do Senhor, pois as palavras que dizemos virão a juízo diante do Grande Trono Branco ou no Tribunal de Cristo: Porque por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condenado. (Mt 12:37); Mas eu vos digo que de toda a palavra ociosa que os homens disserem hão de dar conta no dia do juízo. (Mt 12:36)
 
Avalie-se. Pense no que tem dito sobre o próximo. Repare em si próprio. Deixe de ver os defeitos dos outros. Avalie os seus e conserte-se. Não é gordo? Bendiga a Deus pela bênção de um organismo equilibrado. Não tem nariz pontudo e nem olhar fundo? Não se vanglorie, porque um dia o seu corpo virará pó, tão fino e tão disperso quanto o corpo do outro. Lembre-se: enquanto não morrermos e não ressuscitarmos, todos os corpos serão corruptíveis, bonitos ou feios, e só seremos realmente completos quando o Senhor nos restaurar pela ressurreição! Não se orgulhe; apenas tema e agradeça!
 
Em tempo: Se Cristo fosse julgado pela aparência quando aqui viveu no seu ministério, seria ignorado ou criticado, pois, segundo o profeta Isaías, era assim que o enxergavam: Porque foi subindo como renovo perante ele, e como raiz de uma terra seca; não tinha beleza nem formosura e, olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos. (Is 53:2)
 
Wagner Antonio de Araújo

07/02/2017

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