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quinta-feira, 14 de março de 2013

memórias literárias - 47 - O QUE SE ESPERA DE UMA CONVENÇÃO?


47 - O QUE SE ESPERA DE UMA CONVENÇÃO?


Quero convidá-los a uma reflexão sobre a relevância e o papel de uma convenção batista.

Sei que estou na contramão do sucesso, pois atualmente a “gestão” impõe “políticas empresariais de resultado” (está em moda usar-se linguagem empresarial e não mais a ministerial).

Batistas não têm bispos, apóstolos, sacerdotes ou quaisquer outras funções episcopais. Não há supremos concílios, sínodos nem presbitérios. O governo batista é democrático, direto e congregacional.

Cada igreja batista é independente, autônoma e soberana. As igrejas tomam suas decisões sem que haja interferência de quaisquer organizações externas. Elas administram a si próprias.

Conquanto independentes, os batistas são COOPERADORES entre si. E, para realizar esse propósito, constituem associações de igrejas, convenções, organizações missionárias, escolas e orfanatos para executar toda espécie de ações positivas que redundem no implemento do Reino de Deus, cumprindo o “Ide” e vivenciando o amor por Deus e pelo próximo.

Em São Paulo, por exemplo, os batistas se reúnem como convenção cooperativa sob o nome “Convenção Batista do Estado de São Paulo” – CBESP. Essa organização tem servido de instrumento na consolidação e expansão do trabalho de Deus.

Através das convenções ajudamos igrejas pequenas, congregamos pastores, enviamos missionários, adquirimos pequenos terrenos para igrejas carentes, mantemos escolas para que os nossos filhos e os filhos dos outros tenham boa educação etc. A estrutura não é de dominação, ou seja, uma diretoria que manda nas igrejas; pelo contrário, o poder emana das igrejas, as quais se reúnem anualmente e elegem sua diretoria, responsabilizando-a por cumprir o programa, os objetivos e os alvos propostos por todas as igrejas.

Sendo impossível reunir todos os batistas num só lugar, cada igreja elege seus representantes e os envia para o local onde são realizadas as assembléias. Ali se deliberam as decisões administrativas e, junto com isso, promove-se a comunhão denominacional, a oportunidade de novos desafios, o intercâmbio musical, artístico, pastoral e pedagógico, a consagração espiritual e o desenvolvimento de estudos e temas relevantes para igrejas e crentes, tudo visando um fim único: o progresso da Obra de Deus na denominação que compomos.

As convenções sustentam-se com ofertas das igrejas locais. Cada igreja compromete-se com o envio de uma verba para a denominação, que a administrará, observando o que as igrejas determinaram em assembleia.

Entretanto, atualmente, algumas convenções, no afã de se modernizar, têm adotado “formatos empresariais”, baseando suas políticas em “resultados”, “nichos” e “eficiência”. Assim, visando produzir assembléias anuais mais “competitivas”, “mais e melhor freqüentadas”, “interessantes e edificantes”, vêm tomando decisões incompatíveis com a identidade batista.

Neste ano (2009) algumas convenções realizaram suas assembléias anuais num período estendido, desenvolvendo atividades artísticas, comerciais e empresariais durante toda uma semana, chamando o evento de SEMANA BATISTA. Contudo, tais mudanças não trouxeram benefícios.
E o que mudou?

1) MUDOU A MÚSICA - Os batistas sempre foram conhecidos pelos ótimos solistas que têm, pelos corais de categoria internacional, por algumas orquestras de igrejas locais, por ministros de música qualificados e, acima de tudo, por um povo que cantava e louvava muito, muito bem. Mas agora isso tem mudado. Nós, os batistas, parece que não somos mais qualificados para dirigir nossos próprios momentos de louvor. Precisamos de “cantores profissionais”, “grupos que vendam bem”, “gente da mídia”, “nomes que atraiam”, que façam frente ao “competitivo mercado gospel nacional”. Que infelicidade! Nós, que ensinávamos nossos jovens a serem criteriosos na escolha de seus cantores e grupos, que buscassem CULTOS E LOUVORES ao invés de SHOWS E EGOS AVANTAJADOS, agora temos para nos DIRIGIR, ENSINAR E CONDUZIR, no chamado LOUVOR, pessoas que fazem exatamente o contrário disso! Não podemos mais ensinar em nossas igrejas a cantar apenas o que edifica e tem boa teologia, mas sim o “politicamente correto” e o “atualizado”. Depois dos shows que assistimos, com raras exceções, não poderemos mais dizer aos nossos jovens: “SEJAM CRITERIOSOS NA ESCOLHA DE SUAS MÚSICAS; CANTEM HINOS TEOLOGICAMENTE CORRETOS”. Algumas convenções buscaram o que havia de mais comercial, espalhafatoso e ecumênico no chamado “MERCADO GOSPEL”. Esse tipo de música não tem como objetivo o louvar a Deus, intercambiar ou edificar igrejas; o propósito é “AGRADAR A TODOS OS ESTILOS”. Outrora, cantar nas convenções era honroso; não se cobravam cachês para louvar com canções; pelo contrário, de boa vontade os músicos CONTRIBUIAM com suas participações. Agora não é mais assim; tudo deve ser PAGO, tudo deve ser COBRADO. Estranha forma de conduzir os batistas ao culto cristão. Corais, orquestras, simples equipes de louvor, cameratas, quartetos, conjuntos, tudo isso não se enquadra neste modelo de gestão empresarial.

2) MUDOU-SE O ENSINO E OS ENSINADORES - Nas assembléias convencionais, tínhamos a oportunidade de ouvir os grandes pregadores das igrejas mais renomadas, os grandes evangelistas, os professores dos seminários, os pregadores convidados de outros estados e países, sempre a desenvolver o tema principal, conduzindo o povo à reflexão, à dedicação ao Senhor, à formação de um ideal geral. Afinal, tratava-se de uma CONVENÇÃO DE IGREJAS, não de um “WORKSHOP MULTITEMÁTICO”.

Isso mudou. Não precisamos mais de nossos professores, pastores, evangelistas, missionários e visitantes. Agora temos PROFISSIONAIS ESPECIALISTAS nas diversas áreas do EMPRESARIADO E DA MÍDIA. Já não há critérios espirituais, doutrinários ou morais. Quaisquer especialistas servem, sejam eles membros de seitas, católicos, neopentecostais ou ateus; tenham eles apreço ou não pelo povo batista; basta que sejam pessoas conhecidas, qualificadas secularmente e que atraiam público.. Suas posições quanto às guerras não importam; seus comprometimentos com organizações não-cristãs não têm valor. Não precisam mais dos nossos mestres, professores ou formadores de opinião. A nossa opinião deve ser formada por gente de fora. “Temos que ter a mente aberta”.

3) MUDOU-SE O ESPÍRITO ECLESIÁSTICO PELO ESPÍRITO COMERCIAL - Se as assembléias das convenções serviam para o compartilhamento de experiências com Deus, alvos e propósitos departamentais, desafios missionários, discussão de temas doutrinários e relevantes para a boa educação cristã, agora isso não tem mais qualquer valor, desde que possa obter GRANDE PARTICIPAÇÃO DE PÚBLICO PELOS PRODUTOS OFERECIDOS. As convenções estão se transformando numa FEIRA GOSPEL, num SALÃO DE EXPOSIÇÕES. Ai de nós, velhos e conservadores batistas tradicionais! Estamos ultrapassados e não há espaço para nós. “Ou se renovam ou serão derrubados pelo mercado”. Será que não podemos mais ter personalidade própria? Temos que ficar quietinhos, ensinar nossas igrejas a serem frouxas e hipócritas, adotando costumes, jargões e atos litúrgicos estranhos aos batistas?

Temos que ser vencedores custe o que custar, vendendo o patrimônio doutrinário e eclesiástico? O que é errado sob o ponto de vista bíblico deve ser adotado porque é correto comercialmente? Estamos caminhando por uma senda perigosa. Convenção é COOPERAÇÃO. A questão será: cooperar com o que?.

VOLTEMOS ÀS ORIGENS COOPERATIVAS E SOLIDÁRIAS! Assembléias anuais não precisam ser semanas batistas; basta que realizem as reuniões administrativas necessárias, que se dê oportunidade para que todas as igrejas e obreiros tenham sua participação; que promovam a edificação espiritual e o congraçamento do povo. Que os cantores cantem DE GRAÇA, que cantem LOUVORES, que as nossas orquestras, corais, quartetos e igrejas tenham voz e vez; que os nossos pastores, professores, missionários, evangelistas e visitantes preguem e lecionem nas assembléias convencionais com amor à obra e obediência ao Senhor da Seara. Chega de comércio! Chega de consumismo! Chega de transformar os nossos auditórios em casas de espetáculos, as nossas audiências em salões de baile gospel, as nossas palestras em meros encontros de auto-ajuda. Que ouçamos servos e não palestrantes incrédulos; que cantemos com servos e não com artistas que cobram cachê. E em lugar de satisfazer aos diversos gostos e faixas etárias, satisfaçamos a Deus na obediência da Sua Palavra.

Espero ter contribuído para uma reflexão honesta sobre o papel das convenções e da cooperação do povo de Deus chamado “batista”.


Pastor Wagner Antonio de Araújo
pastor batista – sócio 1036 OPBB/ 1402 OPBBSSP
Igreja Batista Boas Novas de Osasco SP
www.uniaonet.com/bnovas.htm
bnovas@uol.com.br
Wagner Antonio de Araújo
(artigo publicado na presente edição da REVISTA ECLÉSIA)

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