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segunda-feira, 8 de junho de 2015

memórias literárias - 198 - O QUE SE ESPERA DE UM PASTOR

 O QUE SE ESPERA
DE UM PASTOR
198
 
Creio que um pastor deve antes de tudo, ser um legítimo convertido a Cristo. Deve ter sido regenerado pelo Espírito Santo. Deve ser nova criatura e viver em novidade de vida. Deve ter uma profunda e legítima comunhão com Deus. Afinal, espera-se dele que mostre de forma prática aquilo que prega em seu púlpito.
 
O pastor deve ter o "fruto do Espírito" em sua vida, caráter, temperamento, obra e ministério (Gálatas 5.22-23). Assim, deve possuir:
 
AMOR - com o qual ama a Deus acima de todas as coisas, ao próximo como a si mesmo e, consequentemente, ao rebanho que o Senhor lhe confiou. Seus atos, palavras e pensamentos devem ser permeados pelo amor de Deus. Seu trato para com a família (esposa, filhos, parentes), amigos (colegas de serviço, de escola, vizinhos, conhecidos), membros da igreja, deve expressar uma alma amorosa, benfazeja, cheia de compaixão e piedade.
 
ALEGRIA - um pastor deve possuir alegria. Não um contentamento efêmero, fundamentado em coisas banais e sem relevância eterna. Sua alegria e contentamento deve brotar de uma alma remida, perdoada, salva e em constante comunhão com Deus. Deve possuir a alegria de descobrir a cada dia novas riquezas na Palavra de Deus. Deve ter o gozo e a felicidade de quem encontra no Senhor todo o suprimento de suas necessidades, consolo nas suas dores, respostas às suas indagações. Isso deve tornar o ministro de Deus alegre e jubilante. Tal alegria será expressa nas suas atividades ministeriais, como a pregação, a visitação, o aconselhamento, a confecção de textos, a participação em atividades eclesiásticas etc. Na família sua alegria será expressa pela maneira altruísta de encarar o ministério, a igreja, as lutas e o relacionamento conjugal. Alegria por ser grato ao Senhor, grato pelos filhos que tem, pela esposa com quem casou, pela sua casa, pelos talentos, pelo ministério, pelas oportunidades de servir. Não é uma alegria meramente intelectual ou simplesmente emotiva. É um estado de espírito de gozo e de bem estar, uma auto-realização íntima, expressa numa face descarregada e iluminada.
 
PAZ - essa deve ser a pepita de ouro de sua vida. A paz. E todo pastor sabe que, se depender da ausência de problemas ou de conflitos eclesiásticos e familiares jamais terá um instante de paz. Por isso não pode ser um estado pacífico fundamentado nas circunstâncias, mas na graça do Senhor em seu coração. É a paz no meio da guerra, da enfermidade, do conflito eclesiástico, das desavenças familiares. Uma paz acima de quaisquer situações pontuais ou temporárias. É uma estabilidade emocional profunda, que faz dele alguém comedido e controlado, que tira de sua reação os ímpetos da ira e do descontrole, que faz dele uma âncora, um baluarte, um ponto de equilíbrio e referência. A paz na vida do pastor deve expressar-se nos momentos de felicidade e também nos momentos de crise. E não deve ser fabricada por exercícios pessoais de meditação ou de mero relaxamento, mas recebida diretamente do Espírito de Deus pelo espírito de seu ser. É fruto de comunhão. É fruto de convicção no que ensina a Bíblia. É fruto de fé. Fé na direção divina de sua vida. Fé na esperança de dias melhores. Fé na sabedoria de Deus em permitir apenas coisas que irão edificar, moldar, julgar ou provar. Fé que há um Deus que conhece os nossos limites. Fé que em Cristo se pode enfrentar qualquer circunstância. Dessarte pode-se passar por crises na igreja, crises familiares, crises financeiras, e ainda assim manter dentro de si um espírito sossegado, tranquilo, confiante, leve, profundamente tranquilo. Essa paz também é a expressão de alguém que só usa seus lábios para edificar, que só age orientado pelas Escrituras, que não vive em pecado, que não esconde nada de ninguém, que não mantém casos ou negócios ilícitos e que cumpre com dignidade os seus compromissos morais, civis, religiosos, familiares e espirituais.
 
LONGANIMIDADE - Um pastor deve ser capaz de ter um ânimo redobrado, de aguentar firme, de não esmorecer nas crises e dificuldades. Ele deve animar-se no Senhor, motivar-se aos pés da Cruz, viver a cada dia animado com a graça de Deus. Seu pavio deve ser comprido, enorme e com isso não desistir de seus compromissos e de suas responsabilidades com o Reino de Deus. Sua longanimidade deve expressar-se numa paciência prolongada, aprendendo que nem tudo virá no tempo planejado, que nem todos amadurecerão como gostaria que fosse, que nunca terá pleno êxito se não enfrentar as barreiras do caminho. Seu longo ânimo dá ao rebanho que pastoreia um porto seguro e esperançoso, sabendo que não abandonará a vontade de Deus e os compromissos assumidos. Sua longanimidade é capaz de esperar um crente crescer na fé, um pecador inconverso chegar à conversão ou um problema ser resolvido pela graça, e para isso ele é capaz de esperar o tempo que for necessário. Sendo longânimo ele não perde a fé. e nem a esperança. Ele recobra ânimo a cada dia que se prostra na presença do Pai. É como se comesse o pão e bebesse a botija de água providenciadas pelo próprio Deus no seu deserto, e isso constantemente.
 
BENIGNIDADE - O coração de um pastor só tem um propósito: fazer o bem. Seu ideal sempre visa o bem do Reino do Senhor. Para isso ele vive. Muitas vezes ele deixa de pensar em si para pensar no progresso da evangelização e na edificação da Igreja. Também é benigno para com os seus, para com a sua família. Ele quer bem a esposa, os filhos, os familiares. E seu querer bem expressa-se no tratamento e no propósito do que faz. Suas atitudes sempre visam a glória de Deus e o bem do próximo. Ele ama a igreja e não a insulta. Ele ama os amigos e deseja o seu sucesso. Ele ama a Pátria e tudo faz para construir um pouco do seu futuro. Seu coração não abriga malignidade. Ele não age para denegrir, para destruir, para difamar, para derrubar ninguém. Um coração benigno só tem espaço para querer coisas boas e edificantes.
 
BONDADE - Não basta o pastor ser benigno; ele tem que ser bom. Não há valor em apenas ser bem intencionado, em julgar-se benigno. É preciso ser bom. Se o pastor tem o coração benigno então ele é capaz também de ser bom. Ele é bom com a sua esposa e tudo faz para expressar amor, carinho, sustento, cuidados, segurança e felicidade. Ele é bom com os filhos e dá a vida por eles, trabalhando para sustentá-los, mantendo-os saudáveis, educando-os com cuidado e paciência, sendo exemplar em sua conduta e no trato caseiro, provendo futuro para cada um através dos estudos e de fundos para a maioridade. Ele é bom com a igreja e faz o melhor que pode para com todos. É solidário com os que sofrem, auxilia os que precisam, socorre os aflitos, visita os encarcerados, chora com os que estão tristes e fica feliz com os que se alegram. Ele tira de si para ajudar os que carecem e não mede sacrifícios para amparar os carentes. Para esse pastor não é enfado ou canseira aconselhar, atender no gabinete, visitar no hospital, estar com o enlutado, ouvir o aflito, enviar cartas ou e-mails aos que pedem respostas etc. Ele é bom. Bom para os vizinhos que só veem atos dignos de sua parte. Ele é bom para os amigos, dispondo-se na medida do possível. Enfim, seus atos não são mera teoria, mas prática diária de um autêntico cristão.
 
FIDELIDADE - Para esse pastor ter fé é fundamental e a sua fidelidade a Deus é o princípio de tudo. Foi por amor a Deus que ele aceitou o chamado ministerial. Foi pela fé que foi salvo e pela fé que edificou toda a sua vida. Então para ele a fidelidade é intrínseca à própria fé. Ele é um homem fiel. Fiel ao Deus que lhe salvou, vocacionou, capacitou, comissionou, enviou e delegou. Fiel à esposa com quem se casou e com quem comprometeu-se a viver até que a morte o separasse. Fiel no cuidado para com os filhos que o Senhor lhe confiou graciosamente. Fiel ao patrão que lhe contratou, caso seja um pastor que também trabalhe fora. Ele trabalha com afinco, amor, dedicação e tudo faz para a glória de Deus, não meramente em troca de remuneração. Ele crê que a fidelidade no ofício vem primeiro, o sustento vem de Deus e este não irá falhar. Fiel à Palavra de Deus, aos fundamentos da fé, ao pacto que fez no dia de seu batismo, a tudo quanto aprendeu em sua carreira cristã. Fiel ao compromisso e à confissão pública que deu no dia de sua ordenação e consagração pastoral. Fiel às doutrinas que abraçou. Fiel ao compromisso de servir ao Senhor para sempre. Também é fiel à sua igreja, não mantendo um amor dúbio ou coxeando entre dois amores. Para ele a igreja que pastoreia é a melhor igreja que existe. Porém, atento à voz divina, saberá terminar um ministério em alegria e paz para realizar outro, quando o Supremo Pastor o chamar. É fiel aos amigos, não confidenciando aquilo que com grande confiança lhe foi dito. Ele não cobiça a mulher alheia e nem desrespeita qualquer outra pessoa. Sua fidelidade independe de estar próximo a alguém conhecido. Ele teme a Deus! É fiel na sua vida comercial, não comprando o que não pode e só faz dívidas que possa pagar. Ele mantém um bom nome e uma boa conduta na praça. É bom pagador, bom cliente bancário, bom administrador dos bens, sejam poucos ou sejam muitos. Em suas mãos Deus multiplica o dinheiro e a capacidade das coisas. Todos são capazes de confiar nele, pois cumpre o que fala e mantém seus compromissos independentemente de circunstâncias temporárias.
 
MANSIDÃO - O pastor possui a excelência do espírito de Cristo: capaz de manter-se senhor de suas emoções até em circunstâncias adversas. Assim, no coração deste pastor não há lugar para um ser iracundo, que toma os pés pelas mãos, que resolve os problemas na ira, na violência, no grito, na tempestuosidade das brigas e divergências. Pastores mansos são capazes de contar até mil antes de manifestarem reações. Quanto à doutrina e à fidelidade às Escrituras são pontuais: sabem ensinar, chamar a atenção, disciplinar, repreender com autoridade. Um pastor manso expressa isso em prática e prédica. Ele repreende, mas não agride. Ele admoesta, mas não humilha. Ele é severo, mas não é tirano. Sua mansidão expressa-se no trato benigno com a esposa, mesmo quando precisa resolver divergências ou impor limites na relação. Ele é manso na educação dos filhos, corrigindo-os biblicamente até com castigos, mas encharcando cada ato com um mar de piedade e sincero desejo de crescimento. Ele é amoroso com sua igreja, mesmo quando tem que excluir os insubmissos ou pecadores. Para ele até o excluído precisa de uma chance para recuperar-se e jamais exerce disciplina com o intuito de humilhar. Ele é manso nas desavenças de trânsito, nos conflitos comerciais, nas desavenças relacionais, nas polêmicas intelectuais. Ele é capaz de não sentir ódio ou ira mortal, não por si, mas porque o Espírito Santo o encheu desta mansidão típica do Senhor. Assim, pode ser um Moisés conquistador e guerreiro, mas manso e cordato, um autêntico representante dos Céus no lugar onde Deus o plantou!
 
DOMÍNIO PRÓPRIO - Um ministério pode salvar-se quando um homem de Deus possui esse caráter do fruto do Espírito. Dominar a si mesmo. Ter domínio da língua quando esta quer dizer verdades inadequadas ou apontar erros sem piedade ou nos fóruns errados. Ter domínio da ira, que deseja surrar os contrários ou quem ousou contra si. Ter domínio do ódio, sedimentado por insultos recebidos no trânsito, na igreja, no trabalho, na familia. O domínio próprio pode fazer de um pastor um autêntico herói. Dominar a língua para que ela só fale o que edifica. Dominar a emoção para que não dê guarida aos sentimentos mais baixos do pecado interior. Dominar a sua cobiça, para não desejar a riqueza do outro, a mulher do próximo, a igreja do outro pastor, a oportunidade do amigo. Um pastor que tem domínio próprio sabe dar fim à preguiça, ao marasmo, ou sabe trabalhar apenas o suficiente e dosar sua atenção com a família e com sua saúde. Quem tem domínio próprio sabe arrancar do peito as amarguras da vida. Domínio próprio manifesta-se em todas as áreas e faz do pastor um bom marido, um bom pai, um bom profissional, um bom intercessor, um bom amigo, um bom pregador, um bom administrador, um bom conselheiro, um bom servo. Pastores que se dominam atravessam crises e vencem. Pastores que se dominam mantém a família unida e o rebanho confiante. Pastores que se dominam são lembrados como modelos a ser seguidos. Pastores que se dominam veem dias melhorese têm paz em suas vidas.
 
Diante desta reflexão eu pergunto: estaríamos nós, pastores, deixando o Espírito Santo produzir em nós o Seu bom fruto? Estaríamos realmente sob o domínio de Deus? Estaríamos dando o melhor testemunho possível? Estaríamos produzindo tudo o que seria possível se vivêssemos na plenitude do Senhor? Ou por falta desse fruto temos seguido por caminhos tortuosos e colhido ao longo do ministério dissabores e frustrações, escandalizando outros irmãos que desejavam ver em nós algo melhor do veem em si próprios?
 
Eu creio que é necessário ponderar e avaliar as nossas vidas, não sob a ótica do mundo, do sucesso, da prosperidade ou do crescimento, mas do ponto de vista de Deus, de Sua Palavra e do fruto do Espírito em nós. Porque, enquanto o fruto do Espírito for pouco em nós, o mundo só verá pastores dignos de piedade e de lamentos e indignos do chamado e da missão. Mas se deixarmos de semear na carne e semearmos uma vida de santidade e verdadeira dependência de Deus, então nos esvaziaremos de nossas próprias mediocridades e nos revestiremos do novo homem, que se renova dia após dia na estatura de Cristo e na Sua glória.
 
O que escolheremos? Que caminho trilharemos?
 
Não posso responder pelos colegas. Mas posso dizer por mim. Eu quero que Deus produza em mim o Seu maravilhoso e bendito fruto, para que a cada dia eu seja mais de Cristo e menos de mim. Eu quero que vejam em mim a Obra de Deus, que é capaz de transformar um miserável pecador em alguém controlado pelo próprio Senhor. Eu quero mais do Seu puro e Santo amor, mais do meu Salvador em mim.
 
Que assim seja!
 
São Paulo, Brasil, 10 de novembro de 2012
 
Wagner Antonio de Araújo
irmão em Cristo, chamado para o serviço do Senhor no ministério pastoral.
Igreja Batista Boas Novas do Rodoanel em Carapicuíba, São Paulo, Brasil
 

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