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quarta-feira, 20 de maio de 2015

memórias literárias - 175 - AINDA TE ESPERO, MÃE...

AINDA TE ESPERO, MÃE...





É, minha mãe querida.
Quantas vezes eu fui te esperar no portão, para ver se voltavas do hospital. Foste embora para a Beneficiência Portuguesa para tratar tua respiração e o ombro quebrado. Porém nunca mais voltaste. Faz cinco anos. E eu ainda te espero ao portão. Quantas vezes precisei gritar comigo mesmo, dizendo: "Isso é loucura, Wagner, tua mãe está no Céu, ela não voltará aqui!"
Sim. Tu não voltarás. Do hospital foste ao necrotério, e ao velório e ao cemitério. Tive que ajudar a cobrir-te com as flores amarelas e brancas que decoraram a tua inércia mortal.
Às vezes tudo é belo. Porém, quantas e quantas vezes eu não me sinto como Jó, que dizia: "Quando amanhece eu pergunto: quando anoitecerá? E quando chega a noite eu digo: quando será que o sol irá nascer?" Uma sensação de impotência ante a impossibilidade de teu regresso. Essa dor é um osso da existência. Quem ama sente. Quem ama sofre. Quem ama morre um pouco (ou muito...)
Entendo as lágrimas do Salvador quando contemplou o túmulo de seu amigo Lázaro. Por três dias esteve morto; por três dias separaram-se. E por três dias a morte foi potente, mostrando-se barreira intransponível. Por essa dor Jesus chorou, a dor de querer estar com quem se ama e não poder. Foi a dor do homem saudoso. Ah, como Jesus foi humano! Claro, foi um momento, um átomo, pois logo em seguida à Sua ordem o defunto levantou-se e viveu. Mas quantos Lázaros continuaram mortos? Quantos não morrem hoje e quantos mais não morrerão amanhã? Tu és meu Lázaro, mamãe amada!
Graças a Deus ver-te-ei ainda, mãe querida. Certamente que em outras circunstâncias, graças a Deus! Tu estarás glorificada, com um corpo transformado. Não serás velha, nem doente, nem de coluna arcada, nem de ossos quebrados, nem com a vista cansada, nem de pulmões secos, nem com sangue engrossado. Tu serás do jeito que o Pai idealizou: plena e perfeita em Cristo. E não serás minha mãe, serás minha irmã! Conquanto eu tivesse prazer em tê-la para sempre como minha mãe, o prazer da irmandade celestial há de ser muito, muito melhor do que as relações familiares daqui, pois Deus não troca o bom pelo pior, mas o bom pelo melhor. Aleluia!
Não escrevo a ti, mamãe querida. Tu não me lês, não me entendes, não me ouves. Teu Céu seria um inferno se pudesses ver o sofrimento dos teus filhos pela tua ausência. Escrevo para mim mesmo, escrevo como desabafo literário, pois às vezes a dor de tua ausência sufoca a própria alma. E eu digo: "Senhor, não posso mais, não aguento mais!" E o Senhor sempre socorre os que nEle esperam.
Eu preciso de colo!
Eu preciso de afago materno!
Eu preciso do teu "Deus te abençoe, meu filho!"
Portanto, para estas horas tristes de uma primavera com cara de outono, que fale a alma e o coração, e que o consolo venha de Deus, sempre presente, acolhedor, amoroso e benigno.
"NÃO SE TURBE O VOSSO CORAÇÃO, NEM SE ATEMORIZE"
Em memória de Elzira Bonfante,
a rainha do coração de seus filhos
Wagner & Daniel.

São Paulo, 4 de novembro de 2010

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