Translate

sexta-feira, 14 de julho de 2017

memórias literárias - 476 - IGREJINHA DO INTERIOR

IGREJINHA DO
INTERIOR
 
476
 
Trafegava com o meu carro numa cidadezinha pacata, a caminho de outra grande cidade. De repente eu vejo, numa rua tranquila, um pequenino templo de alvenaria, com telhas de barro, uma igrejinha batista velha. Não me contive. Parei. Era amarela, com detalhes em marrom. Uma pequena escada de cinco degraus levava à varanda da frente. Ali, com pilares antigos, erguia-se uma varanda gostosa, com samambaias penduradas em cada coluna. Eram meia dúzia. O chão era de caquinhos (cacos de cerâmicas vermelhas, pretas e amarelas). Ah, que nostalgia! Na casa ao lado, com quintal longo e varal de roupas, ouvia-se uma canção instrumental de viola, no rádio velho de válvulas, pendurado na parede da cozinha.
 
A porta estava aberta. Entrei. Um tapume de madeira separava o ruído da rua da paz da igrejinha. Nele estavam velhos cartazes de campanhas antigas, inesquecíveis, levadas ao exercício da fé em anos de ouro. "Cristo, a Única Esperança", "Neste Século e no Futuro, Jesus Cristo", "Fala e Não Te Cales". As lágrimas desceram pelo meu rosto. Vi ali retratos pendurados, de cultos realizados há muito tempo.
 
Entrei. O chão era de vermelhão (uma espécie de cimento com tinta vermelha misturada). Estava bem encerado. Os bancos eram de madeira, de formato antigo. Tinham genuflexórios, que raridade (aquela madeira onde as pessoas podem ajoelhar-se!). Se cinquenta pessoas coubessem ali, seria muito. Havia seis janelas, janelões antigos. Os vidros eram coloridos, dando a idéia de vitrais de igreja, muito bonitos. O teto com forro de cedrinho pintado. As luzes eram amarelas, fortes, e quatro ventiladores de parede erguiam-se, velhos, de ferro e, ao que pareciam, muito fortes. Após o banco havia uma linda mesa de Ceia do Senhor. Nela, entalhado na madeira, estava a inscrição: "Em Memória de Mim". Era velha, provavelmente de madeira de lei, muito bem envernizada. Um vasinho de vidro com rosas vermelhas erguia-se ao meio, em cima de um pequenino caminho de crochê, provavelmente feito pelas servas do Senhor de muitos anos atrás.
 
Duas escadinhas laterais davam acesso ao púlpito. Três degraus cada uma. Então a plataforma erguia-se, uns 3 metros de espaço por uns 8 de largura. No canto esquerdo um órgão MINAMI antigo, mas conservado, coberto com um tecido púrpura. No canto direito um piano, pequeno, mas bonito. Abri seu teclado e vi que as teclas estavam amareladas, com sinais de já terem sido sobejamente usadas no louvor do Senhor. No meio estavam três cadeiras estofadas, antigas e bonitas, bem fortes. E, à sua frente, um púlpito escuro, de madeira envernizada, com laterais estendidas e três prateleiras internas. Dentro estavam folhetos evangelísticos, bíblias, hinários, envelopes de dízimo, cartões de visitantes da Escola Bíblica Dominical e livrinhos para a classe de catecúmenos. A parte de cima formava uma bíblia aberta, grande, entalhada na madeira. E, em cima havia uma bíblia de púlpito, da década de cinquenta, com beiras vermelhas, gastas, e papel amarelado pelo tempo.
 
Duas portas laterais, ao lado dos instrumentos, davam acesso ao batistério. Este, modesto, erguia-se acima das cadeiras, na parede final. Era um tanque de água bem construído, com azulejos internos e uma paisagem de rio em sua fachada, acima do vidro protetor, dando, aos que olhavam para o púlpito, uma imagem de natureza muito bonita e realista. Imaginei quantas vidas ali não tinham testemunhado a sua fé em Cristo, o seu amor por Jesus, descendo às águas batismais!
 
Sentei-me no primeiro banco. Uma porta lateral dava acesso do salão ao corredor externo. Havia uma plaquinha que dizia: "sanitários / gabinete pastoral". Vi uma mesinha cheia de materiais de evangelismo. Levantei-me e fui verificar. Ah, que saudade! Evangelhos de João da Liga do Testamento de Bolso, maços de folhetos "Boas-Novas Brasil", "A Cruz e o Punhal", "Ele Quer Ser Seu Amigo". Alguns macinhos de convites de séries de conferências de Páscoa, de Natal, realizados há anos, também estavam disponíveis ali.
 
Ao sair pelo corredor vi os banheirinhos. Um para as mulheres e outro para os homens. Simples, com três vasos cada um, e no dos homens dois mictórios também. E o gabinete pastoral era ao lado. Uma sala grande, dava para imaginar, mas estava fechada. O resto do terreno era um quintal gramado, com alguns brinquedos infantis e um rancho ao fundo, com cadeiras para crianças, certamente para a Escola Bíblica Dominical.
 
Não havia ninguém. Estranhei que tudo estivesse aberto. Fui até a porta e li uma plaquinha: "Casa de Oração Para Todos os Povos - Entre para Orar, Saia para Servir". Fiquei feliz, pois eles deixavam o templo aberto para que as pessoas ali fossem buscar a face do Senhor! Cidade pequena, pacata, todos conhecem a todos, poucos perigos. Então voltei ao banco e orei. Orei ao Deus dos Céus. Orei ao Senhor a quem me rendi em fevereiro de 1980. Orei Àquele que me chamou para servi-Lo na pregação de Sua Palavra. Orei a quem me levantou do leito de morte em 1982. Orei a quem me confiou a graça de amá-Lo. Orei e chorei. Era uma igrejinha velha, à moda antiga. Um templo batista no meio de uma cidadezinha pacata, pequenina e distante dos centros urbanos. Mas estava alí, ereta, testemunhando a fé em Cristo daqueles que a fundaram e, espero, a fé contemporânea daqueles que ali ainda O servem hoje. Está tão raro encontrar uma igreja com cara de igreja!
 
Levantei-me para seguir viagem. Um senhor idoso, do outro lado da rua, gritou: "Deus te abençoe, vá em paz!". Sorri e fui embora. Não fotografei nada, mas guardei no coração, na memória e na história de minha vida. O dia em que voltei no tempo, visitando a igrejinha do interior.
 
Bendito seja Deus pelas que ainda existem, sejam batistas ou de outras denominações, mas bíblicas e que não abandonaram a fé! Queira Deus abençoar os cultos que ali acontecem, os seus pastores humildes e o seu povo simples. Que sejam instrumentos nas mãos do Pai em tudo o que fizerem, falarem, planejarem e orarem. E que Deus os revista de graça e de amor!
 
Wagner Antonio de Araújo

14/07/2017

Nenhum comentário:

Postar um comentário