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domingo, 24 de maio de 2015

memórias literárias - 182 - AROMA DE PINHO CAMPOS DO JORDÃO

 


 

Crônicas de Verão
01 - Domingo, 01 de fevereiro de 2004
 

182
 
AROMA  DE
 PINHO CAMPOS DO
JORDÃO
 
Na manhã deste domingo eu visitei o ponto de pregação de nossa igreja, situado no bairro de Vila Souza, zona norte da capital paulista. Ali, na casa da irmã Leontina, pude servir ao Senhor, pregando a Sua Palavra, como mensalmente o faço. Eu os visito de quando em quando.
 
Ao chegar, somente a dona da casa estava presente, aguardando o início do culto. Porém, em seguida, chegou o querido irmão Israel. Ele, com sua alegria peculiar, o seu jeito humilde e simples, abraçou-me, dizendo: "bom dia pastor! Que bom estarmos na Casa do Senhor!" E, com o seu abraço, veio também a nostalgia, pois ele estava usando o Pinho Campos do Jordão.
 
Eu conhecia o aroma, porque trabalhei em farmácia aos 13 anos. Eu entregava remédios, aplicava injeções e limpava todas as prateleiras, inclusive de perfumaria. Então, quando limpava a parte dos cosméticos, abria a tampa dos desodorantes, para conhecer os seus aromas. E o pinho era um desodorante bem em conta, e de um cheiro duradouro. Por isso identifiquei com facilidade o perfume do Israel.
 
Ele estava bem alinhado. Um moço humilde, com os seus quarenta e poucos anos, sem carro, sem casa, sem posses, dono apenas de um excelente caráter e de uma vida ilibada, poderia gastar o seu domingo dormindo, passeando, pescando, indo jogar bola, enfim, fazendo o que quisesse. Mas escolheu servir ao Senhor, mesmo cansado pela labuta diária do trabalho. E veio contente à igreja, com um sorriso nos lábios, bíblia à mão e muita fé no coração. Para ele, o ponto alto da semana é o Dia do Senhor.
 
O Israel me fez lembrar os crentes da roça. Ah, aqueles crentes valiosos! Geralmente labutam na roça e na beira dos rios durante toda a semana, de sol a sol, calejando as mãos no manuseio de foices e enxadas, suando a face e criando couro na sola dos pés. E, ao chegar o domingo, dia de descanso, acordam bem cedinho, assim que o galo começa a cantar (lá para as três da manhã), e se trocam, colocando uma marmita na sacola e pegando a sua bíblia surrada e bem marcada. Com coragem pegam a estrada.
 
E andam, andam, andam. Os que têm cavalos conseguem fazer isso com menor esforço. Mas, a grande maioria, vai à pé mesmo, sem medir a distância por quilômetros, mas por léguas. Sobem morros, descem barrancos, e vão caminhando. Lá pelas dez da manhã chegam ao templo, perdido no meio do alto da montanha. Abrem a igreja, varrem tudo, passam um pano nos bancos, afinam a viola, recebem os outros que vão chegando, e louvam ao Senhor longamente. Depois o pregador, pessoa simples e sem muito estudo, abre a boca e fala tudo o que sabe, às vezes sem homilética alguma, mas com toda a fé e boa vontade do mundo. Daí, após umas duas horas, o culto termina e eles vão até o gramado, estendem as toalhas e tiram a bóia fria para fora, comendo gostosamente o seu arroz, feijão e ovo frito, ou um pedaço de frango e uma boa fruta para sobremesa. As crianças brincam, os jovens conversam, as mocinhas sonham, e logo o sol avisa que é hora de picar a mula, seguindo de novo, pois não há tempo para dois serviços na igreja num só dia. E lá vão os heróis da roça, de volta para os seus rincões, não sem antes suar muito, andando à pé e, não poucas vezes, descalços (o sapato e a "roupa boa" é só para a hora do culto).
 
Se alguém tinha motivos para não servir a Deus, esse alguém era o roceiro crente. Podia descansar, ficar em casa o dia todo! Mas não, ele luta, labuta, se dedica. E, ao chegar em casa depois da viagem, cansado, ainda tem que arrumar a tralha toda para pegar no batente cedinho, no dia seguinte. Tem roçado pra cuidar, geralmente que nem dele é, uma vida muito difícil! Porém, é esse mesmo roceiro que não mede esforços para que chegue o próximo domingo. Ele serve a Deus por prazer!
 
Nós, aqui da geração urbana, aprendemos a viver com facilidades. E colocamos tanto empecilho no serviço do Senhor! Tudo é difícil! Cantar no coral? Fazer evangelismo? Participar de atividades especiais? Ir à igreja de manhã e à noite? Tenho conhecimento de que duas igrejas internacionais muito conhecidas, estão orientando os seus milhares de membros a não virem ao templo, mas participarem do culto pela internet apenas, é mais fácil. Lá no site eles encontram pregações para todos os gostos. Será que tem oração específica também? Cada um faz o seu pratinho de refeição espiritual. Seus líderes apenas solicitam que os dízimos sejam enviados corretamente através do cartão de crédito, não precisando mais preocuparem-se com nada. Eu aplaudo a tecnologia, eu também a utilizo (é por ela que envio os meus textos!). Mas, será que é assim que Deus quer que o sirvamos, isto é, solitariamente, sem esforço e inter-relações eclesiásticas? Um serviço solitário, dentro da minha casa, fácil, cômodo, seguro, num tempo livre que tiver, substituiria o esforço pelo Reino?
 
O Israel é um exemplo pra mim. Para ele o Dia do Senhor é uma bênção. Quando chega a tarde ele sai com um maço de folhetos, deixando-os nas casas. E não tem preguiça. Ele diz que Jesus fez muito mais por ele, portanto, tem prazer em servi-lo.
 
Como precisamos de israéis em nossas igrejas! Como precisamos ser israéis em nossa devoção!
 
Agora, toda vez que eu sentir o aroma do pinho Campos do Jordão, me lembrarei desse jovem valoroso, que ama a Jesus, e procurarei também amar mais a Jesus, dedicando-me melhor e com mais empenho ao Senhor.
 
Um abraço a todos.
 
Pr. Wagner Antonio de Araújo
Igreja Batista Boas Novas de Osasco, SP

 

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