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sexta-feira, 5 de junho de 2015

memórias literárias - 194 - EU PEQUEI

Eu Pequei...
194
 
"Pequei. Orem por mim. Pastor José".
 
Imediatamente a igreja entrou em polvorosa. Esta mensagem foi transmitida no facebook, nos e-mails, no SMS dos celulares da membresia e no whatzap de muita gente.
 
Maria ligou para Joana:
 
"Querida, o que será que aconteceu? Que escândalo! Quem diria, hein? O Pr. José, tão santo!"
 
"Carlos", falou Pedro, "tudo bem? Você viu a última do reverendo? Ele pecou! Sem vergonha! E desfilava como um santarrão com a esposa no corredor da igreja, né? Agora quero ver! A justiça não falha!"
 
"E aí, Broder? Tudo naice? Meu, viu que o pastor pisou no tomate? Sério, meu! Não sei bem o que é, mas não perco o culto de domingo. Quero saber!"
 
"Irmão Justino?", dizia o diácono Anastácio, "precisamos deixar o Corpo Diaconal de sobreaviso, talvez tenhamos que assumir com muita tristeza a direção da igreja; não podemos manter um pastor em pecado".
 
E assim foi o sábado todo. Ninguém ousava ligar para a casa do pastor. Afinal, o que poderiam ouvir da parte dele? Teria sido um adultério? Como estaria a esposa? Ou será que roubara a igreja? Ele sempre reclamava de falta de recursos. Poderia ser alguma outra coisa pior, como homossexualismo, drogas, e ninguém queria dar cordas à conversa.
 
No sábado às 22 horas já havia 2 comunidades no facebook: "O PECADO DO PASTOR" e outra, "NÃO JULGUEM O PECADO ALHEIO", dos que queriam defender o direito do pastor pecar.
 
Chegou, enfim, o domingo. Igreja cheia, vozerio nos corredores. Famílias sussurravam umas às outras. Lá na frente o pastor sentado, em oração. Enfim, tomou a palavra.
 
"Amada igreja, creio que todos querem uma explicação sobre o meu torpedo e mensagem postada ontem para vocês. Dizia eu: PEQUEI. OREM POR MIM. E isto é fato.
 
E aqui quero dizer a todos: não tenho pecado sozinho, tenho cúmplices aqui em nossa igreja!".
 
"Ohhh...", foi um vozerio geral e a prosa irrompeu no meio da assembléia. Uns olhavam para os outros, perguntando-se: "será ela? será ele? foi adultério?"
 
O pastor a tudo olhava, perplexo, mas sabia bem onde queria chegar. Por fim, após o espanto, falou:
 
"Sim, eu pequei. Pequei gravemente contra o Senhor. E os meus cúmplices pecaram comigo.
 
Pequei quando deixei de falar de Jesus aos vizinhos de nossa igreja. Deus nos plantou neste bairro e nós só servimos para atrapalhar o estacionamento nas garagens ou perturbar a vizinhança com o ruído de nossas músicas e de nossas conversas. Pequei quando silenciei sobre a mensagem de salvação. E não pequei sozinho, porque todos aqui fazem parte deste Corpo de Cristo, desta igreja. Deixar de anunciar o evangelho é pecado. "Se eu disser ao ímpio: Ó ímpio, certamente morrerás; e tu não falares, para dissuadir ao ímpio do seu caminho, morrerá esse ímpio na sua iniqüidade, porém o seu sangue eu o requererei da tua mão." (Ez 33:8)
 
Pequei quando deixei de me apiedar dos sofredores deste bairro. Há tantos nos leitos em dor e doenças, há tantos enlutados e entristecidos; há tantos pais precisando de ajuda para suportar as tristezas com filhos perdidos em drogas e crimes, e eu nada fiz para ajudá-los, para estender a minha mão para eles. Quantas viúvas há que passam necessidades, desassistidas pelos filhos ou parentes e nós, com tanto pão à mesa, pouco fizemos para dirimir tal sofrimento? "A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo" (Tg 1:27)
 
Pequei quando deixei de orar pelos irmãos, pelas crianças, pelas famílias e pelos habitantes deste bairro. E não pequei sozinho, porque sei que os irmãos oram muito menos do que eu. Orei mais por mim, mais por minha família, mais por receber de Deus as dádivas que desejei, do que por vocês, meus irmãos em Cristo, que tanto precisam de minhas intercessões; orei pouco pelos vizinhos da igreja e nem sei o nome das pessoas que por aqui residem, nas ruas acima. "E quanto a mim, longe de mim que eu peque contra o SENHOR, deixando de orar por vós; antes vos ensinarei o caminho bom e direito." (1Sm 12:23)
 
Pequei quando imaginei coisas ruins a respeito de vocês, tanto quanto sei que vocês pecaram de ontem para hoje, imaginando mil coisas sobre a minha confissão de pecado pelo facebook, pelos e-mails, torpedos ou qualquer mídia. Muitos pensaram que eu havia adulterado, me desvirtuado moralmente, roubado, feito qualquer coisa que fosse digna de exclusão. Muitos já me crucificaram sem piedade ou dó. Porisso eu digo que vocês também pecaram, pois quando a nossa mente imagina o mal do nosso próximo ou o prejulga sem piedade isso se chama juízo temerário e pode impedir as nossas orações e nos levar à mais dramática condenação! "Não julgueis, para que não sejais julgados." (Mt 7:1);"E disse-lhes: Atendei ao que ides ouvir. Com a medida com que medirdes vos medirão a vós, e ser-vos-á ainda acrescentada a vós que ouvis." (Mc 4:24)
 
Mas não quero pecar mais. Eu quero agradar ao meu Senhor como crente, como pastor e como irmão em Cristo. E convido a cada um a fazer o mesmo aqui, diante de Deus, publicamente. "
 
Enquanto a esposa do pastor tocava o hino TAL QUAL ESTOU, o pastor ajoelhou-se lá na frente. Aos poucos, envergonhados, aproximaram-se os diáconos da igreja. Também os pais de família, os jovens, as senhoras. Por fim, toda a igreja estava ali, ajoelhada, e muitas orações emocionadas foram feitas ao Senhor com verdadeira devoção.
 
Aqueles irmãos, após o culto, postaram em seus facebooks e torpedos: "CONSERTEI-ME DIANTE DO SENHOR" e testemunharam tão grande acontecimento em suas vidas e na vida de sua igreja. Foi inesquecível.
 
Aliás, gostaria de confessar: "eu pequei".
 
Que tal confessar também?
 
Wagner Antonio de Araújo

04/09/2014

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