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quinta-feira, 20 de julho de 2017

memórias literárias - 481 - EU JÁ ME BANHEI

EU JÁ
ME
BANHEI
 

 
481
 
Foi na última quarta-feira. O frio era intenso. No carro eu tinha ar aquecido. Fui até a capela da Boas Novas. Ao chegar, deparei-me com um monte de panos jogados no chão. Pensei tratar-se de lixo. Olhei bem e vi, embaixo daquilo, uma pessoa. Não sabia bem se era uma mulher ou um homem. Chamei-lhe. Era um homem, um senhor moreno, com barba, todo encolhido, ao lado de um pão de forma e um copo com água.
 
- Meu senhor, o que faz aqui?
 
- Estou descansando. Só preciso de um cobertor.
 
- O senhor está com três cobertas; mas ficar aí será fatal; está muito frio. O senhor já jantou?
 
Ele disse-me que não tomara café, não almoçara e nem jantara. Disse que morava em Guarulhos e que pegara um ônibus, outro ônibus, e acabara parando ali.
 
Na hora pensei em levá-lo a Guarulhos. Deixaria o irmão Dival a tomar conta do culto de oração. Contudo, estendendo a prosa, percebi que o homem tinha idéias confusas, desconexas. Ele pediu-me um banho.
 
Aquilo doeu o meu coração. Eu, com o meu dormitório ao lado do gabinete, um banheiro com chuveiro quente e este senhor do lado de fora. Como poderia negar-lhe o benefício? Além disto Deus poderia ter trazido este senhor à porta, para que recebesse de cristãos os cuidados necessários.
 
Corri até a irmã Esmeralda, cuidadora e vizinha, para ver se conseguia uma sopinha e uma calça usada para ele, pois a sua estava toda rasgada. Trouxe-o ao meu gabinete. Ofereci-lhe serviço, mas ele não quis e falava coisas confusas. Levei-o ao banheiro. Ali estava a minha toalha, o meu sabonete, tudo limpo e cheiroso. Eu lhe disse:
 
- Seu Gilberto (este era o seu nome), o que é meu é de Deus. O senhor é alguém que precisa. Eu tenho outro banheiro aqui, mas quero que use o meu. Tome um banho demorado e use todo o sabonete e xampu. Sinta-se em paz. O senhor não me deve nada. Depois o levarei até a Estação de Carapicuíba, para que possa encontrar algum lugar melhor para dormir, pois aqui fora não será possível o senhor ficar.
 
Ele entrou no banheiro, a irmã Esmeralda trouxe a sopa e, em um minuto saiu como entrou. Disse: "Eu já me banhei". Eu estranhei. Como poderia ter se banhado? Nem tirara as roupas! Ao chegar no banheiro encontrei a minha toalha branca toda suja. Ele tomou-a, passou na cara e na cabeça e chamou aquilo de banho. Perguntei-lhe se realmente havia se banhado. Ele falou com braveza: "Sim, senhor, já me banhei". Encerrei o assunto.
 
Posteriormente rejeitou a sopa e pediu para que o levasse à estação. Esmeralda conseguiu uma calça usada para ele, que a vestiu por cima da outra furada. Levei-o a Carapicuíba e ele, após muita conversa desconexa, foi embora. E regressei à igreja.
 
Estava pensativo e contemplativo. Um irmão disse-me que alguns mendigos são assim mesmo, não tomam banho; estão acostumados a limpar apenas a cara e as mãos; vão vivendo assim, sem sensibilidade. Este agiu assim. Aliás, pelo saldo de suas prosas, fez da rua a sua vida e não quer viver diferente. Ofereci serviço, ofereci comida, ele queria ir embora. Mas o que mais me indignou foi ter rejeitado o banho decente, digno, que eu lhe oferecera. Dei o meu banheiro, cedi aqueles materiais que julgo bons e selecionados para o meu uso. Ele sequer abriu o chuveiro! Há quanto tempo não estaria nas ruas sem a possibilidade de um banho digno, demorado, com água quente, limpa, com perfume, sabonete, xampu e com barbeador? Deus do céu, eu lhe dei a mão e ofereci-lhe a dignidade, ele rejeitou a oferta e preferiu ficar como estava!
 
A que ponto chega um ser humano! Perde a sensibilidade, perde o bom senso, acostuma-se à sujeira, ao fedor, à podridão e não consegue mais preferir aquilo que é bom! Porque assim diz o Senhor Deus, o Santo de Israel: Voltando e descansando sereis salvos; no sossego e na confiança estaria a vossa força, mas não quisestes. (Is 30:15). O pecado é assim, chega sorrateiro, invade a vida da pessoa, destrói os seus valores, o seu patrimônio cultural e familiar, despe-o da limpeza, lança-o nas ruas e sarjetas da vida e, por fim, impõe sobre ele o jugo de não querer mais sair desse atoleiro! Estou cansado de ouvir histórias de gente que foi ajudada, amparada, que recebeu cuidados e que, de um dia para o outro, lançou-se novamente às ruas, à vida anônima de andarilho, aos córregos fétidos e aos pés sujos de uma caminhada infeliz!
 
 O Sr. Gilberto, sem ter consciência da verdade disse convictamente: "JÁ ME BANHEI".
 
Banhou-se? Em quê? Numa toalha que emporcalhou? Sem água? Sem encarar de frente a sua sujeira?
 
Assim também é aquele que se envolve no pecado. No princípio é uma sujeirinha moral que não é confessada. É um deslize, uma traição, uma bebedeira, um joguinho a dinheiro, uma bituca de cigarro, uma garrafa de cerveja, uma pornografia curta. Então, com as garras enfiadas na mente, Satanás coloca o seu jugo, a sua corrente, o seu império, sobre a vida do pobre infeliz. Afunda-o no lodo da imoralidade, na indecência dos relacionamentos, no abismo das mentiras, na imundície da promiscuidade, nas desonestidades comerciais.
 
E se lhe perguntam sobre a sua fé, ele diz: "Já me converti!"; "Já sou cristão"; "Já fiz as minhas orações"; "Já lí a minha bíblia". O Sr. Gilberto disse que era crente. Que engano! Ele é um pobre escravo da perdição, que chama de banho uma toalha seca. Os tolos se acham limpos no coração, mesmo sem terem se lavado no precioso sangue do Cordeiro de Deus. Eles se satisfazem com a toalha seca de uma reza, de uma promessa, de um amuleto, de um passe espiritual, de uma caridade, quando ignoram por completo o prazer de uma conversão, de uma rendição total ao Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo! Cristo, que transforma o homem por completo, não é por eles procurado. Pelo contrário, eles acham que tem Cristo, como o Seu Gilberto, que pensava ter tomado banho.
 
Olhei para o chuveiro do meu gabinete, o meu sabonete, o meu xampu e pensei: bendito seja Deus pela sensibilidade que não me foi retirada! Nem de longe imagino o dia em que preferirei a sujeira ao invés de um banho quente. Graças a Deus tenho água e material de higiene com o qual posso banhar-me quantas vezes quiser. Mas lamentei por esse infeliz que, conquanto eu tenha lhe estendido a mão, recusou-se receber amparo, deliberou continuar do jeito que estava.
 
Seu Gilberto seguirá sujo, achando que está banhado e limpo. E o pecador inconverso seguirá imundo, caminhando para o Inferno, pensando que tem Deus e que está salvo. Ledo engano dos dois! Pobre escravidão de ambos! Que Deus tenha misericórdia destes miseráveis e que lhes mostre, de forma evidente, a sujeira de suas vidas, a do primeiro no sentido físico, moral e espiritual, e a do segundo no sentido espiritual.
 
Ambos precisam de um banho.
 
E você, já se banhou?
 
Wagner Antonio de Araújo

20/07/2017

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