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sexta-feira, 19 de junho de 2015

memórias literárias - 214 - VISITANTES ESQUECIDOS


 


Crônicas de Verão

 
05 - Quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004
 

 
VISITANTES ESQUECIDOS
214
Wagner Antonio de Araújo 04/10/2003



Certa vez fui pregar em uma igreja da capital paulista. Cheguei um pouco mais cedo, às 18:30 horas. O culto iria começar às 19. Como de vez em quando acontece (...), a celebração iniciou-se um pouquinho atrasada, às 20 horas. Foram 90 minutos de banco, 90 minutos inesquecíveis e desconfortáveis.

Ao chegar, sentei-me num dos bancos de trás. As pessoas foram chegando e buscando seus próprios assentos. Notava-se que se conheciam, pois saudavam-se, perguntavam das crianças, do trabalho, da comida, do regime. Bem, talvez não tivessem me observado direito. Eu olhava para seus rostos, conversavam bem próximos, mas não me notavam. Pensei: “será que o meu regime alimentar está dando tão certo assim? Será que já estou invisível?”

O templo foi se enchendo e a garotada começou a entrar. Sabe como é, adolescentes, jovens, é chegar e correr pra plataforma, mexer na bateria, na guitarra, ligar microfone, etc. Quando um e outro se encontram, é aquele “papo cabeça”: “e aí, mano? Belê?” E a tradicional resposta: “Só...” Bem, corriam pelo corredor do meio, bem onde eu me encontrava, mas não me cumprimentavam.

O relógio marcava 19:40 hs, o templo estava repleto. O meu banco ainda estava vazio. Foi quando chegaram algumas pessoas um tanto mal educadas, que entraram para sentar-se nos demais lugares, pisando no meu pé e sem usar a chave “com licença”. Como sou discretíssimo, após entrarem de forma tão delicada, disse bem alto: “toda!!!”. Claro, pediram desculpas (não tinham escapatória...)

O culto começou. Eu participei, mas estava com vontade de ir embora. Cantamos, oramos, ouvimos louvores especiais, e então a direção do trabalho me convidou para ir à frente. Alguns arregalaram o olho: “nossa, o pastor estava aqui e nem fizemos caso!” Bem, eu preguei. E sabem sobre o que? “Não sejais como os hipócritas, saudando só os seus irmãos”. Não diria que tenha sido uma mensagem sob encomenda. Não foi. Mas que havia saído fresquinha do forno, naquela hora, ah, isso eu não nego...

Isso vale para cada um de nós, crentes em Cristo Jesus. Como estão as nossas igrejas? Como estão as nossas congregações? Como estão os nossos cultos e atividades públicas?

Há igrejas péssimas, como essa onde eu preguei. O visitante sente-se mal, parece um estorvo, não faz parte da panelinha, às vezes não tem o perfil social da membresia, ou não é bonito ao ponto de despertar interesses. Logo, é lançado no esquecimento. Entra mudo, sai calado. Para compensar, fazem encenações de comunhão, onde alguém diz: “vire para o seu irmão, beije ele, abrace-o, diga-lhe: eu amo você, etc.”. Confesso que sinto dificuldades em encontrar legitimidade nisso. Os visitantes dessas igrejas também.

Há igrejas boas: o visitante é saudado por meia dúzia de pessoas, alguém lhe apresenta a família, às vezes o pastor o cumprimenta também, alguns sorriem para ele, um introdutor o ajuda a encontrar um bom assento, etc. Algumas até o cadastram, para receber correspondências natalinas. Essas igrejas são boas, há muitas assim, graças a Deus.

Contudo, há igrejas ótimas. O visitante simplesmente não se sente visita; ele se sente acolhido, amado, estimado, desejado. Além de ser também cadastrado por introdutores, os membros fazem festa, sem deixá-lo sem graça. Se for homem, os homens vêm cumprimentá-lo, bater um papo. Se jovem, a garotada já o enturma e entrosa. No culto, saudações afetuosas são-lhe dirigidas, palavras de afeto. Ao final, é convidado a participar da confraternização. Também recebe convites para outras atividades, etc.

Muitas pessoas já se converteram por causa da acolhida que receberam da igreja. Muitos não se sentem amados ou queridos em canto algum, mas quando estão na igreja, sentem o afeto que lhes falta. Na igreja os órfãos ganham pais, solitários ganham amigos e assim se forma a família de Deus.

A minha pergunta é: como você classificaria a sua igreja? Como péssima? Boa? Ótima? Qual a sua parcela de responsabilidade nisso? O que você pode fazer para mudar, se necessário for?

Lembremo-nos do que nos diz a bíblia: “Sede hospitaleiros, porque alguns, sem o saber, hospedaram anjos”.  (Hebreus 13.2)

Wagner Antonio de Araújo
Igreja Batista Boas Novas de Osasco, SP


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