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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

memórias literárias - 101 - MARCHA PARA JESUS


101 - MARCHA PARA JESUS
29/06/2013


Multidões seguem perfiladas em São Paulo, convocadas pela Igreja Apostólica Renascer em Cristo, arrebanhando gente que se identifica como "evangélica", "apostólica", "pentecostal", "cristã". No palanque os grandes ícones midiáticos desse nicho: Os Hernandes, os Valadão, os Rebustini, os Malafaia etc. Nas cabeças as fitas identificadoras, nas mãos as flâmulas, bandeiras e materiais de campanha. Nos trios elétricos o som ensurdecedor das palavras de ordem e as músicas contemporâneas das bandas que mais vendem ou das que buscam ser o próximo sucesso do mundo gospel. Nos entrevistados das salas institucionais, palavras de enaltecimento ao Apóstolo, à família dele e aos seus decretos dos anos especiais: Joel, Mateus, Pedro etc. Também os patrocinadores que despenderam fortunas e agora desejam ver os seus produtos divulgados. No meio do povo bandeiras de igrejas locais bem evidentes: presbiterianas, batistas, O Brasil Para Cristo, Assembléia de Deus, Metodista etc. Um grande desfile de religiosos alegres e festivos. Acreditam estar marchando para Jesus Cristo.

Será?

Será que Deus esperava do Seu povo esse tipo de marcha? Será que isso se parece com a marcha do povo de Israel pelo deserto abrasador, rumo à Terra Prometida? Será que isso se parece com o povo que clamava aos gritos, dizendo "bendito o que vem em nome do Senhor" na entrada de Jesus em Jerusalém? Será que isso é uma manifestação que agrada ao Senhor? Será que isso move a fé, gera comportamentos transformados, salva as pessoas? Será que aqueles que estão no palanque são realmente pastores chamados, vocacionados e entregues ao sagrado ofício de pregar a Palavra de Deus e conduzir o povo cristão nos caminhos do Senhor?

Conquanto respeite quem ali está (assim como quero ser respeitado em minhas manifestações diversas, sejam doutrinárias, políticas ou literárias) quero veemente discordar dessa manifestação como expressão de um cristianismo bíblico, autêntico e verdadeiramente iluminado por Deus. Quero afirmar com responsabilidade que duvido da presença de Deus como iluminador daquela manifestação de rua, um grande negócio de família e uma grande passarela de políticos existentes e em formação.

Por que não aceito essa marcha como MARCHA PARA JESUS?

1) Porque não é para Jesus, é para a IGREJA APOSTÓLICA RENASCER EM CRISTO. Está mais do que evidente que isso serve aos interesses dessa denominação neopentecostal, neoapostólica e absolutamente capitalista. As faixas, o nome, as siglas, os gritos, as bandeiras, a liderança, os índices, as estatísticas, tudo gira em torno de transformar essa denominação na maior detentora de passeata de massas cristãs do mundo. Quem levanta bandeiras de outras igrejas apenas ajuda a apologia da denominação em dizer: "todos pelo Apóstolo e pela Bispa!" Que tristeza! "O boi conhece o seu possuidor, e o jumento a manjedoura do seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende." (Is 1:3). Falta aos participantes o discernimento de que a marcha não é para Jesus mas para um empreendimento particular. A "Bispa Fê" afirmou na sala de entrevistas: "essa marcha é um patrimônio do Apóstolo para mim e para os nossos filhos, é a riqueza que não acabará". Palavras dela em entrevista, não minhas. No canal gospel, produto da igreja-empresa.

2) Porque Jesus nunca ensinou o seu povo a marchar em passeatas. Esse tipo de manifestação faz parte da idolatrada democracia ocidental, que quer imperar como Deus e que quer expressar-se em protestos de todas as formas e maneiras. Basta um aglomerado com bandeiras e temos ali um protesto. Jesus nunca pediu a ninguém para fazer protestos ou marchar para Ele. As passeatas e protestos que os cristãos deveriam fazer ou ocupar não aparecem nas praças e na mídia, mas na mudança de comportamento de vidas transformadas pelo poder de Deus. Quando eu precisar usar uma camiseta dizendo: SOU CRISTÃO, é porque talvez o meu argumento de vida esteja falhando (posso usar como adorno ou material evangelístico, nunca para substituir o meu testemunho). Quem é cristão não precisa se exibir, vestir-se de árvore de Natal ou de lona de circo para mostrar a sua fé. Um cristão se mostra pela prática no dia a dia e não por aglomerados barulhentos e volumosos a tomar as ruas. Uma coisa é manifestação política; outra coisa é a manifestação da fé. E esta não se produz em caminhadas na praça, mas na caminhada de um viver com Cristo, dia após dia, ano após ano.

3) Porque é ecumênica, aceita qualquer ensinamento, qualquer espécie de fé. Quem está nas plataformas? Gente que vive e crê na Palavra de Deus, que possui a legitimidade de uma vida cristã bíblica e coopera em uma igreja local digna? Não. São os mercadejadores da fé. São os que aparecem no rádio a dizer: "seja um contribuinte e Deus vai derramar prosperidade sobre você". São pessoas que utilizam-se de manifestações ridículas de línguas estranhas (que de estranhas não têm nada, apenas um mísero vocabulário de palavras que impressionam nos microfones e nos auditórios) para deter o povo em suas garras mentirosas. Um desses profetizou que os que comprassem sua bíblia (bíblia virou produto, deixou de ser Palavra de Deus) por 900 reais, receberia bênçãos sem medida. Outro solicitou o "trízimo". Outra profetizou que os que fizessem carnês pelo seu projeto receberiam 100 vezes o dinheiro investido. E estão todos juntos no palanque. Sob a ótica ignorante, Deus está atuando em suas vidas; portanto, são pessoas de Deus. Não importa se roubam e expoliam as massas. Não importa que criem impérios faraônicos de imensas terras, iates, resorts, emissoras de rádio e tv, casas e mansões de altíssimo luxo, tudo às custas de seus supostos "dons espirituais". Não importa nem que cumpriram pena por sair com dinheiro ilícito do país.  Um fala na TV contra o Apóstolo, mas ali está à favor. Outro prega contra as práticas do outro, mas posa como amigo e companheiro. Depois voltam para as suas igrejas gabando-se da posição que ocuparam diante da mídia. Que vergonha! "Comeis a gordura, e vos vestis da lã; matais o cevado; mas não apascentais as ovelhas." (Ez 34:3)

4) Porque é capitalista, um foco de vendas, de arrecadação de fundos, de criação de redutos eleitorais e eleitoreiros. Revisemos as passeatas nos outros anos. Perguntemos: existiu divulgação política? Existiu manipulação de massas com apresentação de nomes que logo foram apresentados como candidatos? É óbvio que sim! Essa marcha é um grande palanque onde políticos e futuros políticos assumem compromissos com os organizadores, buscando subsídios, financiamento, currais de votos e, em vencendo, propondo a continuidade do sistema, a manutenção de tudo como está para evitar o fim do filão. E a venda? Ah, essa é descarada: produtos, empresas, empresários, artigos, sistemas de comunicação, moda com a qual as bandas e os organizadores se vestem, bugigangas de artesanato, lembrancinhas, comida etc. O evangelho deixou de ser mudança de vida para tornar-se um grande e lucrativo negócio. Que tristeza. "Porque nós não somos, como muitos, mercadejadores da palavra de Deus, antes falamos de Cristo com sinceridade, como de Deus na presença de Deus" (2Co 2:17)

5) Porque não faz distinção entre trevas e luz. Para os marchantes não existe pecado. O mundo capitalista do falso evangelho transformou o pecado em PRODUTO GOSPEL. Tatuagem e piercing, claramente contrários à prática cristã dos cuidados para com o corpo (templo do Espírito Santo) tornaram-se normais e "ungindos". Há os que se tatuam com frases denominacionais ou de apoio ao Apóstolo e à Bispa. E crêem estar sendo dirigidos pelo Espírito Santo! A imoralidade virou sex shop gospel. As baladas e os inferninhos da juventude tornaram-se "arroxa gospel". Igrejas há que vivem deslavadamente a imoraidade sexual e todos estão lá, em pura confraternização, disfarçados de seus pecados, com roupas iguais e "marchando para Jesus". Ouso dizer que quem vive como quer, da maneira que quer, ignorando a bíblia, o livro de Deus, está marchando, mas direto para o inferno. "Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas?" (2Co 6:14)

Os verdadeiros crentes em Jesus, seja de que denominação forem (e os verdadeiros não permanecem nessas igrejas falsas muito tempo, porque Deus os esclarece pelas Escrituras Sagradas) não estão nessa marcha. E se estão, haverão de se arrepender em breve, pois verão que o Senhor não ensinou esse tipo de coisa. Enquanto a marcha cresce,  o pecado aumenta no país. Não deveria ser o contrário? É porque esse tipo de cristianismo não é feito de material autêntico, mas plástico, descartável, como tudo o que se produz hoje. São flores plásticas sem perfume, sem beleza verdadeira. São perfeitas simetricamente, mas absolutamente mortas. Esse cristianismo midiático é um show, está em 3D e em blueray, mas absolutamente inerte, inexistente e morto. Não possui nenhuma qualificação de avivamento, reavivamento, de movimento de santidade ou de enchimento do Espírito Santo. É pura pirotecnia, fogos de artifício. BUM! e é só, não muda nada, ou só muda para pior. 

Os cristãos autênticos marcham todos os dias, todas as horas, em toda a parte e lugar. São aqueles que trabalham e labutam com esforço no ganho do pão e na mantença da família, e o fazem pelo Senhor e em amor dos seus. Os cristãos autênticos guardam o dia do Senhor e ofertam com liberalidade nas suas igrejas locais, buscando o bem da sua comunidade e a divulgação da verdadeira mensagem de Cristo. Os cristãos verdadeiros não têm tempo para marchar em blocos e massas, pois estão em suas igrejas, ensaiando para cantar, servindo refeições às comunidades carentes, fazendo retiros, encontros de casais, aprendendo música e discipulando os neoconversos. Os cristãos verdadeiros obedecem às orientações dos seus pastores locais e não se ligam a movimentos que contrariem a orientação da igreja (desde que fundamentada na Palavra de Deus). Os cristãos autênticos não participam de baladas com bandas aventureiras, verdadeiras estrelas cadentes do sucesso em nome da fé. Os cristãos verdadeiros são, em sua maioria, anônimos para o mundo, mas conhecidos pelo Céu. Os cristãos verdadeiros não se tatuam ou colocam piercings, não se unem ao inferninho gospel. Os cristãos autênticos são Corpo de Cristo e não massa de manobra.

Por tudo isso (e essa é a MINHA OPINIÃO, que exijo ser respeitada) não creio na suposta MARCHA PARA JESUS. Para mim não passa de MARCHA PELA GLÓRIA DO HOMEM E PELO ENRIQUECIMENTO DOS FALSOS APÓSTOLOS. Prefiro a minha insignificância de cristão anônimo sem palanque do que a glória do mundo, que é transitória, efêmera e maligna. A glória de nossa vida não está na Terra, mas está no Céu. Enquanto estou na trincheira, de arma na mão e em batalha contra o inimigo, não tenho tempo de fazer festinha. Aguardo a festa da Igreja Triunfante, no Céu. Essa será muito, muito melhor! E o Apóstolo será CRISTO, razão, motivo, começo, meio, fim, graça, glória, honra, sabedoria e eterna dignidade. Bendito seja o nome dEle! "Por isso, irmãos santos, participantes da vocação celestial, considerai a Jesus Cristo, apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão" (Hb 3:1)

Wagner Antonio de Araújo,
que não MARCHA PARA JESUS.
bnovas@uol.com.br

obs: não discutirei o que escrevi. Portanto, nem principiem debates. Respeito os contrários, mas exijo respeito ao que penso.

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