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sábado, 12 de agosto de 2017

memórias literárias - 504 - EU NÃO LHE ESQUECI ...

EU NÃO
LHE
ESQUECI...

 
 
504
 
Antonio Paulino de Araújo. Este é o seu nome. Deus não é Deus de mortos, mas de vivos. Papai se foi em julho de 1991. Mas está vivo no céu por promessa divina em Sua Santa Palavra: Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; (Jo 11:25)

Um honrado pai de família, honesto, trabalhador, dedicado ao extremo aos afazeres profissionais e consertos domésticos, ansioso por ver um filho médico/atleta e outro engenheiro. Talvez fosse exatamente isso que ele gostaria de ter sido, se oportunidade tivesse. Mas lá na roça, na Meia Légua, em Cambuí, Minas Gerais, não havia a menor chance, e tinha que contentar-se com o ciclo natural da vida: ser lavrador/boiadeiro, capinar, plantar, arar, colher, pescar, casar, ter uma prole grande para acompanhá-lo na roça, envelhecer e morrer.
Seguiu o caminho dos irmãos mais velhos: foi embora para São Paulo. Caminhando pela estrada velha (a Fernão Dias nem existia ainda), chegou na metrópole, sem lenço e sem documento. Tratou de arrumar trabalho braçal. Encontrou-o nos loteamentos da Brasilândia, região que estava sendo desmatada. Ajudou a construir os esgotos daquela região da capital, hoje zona norte.
Alguém lhe deu a chance de trabalhar como zelador de um prédio. Rapaz novo, bonito, chamou a atenção de um professor, que tinha carreira no Banco do Brasil. Ele lhe arrumou escola, fê-lo estudar, e conseguiu inscrevê-lo como mensageiro no banco, que, na época, era uma carreira das mais invejadas e promissoras.

E meu pai foi crescendo, sendo próspero. Comprou um terreno no loteamento da Vila Anglo-Brasileira, próximo do Sumarezinho, e construiu uma “meia água”. Na ocasião, encantou-se com a filha do Seu Leandro, um vizinho italiano, e seu irmão Roque encantou-se com a outra, e ambos contraíram núpcias com as italianas de sangue, Elzira e Jovelina. Era 1960.
Enquanto o Brasil crescia, mesmo sofrendo confusões políticas, papai trabalhava à todo vapor, estudando com afinco. Estava debruçado em seus estudos de engenharia. Casado (encontrou uma moça honrada e maravilhosa, que foi a minha mãe Elzira), dele recebia todo o cuidado e afeto necessários. Mas o excesso de trabalho e estudo levaram-no a uma estafa, e ele foi internado com problemas emocionais sérios. Foram seis meses de sofrimento para o casal. Mas retornou, graças a Deus, e não voltou à faculdade, apenas ao trabalho, que já se constituia numa excelente carreira.
O terreninho já não abrigava uma meia-água, mas uma casa, que ele construíra com suas próprias mãos. Muito jeitoso, muito trabalhador, cada tijolo e cada reboco daquela casa tem o suor de meu pai e de minha mãe. Aos poucos a casa tornou-se um grande sobrado. Foi naquela casa que Deus deu graça ao casal e eles conceberam um bebê. Então eu nasci.
Seis anos depois, lembro-me como se fosse hoje, pedi à minha mãezinha,enquanto ela estendia roupas para “quarar”, “mamãe, a senhora me dá um irmãozinho?” O meu pedido foi concedido, e veio ao mundo outro menino, um lindo Daniel. Hoje eu sei que ela foi ressuscitada na mesa cirúrgica, pois o parto foi extremamente difícil.
Nosso pai deixou-nos uma grande herança. Quero citá-la, em sua memória e para a glória de Deus.
Dignidade – Aprendi com o meu pai que a dignidade independe do grau econômico de alguém, independe de sua instrução, beleza física ou popularidade. A dignidade pode ser de alguém quieto, desconhecido e que vive em silêncio. Mas a dignidade fala mais alto do que tudo, pois, quando tudo se acabar, a dignidade perpetuará uma vida, uma família, uma geração.
Honestidade – Papai ensinou-me que não importa o custo, temos que falar a verdade. A verdade pode ser dura, pode machucar, pode magoar, mas a verdade é a única coisa que importa. Temos que ser honestos em nossos negócios, em nosso trabalho, em nossos estudos, nas nossas relações famíliares, etc.
Humildade – Meu pai soube ser humilde. Quando a idade chegou e a doença tomou conta de seu frágil e cansado corpo, ele soube pedir perdão. Muitas pessoas receberam sua visita inusitada, gente com quem trabalhou, familiares, ex-amigos, e ele, já cego e de bengala, dizia que, como Cristo lhe perdoara, também gostaria de perdoar e pedir perdão. Muitas pessoas que receberam sua visita tornaram-se cristãs, porque concluiram que, se o “Seu António” foi transformado assim, então Deus realmente existe. Meu pai foi um homem de humildade preciosa.
Integridade – Nunca vi ou ouvi meu pai mentindo, divagando, fingindo. Meu pai era um homem autêntico. E essa integridade fazia com que soubéssemos exatamente o que ele pensava, o que ele fazia e o que ele sentia. Meu pai era um homem de uma palavra só, e só mudou decisões e arrependeu-se de atos por causa de Cristo, que lhe salvou, remiu e transformou.
Dedicação Incondicional – Quando sua vista estava prestes a acabar (a diabetes enfraqueceu ao extremo e cegou-lhe), ele comprou uma bíblia de letra bem grande, comprou lentes, e leu-a vez após vez, hora após hora, à exaustão. Dizia ele que tinha que aproveitar cada minuto de vista, porque, quando acabasse, era do que havia lido que viveria, por isso deu ao Senhor toda a prioridade do uso de seus olhos. Quando tornou-se cego, ouvia o Novo Testamento falado e nós, os filhos, líamos o Velho Testamento, todos os dias, para sua edificação. E como ele gostava de falar das coisas do Senhor!
Fé Inabalável – Meu pai cria em Cristo. Quando converteu-se, em 1980, e posteriormente, quando realmente entregou tudo ao Senhor, ele não tinha mais tristeza por estar tão debilitado, tão enfraquecido. Ele sabia que Cristo prometera a vida eterna, a salvação, o perdão de todos os pecados, e nessa confiança ele viveu e morreu. Quando alguns pastores (eu ainda não era), estiveram aqui em casa para orar por ele, pedindo-lhe a cura, ele disse: “não peçam para o Senhor me curar, pois não quero ser tentado a ficar nervoso e pecar; eu já vivi bastante, eu quero ir para o Céu”. Em tudo meu pai glorificou a Deus.
Pai de família Responsável – Se hoje eu e meu irmãozinho somos pessoas honradas, estudadas, preparadas, encaminhadas, é porque nosso pai nos alimentou, nunca deixou faltar o pão em nossa mesa, comprou nossos remédios, vestiu-nos, banhou-nos, acompanhou nossa mãe nos cuidados conosco, deu-nos boas escolas, comprou nosso material de estudo, ensinou-nos a dirigir automóveis, colocou um carro em nossas mãos, orou por nós e fez de nós homens crentes e dignos, homens que valeram seus cuidados e responsabilidades. Ao falecer, não deixou nossa mãe desassistida; pelo contrário, supriu suas necessidades básicas, e concedeu-lhe a graça de receber pensão suficiente para as necessidades prioritárias. Se hoje eu moro em algum lugar, é porque meu pai comprou-nos esta casa, e eu agradeço, como agradeço!
Hoje eu homenageio o meu velho pai, cuja voz e figura está gravada, mas cuja presença está em nosso sangue, em nossa linhagem, em nossa memória e em nossa gratidão.
Obrigado, Antonio Paulino de Araújo, marido, pai e líder.1932 – 1991

 
Wagner Antonio de Araújo

12/08/2017

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