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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

memórias literárias - 409 - PASTOR, RESISTA ÀS TENTAÇÕES!


PASTOR,
RESISTA ÀS
TENTAÇÕES!
 
Quando seminarista pela primeira vez, fui apresentado à Bíblia não como livro de Deus, mas como ferramenta para os meus estudos. Assim como uma rã no laboratório, dissecamos as Escrituras Sagradas, estudando por todos os ângulos os estilos de cada livro, a autoria, as discussões infindas sobre a autoria dos sessenta e seis livros etc. Discutíamos cultura, costumes, alta crítica, crítica textual, línguas originais, textos alternativos, descobertas arqueológicas, tudo sobre os textos. Aos poucos o meu olhar para a Bíblia passou a ser um olhar crítico, lembrando-me de discussões diversas e questões insolúveis sobre este ou aquele tema, sobre textos que não aparecem aqui ou acolá, sobre livros que demoraram quatro séculos para serem considerados canônicos etc. Em um ano eu sofri uma crise de fé, desconsiderando a inspiração e considerando uma obra de homens. Todo seminarista passa por este terrível dilema e questionamento (desde que estude numa instituição que, de fato, o ensine a estudar a teologia a fundo). Muitos dos meus colegas sucumbiram no meio do curso. Outros transformaram-se em críticos de suas igrejas e pastores. Outros deixaram a denominação original, passando para outras mais compatíveis com suas críticas. E um outro grupo apostatou da fé. Jamais me esquecerei do quanto o Pr. Timofei Diacov, o irmão Sebastião Emerich, o Pr. Israel Teixeira de Freitas e o Pr. Idelino Lopes de Oliveira foram importantes em minha vida, quando, entristecido, os procurava para falar sobre os meus dilemas.
 
Fui consagrado ao ministério. Antes disto já cuidava de uma igreja, a Igreja Batista de Vila Souza, em São Paulo. Uma coisa era pregar aos fins de semana nas igrejas que me convidavam. Outra (e bem diferente) era encarar um púlpito todo domingo por duas vezes, e semanalmente duas ou três vezes. Mensagens não poderiam ser reprisadas com frequência, temas precisariam ser considerados e a inspiração humana (esse despertamento para pregar) deveria estar aguçado o tempo todo. Por algum tempo até que a lavoura produzia razoavelmente. Mas, por muitas vezes experimentei aridez e desertos homiléticos, sem uma única idéia e mensagem para pregar. Mas o púlpito estava lá e nem sempre um substituto estaria disponível. Quanta dependência da graça temos que ter!
 
Identifiquei muitas tentações no ministério. Quero listar algumas, admoestando os meus colegas a que não caiam nelas, firmando sua fé original no Senhor que nos remiu.
 
1) A TENTAÇÃO DE NÃO LER A BÍBLIA - Pastores são tentados a usar a bíblia apenas como ferramenta de trabalho na preparação de sermões e estudos. Colegas, fujam disto! Eu creio que, se uma pesquisa fosse feita, pastores seriam os que menos lêem a bíblia de forma eficaz e contínua. Não façamos assim! Façamos leitura sequencial, façamos leitura devocional, olhemos e miremos a Bíblia como PALAVRA DE DEUS, não como livro de polêmicas! Somente com a volta do olhar simples do crente legítimo é que Deus falará aos nossos corações!
 
2) A TENTAÇÃO DE NÃO ORAR - Pastores são os mais tentados a não orar! Fazem-no publicamente, e, não raras vezes, lindas orações. Mas só! Acabam muitas vezes por mutilar as suas horas tranquilas na presença do Senhor com outros pensamentos que não satisfazem. Substituem a oração por leituras, por vídeos, por esportes, por meras meditações ou, diversas vezes, por alguma oração com membros da família. E ficam por aí. Colegas, sem a oração consagrada, de portas fechadas, de joelhos ou em contrição não haverá comunhão! Não adianta pregar bem, falar bem, administrar bem e não ser conhecido dos Céus através da oração! Um pastor muito conhecido no meio batista disse assim para mim: "Não sou de orar muito; oro apenas o indispensável. Não tenho tempo para isso". Ah, pobre colega! Ele pode ser discípulo de qualquer um, mas certamente não do Senhor Jesus, que gastava noites em oração! Colegas, orem! Orem até quando não sentirem vontade!
 
3) A TENTAÇÃO DE NÃO LEVAR A SÉRIO AS PRÓPRIAS MENSAGENS - Pastores gostam de colocar pesados fardos nas costas da igreja e nem com um dedo querem carregá-los. Pastores modernistas não gostam de cumprir os conselhos bíblicos e já nem os pregam. Substituiram o ensino bíblico pela crítica a quem prega a Bíblia. E, ao invés de serem cumpridores da palavra, são polêmicos, fazendo o que não devem, publicando questionamentos nas mídias sociais e escandalizando os cristãos sinceros. Pastores, cumpram os ensinos bíblicos! A bíblia ensina a não dever ao próximo? Então não devam! Não se deve mentir? Então não mintam! Devemos ter paz? Então não briguem! Precisamos ser fiéis ao cònjuge? Então não traiam! Ai dos pastores que escandalizam o evangelho, não praticando o que deveriam ensinar! Que Deus ajude os pastores a serem fiéis cumpridores da Palavra, não apenas pregadores da mesma. Que sejam exemplo dos fiéis!
 
4) A TENTAÇÃO DE NÃO ATACAR O PECADO - O irmão fulano é bom dizimista; assim, vou evitar falar de adultério, pois ele o pratica. O irmão siclano fuma e bebe, então evito falar sobre o poder do álcool na intoxicação da mente e o estrago do fumo. Não falarei nada sobre baladas, porque os filhos dos diretores da igreja são baladeiros e não quero criar caso com a diretoria. Pastores, quem amar mais a glória dos homens não receberá a glória de Deus! Preguem a Palavra, doa a quem doer! É o adultério pecado? Então pregue isso! A bebida embebeda? Então admoeste! O fumo prejudica a saúde? Então critique-o! Não venda o seu púlpito a quem dizima bastante ou a quem lhe traz benefícios! Não se renda ao poder do mundo e ao poder dos políticos do Reino. Pastores foram chamados para usar vara e cajado, não para entrar com as ovelhas em pastos perdidos no mato!
 
5) A TENTAÇÃO DA AMBIÇÃO DO CRESCIMENTO - Surgiu um novo sistema de crescimento nos Estados Unidos e aquele pastor está com dez mil membros. Ah, vou demolir a estrutura desta igreja e aderir ao sistema. Depois de um ano ele conseguiu destruir todos os departamentos e dispersar metade ou mais do rebanho do Senhor. Desiludido, abandona a igreja e deixa o caos. E ainda sai a xingar a igreja antiga. Isso é criancice, molecagem ministerial. Não fomos chamados para nos tornarmos célebres ou para transformar a igreja num ninho de coelhos. Fomos chamados para cuidar do rebanho do Senhor, cujo crescimento vem de Deus e cujos cuidados devem ser dados com temor, tremor e com responsabilidade. Para Deus os motivos contam muito! Querer crescer a igreja para ficar famoso, para se tornar requisitado, para aparecer nas manchetes e redes sociais, para ter frases publicadas na mídia é um tentáculo da síndrome de Lúcifer. No ministério importa que Cristo seja glorificado e que nós sejamos apenas servos. Pastoreia uma igreja pequena? Seja fiel. Pastoreia uma grande? Seja fiel. A igreja não é sua. Ela é de Cristo. E Cristo não ama as grandes em detrimento das pequenas. Cristo ama as igrejas fiéis, tenham o tamanho que tiverem. Pregue no seu púlpito como se estivesse numa multidão, mesmo estando com cinco pessoas. E pregue no seu púlpito diante da multidão  como se falasse para cinco pessoas. Amor, responsabilidade, prudência, temor e regozijo espiritual: ingredientes certos para não cair na tentação do crescimento a qualquer custo e na glória do homem em detrimento da de Deus.
 
Espero que estes conselhos ajudem os meus colegas. São tentações que eu, como pastor há 25 anos ( e 30, a contar da prática) experimento todos os dias. Quero devolver o ministério nas mãos do Senhor quando Ele me recolher, ou levando a minha alma ou arrebatando-me. E quero ser achado fiel, independentemente de ter conseguido realizar este ou aquele sonho pessoal.
 
E quando eu for esquecido (e sempre somos!), que o Senhor Jesus, a quem eu preguei e para quem vivi, continue lembrado. Que eu passe à nova geração a tocha da integridade de um ministério pastoral temente a Deus.
 
 
Wagner Antonio de Araújo

21/02/2017

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