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quarta-feira, 20 de maio de 2015

memórias literárias - 170 - SE EU NÃO FOSSE CRENTE ...

SE EU NÃO FOSSE CRENTE...
170
"Não posso, estou ocupado"; "Tenho muita matéria para estudar"; "Não é do meu interesse"; "Cada um sabe o que é melhor para si próprio"; "Não conte comigo".
 
Essas palavras poderiam ser atribuídas a pessoas não convertidas a Cristo, convidadas para ouvir o evangelho, participar de um culto, envolver-se com uma igreja. Geralmente são desculpas que se dão para qualquer tentativa evangelística por parte dos cristãos.
 
Contudo, essas são frases de crentes. Justificativas comuns na boca de membros de igreja, talvez da maioria. Pessoas que um dia nasceram evangélicas ou que converteram-se em algum momento e que já se "acostumaram" ao marasmo da vida eclesiástica. São respostas comuns às mais básicas chamadas cristãs para o trabalho. Não podem vir ao culto, não podem frequentar a Escola Bíblica Dominical, não podem cantar ou tocar num grupo especial, não podem fazer parte de uma equipe de evangelismo ou de visitação.
 
É a metamorfose do Reino com inversão de sentido. Se antes, na conversão o Reino chegou e trouxe transformação, agora traz absoluta rotina e um gradativo afastamento do elemento espiritual ou transcedental da experiência cristã. Antes o servir a Cristo era novidade, privilégio, sede, necessidade. Agora, passado o tempo do "primeiro amor" a igreja e o Reino tornaram-se irrelevantes, meros compromissos sociais, de lazer ou familiares, na medida em que não tumultuarem outras prioridades (trabalho, estudos, lazer, interesses pessoais, romances, esporte, política).
 
O Cristo-Rei do início da vida cristã transforma-se no Cristo-Mendigo do decorrer dos dias que se seguem. Antes Cristo no centro da vida do cristão, no tópico frasal da estrutura de seu discurso vivo. Agora, passado o tempo, tornou-se referência de rodapé "pro forma" para cumprir normas acadêmicas de uma vida vazia e sem nenhuma espiritualidade. É como se Cristo, domingo após domingo, estivesse na porta da igreja, nas mensagens de e-mail, nos boletins, nos torpedos, nos telefonemas, implorando com ares de pedinte, rosto triste e súplice, que o Seu povo lhe dê um pouquinho de atenção, de afeto, de importância, que ao menos o convide para estar junto nas atividades do final de semana. Um Cristo concorrente e decadente diante do "deus deste século" e com o "príncipe deste mundo".
 
Nesse universo estão leigos e clérigos. Aliás, é dos pastores que Cristo tem recebido maior desafeto. Na plataforma de suas igrejas fazem a performance, o tipo, encarnam um personagem. Alguns, com técnicas de comunicação aprendidas em cursos de hotelaria e auto-ajuda, chegam a arrebatar multidões, tanto nos encontros ao vivo quanto nos vídeos de internet. Tornam-se populares, engraçados, com grandes "tiradas de mestre", multidões que ali se encontram não pelo Senhor, mas pelo "status" de fazer parte de uma igreja bem famosa, popular ou moderna. Cristo, contudo, conhece o dia a dia deles, em sua vida privada: vivem sem qualquer religiosidade, sem qualquer relacionamento espiritual, idênticos ou até mais secularizados que aqueles a quem supostamente ensinam. Basta estarem fora das mídias e dos olhos de todos para serem tão seculares quanto todo mundo. Linguajar chulo, negócios escusos, cupidez, envolvimento com o mundo, conivência com os costumes e filosofias de mídia, aplausos às artes não-cristãs (novelas e filmes incompatíveis com o que pregam) etc.
 
A ramificação pentecostal, que surgiu no início do século vinte como uma contra-cultura evangélica em prol de uma suposta volta à espiritualidade, procurando avançar em terrenos que o mundo Holyness do século dezenove nunca desejou trafegar (sentimentos e carismas acima do envolvimento pessoal com o Senhor), transmutou-se em mera performance de palco, em formalidade e tipo, em busca do êxtase corporativo e competitivo, para que fossem identificados como os que geram mais experiências, e, consequentemente, mais lucro, mais fama, mais votos na política, mais pontos de arrecadação. O neopentecostalismo está aí para comprovar o que digo, misturando-se em todas as denominações, tradicionais ou pentecostais, e, para espanto nosso, progredindo a passos largos no catolicismo romano.
 
O mundo evangélico conservador, de frieza em frieza, vai colecionando igrejas vazias. Algumas porque seus líderes ousam ir na contramão dos púlpitos modernos, preferindo a boa e velha mensagem evangélica. Mas a maioria por frieza espiritual mesmo. Já o mundo místico encarna templos cheios, apinhados. Em todos estes, contudo, Cristo está bem longe, sendo o grande esquecido e o grande omitido, pois deixou de ser o foco para ser a desculpa; deixou de ser o motivo para ser apenas a nomenclatura. Nos momentos em que Ele deveria ser a base, o alicerce, o motivo e o ideal, revela-se apenas um sobrenome, um título por tradição, uma lembrança de tempos passados. Cristo está ausente. O povo chamado pelo Seu nome, não é capaz sequer de ser fiel às celebrações de culto, de exercitar os dons e talentos na igreja que é o Seu corpo, de praticar a oração constante, de ler com fidelidade a Sua Palavra ou de comprometer-se com Ele quando isso custe algum sacrifício. Cristo sim, SE FOR POSSÍVEL. Cristo sim, SE NÃO CUSTAR CARO. Cristo sim, SE NÃO AFETAR A MINHA VIDA SOCIAL, PRIVADA ou DESEJOS PESSOAIS. A Palavra dEle sim, desde que não prejudique as MINHAS DECISÕES, que, quase sempre, vão de encontro à vontade de Deus.
 
E assim caminha o cristianismo moderno. Aliás, nem tão moderno assim, pois que o Senhor Jesus já perguntava aos Seus indecisos apóstolos: "Quereis ir embora também?" (João 6.67). Hoje, num cumprimento escatológico, vemos à luz de nossos olhos o fato: "Quando, porém, vier o Filho do Homem, porventura encontrará fé na Terra?" (Lucas 18.8). A resposta: provavelmente muito pouca, ou talvez nenhuma, uma vez que os autênticos ou terão morrido ou terão sido arrebatados. Não é o reavivamento o grande sintoma da volta de Cristo, como queriam os pós-milenistas ou carismáticos de plantão. É a frieza espiritual que caracteriza estes nossos difíceis dias. O lamento de David Wilkerson, de saudosa memória, ecoa na alma dos cristãos: "um batismo de angústia é o que falta no seio da Igreja de Cristo dos dias de hoje".
 
Quero examinar a minha alma. Sirvo a Deus de fato? Coloco Cristo como prioridade? Servi-Lo é sacrifício? Desculpo-me pela infidelidade? Vivo como um não convertido quando ninguém me vê? O tema de meu coração é Jesus? Estou satisfeito com a vida espiritual que levo? Cobro dos outros o que eu mesmo não ofereço? E, se nessa análise eu me encontrar culpado e devedor, até quando me manterei desse jeito? Há esperança para mim? Posso voltar ao primeiro amor? É possível tornar-me o crente que Deus desejava que eu fosse ao me converter? Pode a minha alma ser tocada novamente, trazendo-me ânimo, entusiasmo, vida abundante, enchimento do Espírito Santo?
 
BUSCAR-ME-EIS E ME ENCONTRAREIS, QUANDO ME BUSCARES DE TODO O CORAÇÃO. Jeremias 29.13
 

Wagner Antonio de Araújo

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